O Deslumbre Metódico

Quando eu a vejo sentada naquele lugar de sempre, é normal que eu disfarce um sorriso. Sua simplicidade misturada com mais um rojão de características me coçam os lábios, e eles fingem um riso simples.

Talvez o que mais me chame atenção é o fato de sermos diferentes. Enquanto prezo pelo contínuo, livre, solto e despreocupado, sua mente traz regras. Estas, acopladas a um imenso buraco, imerso na alma, do saber-ser e tentar-ser. Tentar-ser, sim. Qual o problema? Nós tentamos ser tudo. Até quem somos de verdade.

É difícil saber o que pessoas querem ser, o que tentam ser e o que são de fato. Às vezes, nem a própria pessoa sabe. Mas, nesse emaranhado de ser, tentar e saber, o bruto que enxergo de seu ser é um ser metódico. No entanto, deslumbrante ao mesmo tempo. É bonito porque concilia o inconciliável. É doce e sistemático.

Assim como um herói necessita sua espada, ela não é nada sem sua agenda. Quando a observo escrevendo nela com a velha caneta roxa, percebo quão fácil e simples é ser feliz. Talvez o riso venha por isso. O que é preciso para ser feliz? Uma agenda. Sinto até uma certa frustração ao vê-la. Porque ela me mostra quão DESregradamente eu vivo. Mas a inveja branca logo passa e eu entendo que pessoas assim são raras. E eu, sinceramente, não conseguiria viver assim. Eu teria ficado louco. E admiro quem sabe ser feliz sendo assim.

Quando sua boca abre e fala articuladamente um turbilhão de palavras conectadas em elevada velocidade, às vezes, me transporto para outro lugar. O lugar das reflexões. Em que penso quão curioso são as pessoas diferentes. E nas milhares e randômicas características que fazem uma personalidade. Na verdade, não. Personalidade não. Pois esta é como impressão digital. Cada um tem a sua. Refiro-me às várias características que fazem o ser. E quanto mais você percorre este lugar que chamamos de mundo, mais você se fascina. Porque encontra milhares de seres diferentes.

Pode parecer que ser metódico é algo negativo. Na maioria das vezes, é. No entanto, o que a faz especial é sê-lo e isso não ser algo ruim. Isso é a mais bela conciliação do ser. Acho que uma agenda nunca teve uma conotação tão doce para mim. Quando a vejo sentada, escrevendo em sua agenda, planejando coisas inplanejáveis, involutariamente sorrio.

Sorrio porque admiro. Admiro que ela tenha a vida tão planejada a ponto de saber que seus planos não são infalíveis. O amor pode estar aí ao lado ou a milhares de quilômetros. E isso basta para que um plano seja arruinado, em nome do amor e da felicidade.

É sempre bom poder acabar um texto com aquele sorrisinho de lado. Aquele que não vem devido ao cômico, mas devido à admiração. Uma agenda, uma pessoa, um ser, um deslumbre metódico.

Fabrício Bernardes

1 thought on “O Deslumbre Metódico

  1. obrigada pelo texto maravilhoso e obrigada principalmente porque você mostrou um lado de mim que nem eu mesma percebia. talvez devesse ser óbvio pra mim, pois é uma característica que eu cultivo diariamente. contudo, às vezes o cotidiano me cega, mas confesso que não o suficiente para não saber o quanto eu gosto de você. e mais, conheci um fáfá que vai além da marinheragem e da matseza; um fafá filosófico ! hihi.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *