Ditadura genesial

I’ll sing you a song, close your pretty eyes
I like to hear you breathing
It’s like the soundtrak of my life
The only memory I’m keeping

Enumere todos os formatos redondos em que você consegue pensar. Sol, bola de futebol, laranja, lua cheia, roda de veículos, umbigo. Redonda também é a minha cara, cheia de rugas. Essas marcas de expressão não são aquelas que vêm com o tempo, mas com a vivência, com o sofrimento, com os traumas. Ninguém aqui foi escravizado ou torturado. Essas rugas são fruto de picadas que levamos todos os dias em nossas faces. Aos poucos, vamos ficando cheios de hematomas e furúnculos — mas ninguém os enxerga. Porque quem pica é o bicho da solidão, do estresse, da inveja, da preguiça, da covardia e até da burrice. São marcas invisíveis, que passam desapercebidas até pelos aparelhos de raio-X mais avançados.

Olhos entreabertos, cabelos opacos, a barba mal feita, a bochecha flácida, a sobrancelha desarrumada, os cílios caídos, os lábios rasgados pelo frio… Uma ausência de harmonia horrorosa para levar a vida que todos conhecemos como desarmônica. Quanto mais fechado fico no meu quarto, maior a sensação de ter vivido tudo de ruim que poderia ter me acontecido. O medo de sofrer é grande e tão presente quanto o oxigênio em meus pulmões.

Você também passou por tudo isso. E cada um sabe a dor que é carregar a cruz que nos é designada. Já passamos por tudo e vamos passar por mais. Sabe aquela sensação proveniente dos segundos antes de um lindo desastre?

Tendo em vista que nada é como queremos que seja, está confirmado — teremos que viver assim. Nem mais, nem menos. Exatamente como deve ser. Você, cá. Eu, lá. Você segurando meus pertences e eu, os seus. Mas eu prometo que tudo vai ficar bem se você estiver nos meus braços. Contanto que você prometa o mesmo.

Eu sei. Eu sei que você também foi picado pelos mosquitos da vida. E eu eu enxergo suas cicatrizes tanto quanto enxergo as minhas quando me olho no espelho. Temos aparências distintas, porém feridas semelhantes. E tudo se encaixa numa sinfonia maravilhosa de Beethoven. Num flashback de tudo o que vivemos e vamos viver.

Você consegue ouvir, enquanto te conto esta história, meu coração despedaçado batendo? Você sabe que não dá para viver sem amor. Seria suicídio. Então, vivamos assim. Sob os ditadores da vida que nunca serão depostos. O tempo, a morte, o amor e a dor. Lutamos enquanto podemos, vencemos quando possível, apanhamos quando necessário. Mas juntos — partindo da noção de que o que criamos é muito maior que eu e você.

É aterrorizante, eu juro. Deitar minha cabeça no seu ombro é tão assustador quanto pular de um precipício e saber que eu vou continuar vivo. Mas escutar você respirando é tão reconfortante.

Eu prometo que não vou fugir. Prometo que vou estar para sempre com você. Você promete, também?

Ditadura genesial: sob os déspotas do Big Bang, vivemos.

Ditadura genesial: sob os déspotas do Big Bang, vivemos.

Fabrício Bernardes

2 thoughts on “Ditadura genesial

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