A classe B virou brega

No Brasil, por mais que você tente negar, a classe B virou brega. Felizmente. Não se fala mais de Bela Vista, de Jardins, de Santo Amaro, de Perdizes. A graça, a festa, é morar perto do Itaquerão. O Corinthians honra seu status de maior time do Brasil e, há tempo, tem dado show no futebol. Torcer para os riquinhos do São Paulo e para a italianada do Palmeiras é mainstream.

Na mídia, não se fala mais de europeus que vêm para São Paulo. Agora, é Haiti e Bolívia. Quem se diverte de verdade está dançando o Quadradinho de Oito com os amigos, não está mais indo à Vila Madalena escutar “samba de raiz”. O Haddad quer trazer a Universidade Federal de São Paulo para as zonas norte e leste.

A classe B é “meio intelectual, de esquerda”. A classe C bomba nos jornais, está na boca do povo, está nos aeroportos, nos eventos e nos shoppings. A classe C compra mais do que você. A favela faz música, o shopping de Itaquera fatura mais do que o do Anália Franco. Não tem mais graça ter passaporte europeu. Brasileiro não precisa mais de visto para entrar na Europa.

A classe C vai aos pontos turísticos de São Paulo e tira foto, faz bagunça e se diverte. A classe B passa de carro, com medo da blitz à noite. E ainda acha “brega” quando vê “neguinho” tirando foto no Masp. O Criolo arrasa nas letras sobre o Grajaú. A classe B dirige bêbada, arranca braço de ciclista e sai fugindo em seguida.

É cômico. Dá vontade de rir. Da breguice da classe média alta brasileira – e pior, a paulistana. A classe B compartilha abaixo assinado do Avaaz no Facebook. A classe C “joga a real e moshtra que tu ‘tá’ eshcrota”.

A classe B é chata. Não é rica e nem pobre. Não manda mais no País e está desesperada por isso. A primeira reação desses pobres coitados é o preconceito, é chamar os outros de brega. Já a classe C “sapateia”, entra nas universidades com cota e obtém resultado mais do que satisfatório.

A classe B se vangloria de ter ascendentes europeus, mas pergunte para eles se eles vieram de Madri, Lisboa, Roma, Paris ou Londres. Eles vieram dos “cafundós” de seus respectivos países, chegaram aqui e não sabiam nem falar “amanhã” em português – tirando os portugueses. Vieram para engraxar sapato, trabalhar em fábrica e fazer greve. Realmente, muito glamuroso.

A classe B não sabe se adaptar. Ela prefere rechaçar os outros a respeitar as diferenças. Paradoxalmente, ela se conforma estrondosamente bem com injustiças sociais, políticas e éticas em seu país. A classe média alta perdeu tudo. Está desmoralizada, incapacitada, fora dos “trending topics”, buscando identidade e sentindo saudade de um Brasil que não existe mais. A estes, intolerantes, extremistas, preconceituosos e elitistas, só lhes digo “sinto muito”. Porque a mudança chegou para ficar. E de tanto colocarem rótulos nos outros, agora provam do mesmo veneno. São chatos, bregas, inadequados e anacrônicos.

Fabrício Bernardes

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