Estrelas Cadentes

Não sei porque lembrei disso esses dias. Ou melhor, talvez eu saiba e prefira dizer que não sei. O fato é que eu lembrei. Lembrei, sonhei acordada e senti saudades. Cansei de imaginar o “como teria sido se…” e inventei inúmeros se’s – alguns até sem pé nem cabeça. O que importa é que eu, com medo da minha memória cada vez mais estranha, resolvi escrever aquela cena final de filme romântico e tentar deixá-la intacta do tempo e do que é dito por aí.

O céu parecia saber que era primavera, mas a temperatura não tinha entendido que era novembro. Todos dormiam – até a piscina, as plantas, o forno, as toalhas penduradas, o baralho na mesa, meu livro de química. Todos, menos eu. E ele. Mas cá pra nós, de nada adianta duas pessoas acordadas, mas as duas sozinhas. A solidão de uma noite na praia é a pior de todas – você quase consegue ouvir o mar que, no meu caso, não está perto. E o mar, à noite, é a síntese da solidão.

O que importa, na verdade, é que a solidão, o livro de química, a música, todos foram acordados pelo cumprimento simpático de quem acabava de acordar. Aquele sorriso de quem está onde queria estar. E então toda a idéia de ficar sozinha no mar acabou: eu já não estava mais sozinha. Aliás, do mesmo modo que ele estava onde parecia querer estar, eu estava com quem eu queria estar. E a partir de uma conversa – completamente idiota, aliás – a cena do filme foi se desenrolando.

A menina sentou em uma cadeira e o mocinho em outra. Conversaram. Ficaram com frio, e então aproximaram as cadeiras. Mais frio ainda. Sentaram-se perto do forno recém apagado. Ele, um cavalheiro, sempre, ofereceu sua blusa para ela, que recusou. E continuaram conversando, falando bobagens, tirando sarro. Ela fez birra, sentou longe, cruzou os braços e olhou pra baixo. Ele foi se desculpar, e, como quem faz o que faz mecanicamente, beijou-a, levemente. Afastou-se, com medo de que tivesse feito o errado. E então percebeu a garota… não tinha feito o errado. E então um outro beijo – o da cena final do filme mais romântico que você conseguir imaginar – só confirmou que aquilo, que os dois – o mocinho e a mocinha – eram o certo.

A partir daí foi falada toda a sorte de falas de amor e juras eternas – nada cumprível, mas que deveria ser dito algum dia. Coisas do tipo “eu não queria ir embora” e que, essas sim, eu não esqueço. E o filme continuava. Sentaram-se à beira da piscina como para contar estrelas. Fizeram pedidos a elas e ganharam de presente estrelas cadentes. Muitas, todas. O mocinho do filme, para fechar a cena, disse serem aqueles os presentes dele: ela e as estrelas. E como em Cinderela – e também por causa do horário – teve que ir. Ir para voltar dois anos depois, mas tinha que ir. Despediram-se no dia seguinte e ela, como ele, também voltou à vida real.

E desde então é impossível eu fazer meu pedido à estrela sem me lembrar daquela noite, sem me lembrar dele. Algum tempo atrás contei estrelas e ganhei estrelas cadentes… com ele, aliás, mas em outras circunstâncias. O que vale deixar registrado é que, por mais fantasioso que pareça, eu ainda sonho com outra noite contando o céu e fazendo desenhos nas nuvens. E eu acho, de verdade, que depois daquela noite, deixamos pedaços nossos e de histórias e destinos soltos no céu aberto… e que eles ainda vão se juntar de novo.

Ana Luiza Campregher www.p-culiar.blogspot.com

Simplesmente magnífico. Tenho arrepios ao ler esse texto e, quanto mais o leio, mais o acho bonito. Parabéns à minha veter-ana.

Fabrício Bernardes

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