Democracia é democracia

Imagine, por um instante, que, no ano que vem, quando o João Doria começar a exercer suas funções como prefeito de São Paulo, ele não consiga governar. Vamos supor que sua governabilidade esteja praticamente nula porque a câmara dos vereadores, numa manobra conchavada com partidos outrora aliados e da oposição, não aprove nenhuma de suas propostas. E que as contas públicas e a economia da cidade comecem a entrar em um colapso. Enquanto isso, imaginemos que as pessoas que não votaram no Doria simplesmente não consigam aceitar o fato de ele ter sido eleito democraticamente — e que, com outra manobra, consigam tirar o Doria do poder sem nenhuma razão constitucional. Vocês que votaram nele achariam um absurdo, não é? Digno de manifestações, motins, levantes e afins.

História absurda, não é? Não sei nem se preciso explicar a comparação que fiz acima. Mas por desencargo de consciência: o mesmo ocorreu a nível nacional há pouquíssimo tempo. E muitos dos eleitores do Doria não acharam tão absurdo assim.

Das conversas que tive com os eleitores de Fernando Haddad, nenhuma questionou as regras do jogo. Foram todas algo como: “Bola para frente”, “Em 2018 ele se candidata a governador”, “Deveríamos ter nos esforçado mais”, “A esquerda precisa se unir”, entre outros. É assim que funciona. A vida é um eterno perde e ganha, como disse Marcelo D2. A gente é jovem e olha para o futuro. Busca o novo. Tem sede de transformação. E, via de regra, não abaixamos a cabeça para uma luta. Mas não questionamos as regras do jogo. Sabe por quê? Porque democracia é democracia.

Fabrício Bernardes

 

Eu quase perdi este blog

Fiquei muito tempo sem escrever. Foi tanto tempo que perdi o domínio deste blog durante meses. Também perdi o domínio de uma série de outras coisas na minha vida neste entremeio. A verdade é que não sei mais a diferença entre viver dez ou 1 000 dias. Pode ser que nunca soubesse. Mas isso começou a me incomodar só agora. O tempo passou tão rapidamente que ficou realmente difícil de contabilizá-lo. Engraçado que, ao mesmo tempo, sentia o peso de cada dia que passava em que não tinha vontade ou inspiração alguma para escrever — no blog ou em qualquer lugar. Estava me sentindo como uma bexiga cheia de ar, prestes a explodir.

Se alguém um dia alguém disser que as pessoas escrevem por uma razão que não seja egoísta, não acredite. Os bons escritores são extremamente egoístas — e presunçosos. Eles podem até inventar histórias que, à primeira vista, parecem não ter nada a ver com suas vidas. Mas, na verdade, apenas querem esvaziar uma avalanche de emoções que existe dentro deles. No final das contas, estarão escrevendo sobre eles.

Veja o exemplo de uma obra chamada “Memórias de Adriano”, da escritora belga Marguerite Yourcenar (vou usar essa obra como exemplo, mas poderia ser qualquer outra). O romance mistura realidade com ficção num fluxo de consciência de Adriano, um dos mais célebres imperadores romanos, contado em primeira pessoa pelo próprio Adriano — ou pela própria Yourcenar. A autora teve tamanha sagacidade ao escolher as frases que iriam rechear o livro que, por vários momentos, é normal se esquecer de que não é propriamente Adriano quem escreveu o livro. “Foi dessa maneira, com uma mistura de prudência e audácia, de submissão e revolta cuidadosamente calculadas, de extrema exigência e prudentes concessões, que acabei finalmente por aceitar-me a mim mesmo”, diz Adriano — ou Yourcenar — numa parte da obra. A autora se conectou tão bem com a vida do imperador que ficou realmente difícil separar um do outro. Ela estava se pronunciando por meio dele. Se apropriou dele para jogar todo o seu egoísmo — seus sentimentos, pontos de vista, angústias, frustrações — no mundo. Mas de uma maneira formidável, convenhamos. Afinal, Yourcenar foi uma das maiores escritoras do século passado. Foi a primeira mulher nomeada à Academia Francesa de Letras.

Pois bem. De volta ao mundo dos mortais, aqui estou eu, humildemente tentando fazer algo parecido com o que Yourcenar fez — usar outras pessoas, fatos, histórias para justificar meu egoísmo. Engraçado. Quando eu trabalhava em redação de revista, sempre chegava um momento em que eu ia ter de escrever minha reportagem para entregá-la ao meu editor — quer me sentisse preparado, quer não. E era sempre nessas horas que empacava. Me dava branco, achava que tudo estava uma merda, que não ia dar tempo, que faltavam informações. Toda vez que me encontrava nesta situação, pensava em quão fácil era escrever neste blog. E pensava em como queria que os textos das matérias saíssem tão espontaneamente quanto saíam os deste blog.

O problema é que, ultimamente, escrever aqui tem sido o mesmo parto que era escrever nas revistas. Não foi fácil fazer este post. Comecei a escrevê-lo bêbado um dia, depois de chegar da balada — mas não consegui finalizá-lo. Só na terceira vez que voltei aqui, consegui desenvolver algo com começo, meio e fim (naquelas, né). Não sei se tem a ver com o fato de eu não trabalhar mais em redação — pode até que, em parte, seja por causa disso. Mas, na verdade, acho que o maior problema é aquele diacho do egoísmo mesmo. Só quero escrever para falar de mim, eu, eu, eu. Como fazer este texto ser interessante para os outros também? Como representar outras pessoas? “Tente falar de amor”, digo a mim mesmo. “Tente falar de algo genérico da sua geração, a Y, estilo aqueles que bombam toda semana no Facebook”, digo a mim mesmo. Não sai nada, nadica de nada.

Talvez seja fase, mas está difícil me conectar com os outros. Está difícil traduzir sentimentos em palavras. Desculpe, leitor, se você veio aqui procurando algo mais interessante. Mas isto é o máximo que posso oferecer. Se serve de lição, seja egoísta às vezes. Faça os outros perderem tempo com você (assim como você perdeu o seu lendo isto aqui). Tudo o que é grandioso, homérico, digno de imperadores, começou com um simples ato de egoísmo. Ou você acha que Adriano se tornou imperador à toa? Eu já estou me sentindo bem melhor agora. Terminei o texto sem roer uma unha.

Adriano, o Imperador, e Marguerite Yourcenar:

Adriano, o Imperador, e Marguerite Yourcenar: as boas — e magnânimas — decisões começam no nosso íntimo, no nosso espaço mais egoísta

Fabrício Bernardes

Amores Risíveis

I – a rejeição do inexistente

Não existe momento mais solitário do que aquele que antecede a farra
Para te conquistar, basta ser tudo — menos uma boa pessoa
Então, faz frio
Eu vejo lágrimas escorrendo do seu rosto
Você diz que é por causa do frio
Eu digo que nunca tive a intenção de colocar uma aliança no seu dedo
E você diz: quero ser seu, sua cachorra, sua esposa.
Não digo nada
Você diz: era para estarmos juntos, eu te amo.

Eu conheço o risco do amor, mas o amor é sempre risível. É um sem-fim cíclico de expectativa, sedução e desilusão que não leva a lugar nenhum. É como andar em círculos — suas pernas não aguentam mais caminhar. E, mesmo assim, você praticamente não saiu do lugar. O amor é estático, imóvel. Nunca leva a lugar nenhum. É uma felicidade infinita com hora marcada para acabar.

II – a valorização do medíocre

Eu estou no metrô com você
Voltando da festa
Te conto da minha infância
Abro meu coração
Conto como brincava de bonecos e de ser super heróis
Faço o máximo para ser um humano
Mostro minhas fraquezas, minhas inseguranças
Tiro minha armadura
Mas você é uma pedra, bonita, mas uma pedra
Como aquelas que me fascinavam quando eu era criança
Lindas, porém medíocres

Eu juro que já tentei de tudo para acabar com minha solidão. Das maneiras mais diversas possíveis. Mostrei meus aspectos mais lindos, tão bonitos como flores. Mostrei minhas características mais sórdidas. Mostrei meu eu mais egoísta. E já fui a pessoa mais altruísta que alguém já conheceu. Mas percebi que, nessa caminhada, não conheci ninguém diferente. Caricato.

III – a satisfação do grotesco

Estamos voltando para casa
Você está ao meu lado, no carro
Deu tudo certo — conheci todos os seus amigos
Eles me adoraram
Causei boas impressões
Com você e com eles
Minutos depois, xingo você sem parar
E mais tarde não me lembro de tê-lo feito
Estraguei tudo

Já te chamei de senhora, sem te conhecer. Porque você poderia ser qualquer uma, num mundo povoado por bilhões de pessoas. Será que o mistério está em você ou em mim? Se fosse possível obter a resposta correta para o enigma mais intrigante da minha vida. Perguntaria para mim ou para você? O que é a nossa história? É minha ou é sua? É nossa? Afinal, quando dois corações se unem, é certo falar em nós? Gosto de criar histórias nas quais não existe apenas eu. Alguém tem de estar junto. E toda vez que eu me uno, já não sou mais eu mesmo. Então, de quem é a culpa? Quem estragou tudo? Eu, porque fui um bom homem? Ou você, que foi uma pessoa ruim? Eu, porque fui uma pessoa malvada? Ou você, que foi uma mulher bondosa? Uma vez dessas, foi diferente. Eu fui eu mesmo — com qualidades e defeitos. E você foi você mesma. Mais ninguém importava e o mundo era só eu e você. Tinha dado certo.

IV – o êxito dos astros

Há pouquíssimos homens sinceros no mundo
E Deus sabe disso.
Mas a nossa história é um tesouro
Guardado nas estrelas e selado pelos planetas
Um símbolo de esperança desenhado pelas constelações
Duas almas tão complementares
Quanto dois espelhos em face um do outro, refletindo a eternidade
Mas você está longe, tão quanto está a Terra de Júpiter
Eu me desfaço à medida que meus pés se encontram em duas placas tectônicas distintas
Quando você partiu, o céu escureceu para sempre e passou a me iluminar com escuridão
O firmamento chorou e a depressão choveu em mim
Eu vivo esperando o seu retorno
Eu aguardo o êxito dos astros

Agora eu sou uma estrela cadente. Deixo todos comendo poeira e apontando para mim. Sinto um mal-estar na minha Via Láctea crescer de maneira exponencial. Tudo me parece sem gravidade. O amor voltou, afinal, ele nunca tinha ido embora. Eu espero o encontro dos astros. Eu aguardo um desastre. Os amores que não deram certo são absurdos. São como rejeitar o inexistente. São como dar valor ao medíocre. São como se sentir satisfeito com o grotesco. Os amores de verdade são como o alinhamento dos astros. Acontece apenas uma vez na vida. É a eternidade.

“J’attends la réussite des astres/désastre” — Nekfeu

Amores Risíveis (Risibles Amours)

Amores Risíveis (Risibles Amours): é uma canção do rapper francês Nekfeu, baseada no livro homônimo, do escritor Milan Kundera

Fabrício Bernardes

Noites de insônia

Noites de insônia são assustadoras. E elas não acontecem à toa. Normalmente, uma pessoa não consegue dormir quando está muito preocupada. Ou incomodada com algo. Às vezes, está triste. O meu caso deve ser uma mistura de tudo isso. Estou preocupado, sim. Com o trabalho. Mas veja se pode. Até parece que não sei que trabalho vai e vem. Um dia se está aqui, outro dia se está ali. Ainda mais eu, que sou jornalista, profissional acostumado com as reviravoltas da vida de laboro — na qual é normal ver 30, 40 colegas serem despedidos num só dia. Me dá agonia só de repensar nas vezes em que encontrei amigos no banheiro ou no elevador chorando porque haviam sido demitidos sem alguma justificativa plausível, que não fosse simples corte de custos.

Além de preocupado, também estou incomodado. Há tempo sinto que me curvei diante das amarras e obrigações da vida adulta. Juro, se eu me visse com 15 anos na posição em que estou atualmente, com certeza não me reconheceria. Não só não me reconheceria, como teceria uma infinidade de críticas a mim mesmo. Sério, estou há cinco anos sem férias. Ainda sonho com as curvas ladrilhadas de Barcelona. Ou com as paisagens rochosas da Bretanha. Ou com as folhas alaranjadas que caem nos outonos de Montreal. Ainda sonho com vidas diferentes. Em ser alguém diferente a cada dia do ano. Em conhecer pessoas novas. Em carpe diem… Então, você me pergunta. Por que não vai viver essas vidas? Também não sei. Do que tenho medo? De desapontar. Mas desapontar a quem? Minha família. Mas por que eles haveriam de ficar desapontados com as suas novas resoluções de vida? Não sei. Então o que lhe prende aqui? Não sei.

Também estou triste. Estou envelhecendo e a perspectiva de encontrar aquela pessoa que vai me amar pelos meus defeitos e não pelas minhas qualidades está cada vez mais dubitável. Até encontrei pessoas assim. Mas estraguei tudo. O que posso fazer? Não sou perfeito. Mas daí tem aquelas que você pensou que seriam aquelas pessoas. Mas não foram. Malditas! A vontade que tenho é de voltar no tempo e… Não sei. Não tenho coragem de fazer mal a ninguém. Acho que não mudaria nada. Mas como é difícil ser rejeitado. Eu fico imaginando um monte de hipóteses sobre por que fui largado. E nenhuma, nenhuma mesmo, é plausível. Então, transfiro a culpa ao outro. “Eu era bom demais. Ela que saiu perdendo”, penso. Bobagem. No fundo, sei que o problema mesmo era eu. Em seguida, penso que devo me cuidar mais. Prestar mais atenção no que me faz ser uma pessoa boa. Sabe, cuidar mais de mim — ler um bom livro, comer menos chocolate, ir ao taekwondo com mais frequência, assistir a um bom filme. Enfim, criar hábitos mais saudáveis.

À vista disso, penso em como seria bom se conseguisse fazer tudo isso que propus a mim mesmo acima. Talvez só assim eu desencalhasse e conseguisse ser uma pessoa feliz. Então, penso em como seria incrível se tivesse tempo para fazer tudo isso. Mas, claro, não dá tempo! Não dá tempo de fazer tudo aquilo e ainda… Dormir. Pois é, preciso dormir.

A verdade é que as noites de sono escondem muita dor. Noites de sono são anestésicas. A insônia vem quando está tudo tão fora de ordem que o sono não consegue vencer a batalha travada diariamente contra nossas agonias. Quando a insônia reina, a revolução deve ser feita internamente. Logo eu, que sempre fui um entusiasta de revoluções e da justiça social, estou aqui — tentando travar a batalha mais intimista de todos os tempos. Nunca pensei que seria tão egoísta.

Ser sonhador é bonito até a primeira vírgula. É bonito quando sua mãe fala, cheia de orgulho, para os outros que você é uma maquininha de ideias, que nunca está parado e que tem uma sensibilidade fodida. Parece bacana quando o seu psicólogo diz naqueles testes vocacionais: “Fabrício, você é um sonhador, gosta de viajar, de ajudar as pessoas e tem talento para profissões com contato humano.”

Agora, vá tentar encaixar essa caralhada de sonhos na sua vida e veja se consegue realizar, ao menos, 15% deles. Não é bonito querer tudo. E ser “sonhador”, “romântico”, “utópico”, “lírico” é que nem ser palhaço. Só é engraçado quando é o outro. Se for você o palhaço, tem alguma coisa errada. Ou alguma vez na vida, quando lhe chamaram de palhaço, você achou que aquilo era um elogio?

Niilismo, revolta, inquietação, desumanização, cansaço. Eis como começa um dos poemas mais importantes de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, escrito em 1928, chamado Tabacaria.

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

O homem que tinha todos os sonhos do mundo precisou criar 127 heterônimos para “neutralizar” sua “loucura”. Uma das personas de Pessoa era brasileiro(!!!). Será que Pessoa tinha insônias também? Tinha. É só colocar no Google.

Pessoas

Álvaro de Campos: “Quando olho para mim, não me percebo.”

Fabrício Bernardes

Cartas a Idalina

Idalina, hoje é meu aniversário. Estou envelhecendo. Mas que o Senhor não escute minhas reclamações — e que esta carta fique apenas entre mim e você. Afinal, tenho duas mãos perfeitas para escrever o que lhe escrevo. Duas pernas perfeitas para chegar onde quiser e uma saúde que não me tem falhado há tempos. O problema é que, hoje, não consegui fazer mais nada que não fosse dar voltas e voltas pelo corredor da minha casa. Desatei a andar numa caminhada curta de tamanho, porém larga em número de horas. Não sei muito bem. Talvez seja a falta do mar para consolar minha solidão. Eu já não sei o que aconteceu de verdade. Mas tenho certeza de que sinto sua falta. Mesmo sem nem saber direito quem você é hoje em dia. Peço perdão pelas minhas reclamações porque sei que quero tantas coisas que não tenho. Parece que me falta lembrar das coisas que já possuo. Por isso, não me parecem dignas minhas queixas. Enfim, hoje é meu aniversário e cá estou um ano mais próximo da morte. Não tenho mais certeza se estou feliz pela sua existência. Justamente porque ela me transformou no que me transformei esses anos.

Enfim, na verdade, a razão pela qual lhe escrevo é para que você veja como estou lidando melhor com essas datas. Eu não estou passando meu aniversário sozinho — afinal, estou próximo de você, escrevendo-lhe. Idalina, hoje as ruas estão frias e chuvosas. Não chovia faz tempo aqui. O ar estava ficando cada vez mais seco. Por isso, sinto com mais força a fumaça do cigarro que você outrora fumou entrar em meus pulmões. As árvores estão judiadas e, secamente, me disseram durante esta semana inteira: “volte para a sua casa.” E cá estou, escrevendo-lhe. Na verdade, não estou muito seguro de quanto tempo faz que não saio de casa e há quanto tempo chove. A única coisa que tenho segura em minha mente é como você parecia naquela camiseta cinza, com o cabelo encaracolado, me olhando daquela janela. Idalina, agradeço-lhe por existir porque sei que minha existência está condenada à sua. E, quanto mais ficamos longe, mais próximo me sinto da vida e, por consequência, da morte. Eu deveria estar chorando por passar mais um aniversário assim. Mas, justamente porque decidi lutar, cá estou andando sem parar e sem pensar em meu apartamento. Idalina, quando lhe disserem que a vida é curta, aproveite. Quando lhe derem uma rosa, não hesite em cheirá-la. Se algum dia você for presenteada com um livro, não deixe de devorá-lo.

Eu ainda sinto o gosto da última macarronada que cozinhamos. Não posso me recordar muito bem de quando isso aconteceu, mas parece que ainda estou com bafo de alho na boca. Idalina, tudo o que comemos nos faz viver. Tudo o que nos faz viver vem da terra, do cultivo, do preparo, do cuidado. Tudo o que faz bem — e às vezes não tão bem assim — nos é proporcionado pelo Senhor e é por isso que lhe agradeço tanto. Idalina, lembre-se de que, enquanto você respirar, ainda estarei ao seu lado torcendo para que o Senhor e a terra tenham lhe proporcionado o mesmo contingente de felicidade que me foi garantido. Afinal, sou feliz. Não sou? Idalina, lembre-se de é preciso cuidado, carinho e petulância para chegar aos lugares em que mais desejamos estar. Recorde-se de que, no final das contas, nem tudo nos é proporcionado, porém tudo vem da terra. Aproveite o que lhe é dado, pois às vezes será necessário batalhar pelo que desejamos. E nem sempre a luta é válida ou justa. Portanto, escute Chopin, mas lembre-se de que a melodia — por mais maravilhosa que seja — sempre terá um final. Assim como a vida, assim como o nosso amor.

Do seu querido e sonhador,

Hermengardo.

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(Des)encontros: A única coisa que tenho segura em minha mente é como você parecia naquela camiseta cinza, com o cabelo encaracolado, me olhando daquela janela.

Fabrício Bernardes

Barreiras

A moça, morena e de cabelos ondulados, se encontrava presa em mais um dos rituais provenientes do que se diz sobre ser uma boa mãe. Ela tinha que levar a filha ao aeroporto para se despedir de seu pai Johann — um holandês com quem esteve durante menos de uma noite, há muitos anos.

Juliana se via presa de várias maneiras. Algemada numa relação de estranhamento com o homem com quem teve sua filha, no que a sociedade e sua família julgam sobre deveres maternais, na culpa que sente pelo fato de Johann ser distante da  filha — e naquele aeroporto cheio de gente apressada. Isso porque era domingo.

- Mãe, o papai está chegando – sua filha Mariana havia interrompido seus pensamentos.

- Oi, Johann, tudo bem? – perguntou Juliana.

Ele respondeu que “sim, tudo ótimo” em inglês e deu um forte abraço na filha. Levantou-a no colo. Já estava cada vez mais difícil brincar com ela assim — afinal, ela já tem mais de seis anos e está ficando pesada. O tempo passa. Ainda mais para ele que via sua filha tão raramente. Ele estava indo para mais uma missão internacional. Desta vez, ia à África e só Deus sabe quando voltaria. Há seis anos, os cabelos encaracolados e dourados de Johann eram bem mais chamativos. Juliana nunca vai se esquecer do dia em que viu os olhos de Johann mais azuis do que em qualquer ocasião. Como se fossem rios provenientes de uma complexa bacia hidrográfica, seus vasos sanguíneos avermelhavam o entorno de sua íris, deixando-a reluzente como uma enseada caribenha. Ele estava chorando — sua filha nascera de sete meses e poderia não sobreviver. “Nunca vi o Johann tão abalado em sua vida”, pensou Juliana. Os dois se encontravam um ao lado do outro no corredor do hospital. Johann chorava. Juliana sofria. “Olhando daquele vidro, ela parecia tão pequena, tão indefesa e, principalmente, tão sozinha”, refletiu Juliana.

Johann não largava da filha. Mariana, é claro, se regozijava com tanta atenção. Foram poucos os momentos em que teve seu pai e sua mãe tão perto ao mesmo tempo.

- Tchau, Ju – disse Johann num português carregado.

- Bye, take care – respondeu Juliana a três palmos de distância de Johann. Eles não haviam se tocado nenhuma vez naquele dia.

Johann estava agindo como um pai babão. Deu incontáveis beijos em Mariana. Abraçou-a, brincou com o seu cabelo, fez cócegas nela. Por fim, deu um último beijo na filha e seguiu seu rumo para morar longe de novo. Johann era corpulento, alto e andava de maneira desastrada por causa das duas malas de mão que carregava. Ao seu lado, uma faixa preta — aquelas usadas para formar filas de aeroporto — o separava de sua filha e de Juliana. Johann parou de andar inesperadamente. Causou tumulto entre as pessoas que estavam atrás dele, deu meia volta e violou a faixa. “O que ele está fazendo? Será que esqueceu alguma coisa? Será que desistiu de ir?”, pensou Juliana. Johann se aproximava fixando seus olhos azuis nos olhos marrons da moça. Juliana estava confusa e tensa.

Ele a abraçou por 30 segundos e, sem dizer uma palavra, retornou à fila do seu voo. Johann havia transposto uma série de barreiras que o separavam de Juliana: a geográfica, a linguística, a do silêncio, a do estranhamento, a da falta de amor entre eles e até a do vidro que outrora os separou da filha na maternidade. Aquela faixa foi a única barreira (in)transponível.

Fabrício Bernardes

Chypre

Não sou muito bom de poemas. O vício da fala sempre esteve impregnado em mim. Por isso, gosto mesmo é de prosear. Mas, às vezes, o poema vem — e eu não posso fazer muita coisa senão escutar minha inspiração. Daí, escrevo em qualquer lugar — na agenda de telefone da minha vó na mesa da cozinha, no bloco de notas do celular, no computador.

Tudo começou em meados de 2012. Estava envolvido num projeto experimental do segundo ano de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero para criar um veículo de comunicação que desse voz à avenida mais bonita de São Paulo, a Paulista. O problema era que, como sempre, não podíamos fazer “jornalismo tradicional”. Tínhamos que inovar. E inovamos. Elaboramos o m900, site de hiperlocalização com pautas e estilos de textos variados, diferente do que se veria num jornal, e, embora hiper local, extremamente universal. Infelizmente, o portal não está mais no ar.

No meio dessa efervescência de ideias, ao caminhar pela Paulista, poemei. O poema que escrevi passou a integrar o editorial do produto que havíamos criado. E se o poema não pode ficar eternizado no site que criamos, que fique eterno por aqui.

Chypre

No mosaico-constelação da Avenida Paulista,
Tudo começa na Consolação,
O prédio que troca I por Y
A praça sem lugar de convivência
O idoso que dorme no banco do Conjunto Nacional
O ciclista que manobra na esquina da Ministro
A mulher que erra o caminho
A moto que quase atropela quando se atravessa na faixa atrasado
O motoboy que se arrisca no trânsito frenético
O alívio de achar um lugar para sentar
O espetáculo da vida de uma cidade subdesenvolvida. Na maior metrópole de um dos países mais injustos do mundo
O coração que bate acelerado de um gigante não mais adormecido
Um espelho da cidade em todas as suas contradições
A melodia vazia do surdo que atravessa a rua
O espetáculo transparente nas pupilas do cego que passa pelas calçadas de relevo da paulista
O executivo que comemora sua promoção
O mendigo que …
A mulher paulistana que desfila a sua beleza e inquietudes
A pressa. O devaneio
O sol, a luz, os carros, os ônibus, as conversas, as pressas, os encontros, os desencontros, o calor, o frio, o cansaço, a harmonia de cima, a desordem de baixo, o xadrez das camisas, o bronzeado da pele, o negro das calças sociais, o verde do farol, o amarelo das blusas, o vermelho do Masp
A ordem na desordem
A instabilidade do ser humano
O ponto de encontro
O celular que atrapalha a caminhada
As histórias no olhar
As transmissões de rotinas
A música nos fones de ouvido
A estagnação do contemporâneo
Uma Paulista sensorial. Uma miscelânea de sensações. Uma guerra dos sentidos para ver quem fala mais alto. Ou toca mais com mais intensidade. Ou escuta mais alto. Ou cheira mais forte. Ou saboreia com mais intensidade. Ou quem pressente com mais certeza. Um combate entre os seis sentidos
E, ironicamente,
Tudo acaba na Paraíso.

Para concluir a história, a minha amiga jornalista Caroline Zilberman teve a ideia de adaptar o poema. Ela produziu um vídeo no qual ninguém menos que os próprios frequentadores da Avenida Paulista recitam a obra. Lindo. Minha grande amiga Luana Martins e meu amigo André Oliveira (também jornalistas, todos da minha sala) ajudaram Caroline na tarefa. E, repito, ficou lindo.

Fabrício Bernardes

Suborno de amor

Há uns poucos dias, eu estava em casa lavando a louça antes de ir ao trabalho e escutando música ao mesmo tempo. Inesperadamente, começou a tocar uma canção velha, do cantor gaúcho Armandinho, de cuja existência eu já tinha até esquecido — mas que me trouxe para o passado, para a época em que estudava na Espanha.

Tinha 19 anos e estava num ônibus que saía de Madri, passava por Zaragoza e chegava em Barcelona. Eu sentei do lado de uma amiga. Sim, uma amiga que eu tinha conhecido na capital. Lembro como se fosse ontem. Da gente na sala de aula. Ela sentada na primeira carteira e eu na última. Ela era linda. Até demais. Beleza brasileira — morena, pele bronzeada, cabelos lisos e castanhos, olhos cor de mel e um sorriso cativante. Sem mencionar sua simpatia. Achei melhor fingir que não estava interessado. Não teria chance de qualquer maneira. Então, no meio da aula, trocamos farpas. Eu havia sido grosseiro. Descobri também ao ouvir sua voz que ela era carioca. Instigante. O mundo, estranho que só, acabou conspirando para que nos tornássemos colegas. E lá estávamos, com mais três amigos, viajando para Barcelona.

Acabei sentando ao seu lado no ônibus. Tinha de mostrar serviço. Afinal, como posso estar sentado ao lado desta gata e nem ao menos flertar com ela? E daí, com o papinho mais sem graça e pretensioso do mundo, comecei um diálogo. Descobri que ela me achou “metido” de cara, mas depois simpatizou comigo. Disse-lhe que pensei o mesmo dela. E rimos. Estava indo bem. Minha malícia, meu charme, minha inteligência estavam me ajudando. Então, decidi fazer o romântico e peguei qualquer musiquinha bonitinha que tinha no meu Itunes e a fiz escutar. Era uma do Jason Mraz, que já tinha mandado para várias antes dela. Sinceramente, não entendo como eu conseguia ser tão brega. Mas, enfim, ela escutou. E gostou. Hoje sei que a canção é, de fato, bonita. Se chama Beautiful Mess. Não sei se ela ficou bonita por causa da Marcella ou porque ela é bonita mesmo.

Sempre achei que esse meu jeitinho sensível e romântico ajudava a conquistar quem eu queria. Na verdade, isso só contribuía para que eu ficasse sempre na zona da amizade e enterrar cada vez mais minha autoestima. Eu sabia disso, mas era o único jeito que eu sabia paquerar. O que foi diferente desta vez? Ela gostou! De verdade. Dava para ver nos olhos dela. E com um mero sorriso ela me despedaçou da mesma forma que faria se tivesse jogado um vaso de vidro no chão. Ela havia gostado de mim pelo o que eu era. E ninguém, nunca, jamais, em nenhuma outra circunstância, poderia ter feito algo tão bom por mim quanto aquilo. Hoje, enxergo isso com clareza. Na época, simplesmente fiquei sem chão. Completamente apaixonado por uma menina que morava a 600 km de mim no Brasil e que estaria comigo na Espanha por mais três semanas no máximo.

Ela estava apreciando tanto a minha companhia que me mostrou uma música também. Aquela do Armadinho da qual falei anteriormente — e que diz “eu vou te subornar com meu amor”. Ela disse que achava aquela canção linda. Eu, desligado e presunçoso que era, nunca tinha parado para prestar atenção na letra. Só gostava do ritmo e achava estranho essa coisa de subornar com amor. Ela me explicou o sentido da música e eu achei lindo — é sério, prestem atenção nos versos. Aposto que vocês vão achar fofo.

Todavia, ela namorava. Estava ficando com um cara lá do Rio. E quando me falou aquilo, eu não tive outra reação senão chorar (!!). Como um bebê que sai da barriga da mãe. Era incontrolável. Isso nunca tinha acontecido comigo na frente de um estranho. Além disso, nunca fui de chorar. Mas eu estava tão desarmado por aquele sentimento que não sabia nem mais o que estava fazendo. Marcella me abraçou. E eu deitei no seu ombro. Me senti um homem realizado.

Hoje tenho gostos diferentes, visões diferentes e devo ter amadurecido um pouco desde então. Já não me acho o rei da cocada preta como antes. Já não me acho tão inteligente, tão sensível, tão genial, tão romântico, tão charmoso — e nem tão bom escritor. Mas no meio de todo o emaranhado de deslizes que eu era, ela enxergou luz em mim. Engraçado, a música que eu dediquei à Marcella, Beautiful Mess, fala da sua insegurança e das suas grosserias — mesmo que tudo isso se encaixe numa beleza fenomenal. Hoje, vejo que o inseguro e o grosso foram eu. E a beleza fenomenal continua sendo dela. Na época, sentia raiva de não tê-la comigo.

Hoje, sinto gratidão por ela ter visto o que nem eu conseguia enxergar de bom em mim. Pode soar exagero, mas foi como renascer de novo. Sua mãe te ama durante nove meses dentro da sua barriga. Depois, você tem de sair do lugar mais confortável em que vai estar durante a sua vida inteira — que é dentro dela. E o que você faz quando chega ao mundo? Chora. E em seguida? Faz teimosia. Por último, pensa, repensa, reflete e agradece por tudo o que sua mãe já fez por você.

Marcella, obrigado por ter me feito chorar. Você me transformou num homem.

“It’s like taking a guess when the only answer is yes” — Jason Mraz.

Fabrício Bernardes

Ditadura genesial

I’ll sing you a song, close your pretty eyes
I like to hear you breathing
It’s like the soundtrak of my life
The only memory I’m keeping

Enumere todos os formatos redondos em que você consegue pensar. Sol, bola de futebol, laranja, lua cheia, roda de veículos, umbigo. Redonda também é a minha cara, cheia de rugas. Essas marcas de expressão não são aquelas que vêm com o tempo, mas com a vivência, com o sofrimento, com os traumas. Ninguém aqui foi escravizado ou torturado. Essas rugas são fruto de picadas que levamos todos os dias em nossas faces. Aos poucos, vamos ficando cheios de hematomas e furúnculos — mas ninguém os enxerga. Porque quem pica é o bicho da solidão, do estresse, da inveja, da preguiça, da covardia e até da burrice. São marcas invisíveis, que passam desapercebidas até pelos aparelhos de raio-X mais avançados.

Olhos entreabertos, cabelos opacos, a barba mal feita, a bochecha flácida, a sobrancelha desarrumada, os cílios caídos, os lábios rasgados pelo frio… Uma ausência de harmonia horrorosa para levar a vida que todos conhecemos como desarmônica. Quanto mais fechado fico no meu quarto, maior a sensação de ter vivido tudo de ruim que poderia ter me acontecido. O medo de sofrer é grande e tão presente quanto o oxigênio em meus pulmões.

Você também passou por tudo isso. E cada um sabe a dor que é carregar a cruz que nos é designada. Já passamos por tudo e vamos passar por mais. Sabe aquela sensação proveniente dos segundos antes de um lindo desastre?

Tendo em vista que nada é como queremos que seja, está confirmado — teremos que viver assim. Nem mais, nem menos. Exatamente como deve ser. Você, cá. Eu, lá. Você segurando meus pertences e eu, os seus. Mas eu prometo que tudo vai ficar bem se você estiver nos meus braços. Contanto que você prometa o mesmo.

Eu sei. Eu sei que você também foi picado pelos mosquitos da vida. E eu eu enxergo suas cicatrizes tanto quanto enxergo as minhas quando me olho no espelho. Temos aparências distintas, porém feridas semelhantes. E tudo se encaixa numa sinfonia maravilhosa de Beethoven. Num flashback de tudo o que vivemos e vamos viver.

Você consegue ouvir, enquanto te conto esta história, meu coração despedaçado batendo? Você sabe que não dá para viver sem amor. Seria suicídio. Então, vivamos assim. Sob os ditadores da vida que nunca serão depostos. O tempo, a morte, o amor e a dor. Lutamos enquanto podemos, vencemos quando possível, apanhamos quando necessário. Mas juntos — partindo da noção de que o que criamos é muito maior que eu e você.

É aterrorizante, eu juro. Deitar minha cabeça no seu ombro é tão assustador quanto pular de um precipício e saber que eu vou continuar vivo. Mas escutar você respirando é tão reconfortante.

Eu prometo que não vou fugir. Prometo que vou estar para sempre com você. Você promete, também?

Ditadura genesial: sob os déspotas do Big Bang, vivemos.

Ditadura genesial: sob os déspotas do Big Bang, vivemos.

Fabrício Bernardes

Ébrio de amor

Sé molt bé que des d’aquest bar
Jo no puc arribar on ets tu
Però dins la meva copa veig
Reflexada la teva llum, me la beuré
Servil i acabat: boig per tu

Na areia da praia, escrevi o quanto te amava. E agora sei que nem a água salgada do mar pode apagar minhas palavras — contrariando o que me diziam sobre não escrever nomes na areia. “O mar sempre leva embora”, dizia minha tia, supersticiosa.

Deixe-me sonhar. Que você ainda está aqui comigo. Eu quero continuar sendo louco por você. E aqui estou, neste bar. Imaginando você, seu corpo e sua aura ao meu lado. Lá se vai outro copo. Eu quero brindar à sua ausência. E à sua presença.

Permita-me viajar em meus pensamentos. Eu quero seguir com a loucura. Embriagado e sonhador. Me falta tudo se você está faltando. Continuo sozinho aqui neste bar. Deixe-me aqui, bebendo mais este copo. Imaginando seu corpo aqui, iluminado pela lua.

Chove. E sei que ao amanhecer minhas lágrimas se misturarão com a chuva. Eu ainda estarei ébrio do seu amor. Deixe-me aqui. Eu quero brindar esta bebida à sua saúde. E devanear caminhando na linha do tempo. Relembrando nossos momentos e cambaleando para chegar ao presente.

Deixe-me continuar. Sabendo que estou louco por você. Sei muito bem que desde aquela vez… Eu não consegui chegar a você. Foi como ver a lua e não poder tocá-la. Visível, porém inalcançável. O frio faz forte. Ele entra dentro de mim e me relembra da sua ausência. E eu bebo mais este copo. Você sabe que eu estou louco por você. Passando os dias esperando as noites.

Responda-me. Como posso amar se você está tão longe? Mas, do meu copo, eu vejo sua luz no reflexo. E viro outro gole. É tudo chuva e lágrima. Que logo cairão ao amanhecer. Estou preso nesta luz e neste bar. Viciado e acabado: louco por você.

Mas não vou embora de maneira alguma. Sem fazer um brinde a você.

“Boig Per Tu” (louco por você): é o título de uma célebre canção catalã interpretada pela banda Sau

Fabrício Bernardes