Suborno de amor

Há uns poucos dias, eu estava em casa lavando a louça antes de ir ao trabalho e escutando música ao mesmo tempo. Inesperadamente, começou a tocar uma canção velha, do cantor gaúcho Armandinho, de cuja existência eu já tinha até esquecido — mas que me trouxe para o passado, para a época em que estudava na Espanha.

Tinha 19 anos e estava num ônibus que saía de Madri, passava por Zaragoza e chegava em Barcelona. Eu sentei do lado de uma amiga. Sim, uma amiga que eu tinha conhecido na capital. Lembro como se fosse ontem. Da gente na sala de aula. Ela sentada na primeira carteira e eu na última. Ela era linda. Até demais. Beleza brasileira — morena, pele bronzeada, cabelos lisos e castanhos, olhos cor de mel e um sorriso cativante. Sem mencionar sua simpatia. Achei melhor fingir que não estava interessado. Não teria chance de qualquer maneira. Então, no meio da aula, trocamos farpas. Eu havia sido grosseiro. Descobri também ao ouvir sua voz que ela era carioca. Instigante. O mundo, estranho que só, acabou conspirando para que nos tornássemos colegas. E lá estávamos, com mais três amigos, viajando para Barcelona.

Acabei sentando ao seu lado no ônibus. Tinha de mostrar serviço. Afinal, como posso estar sentado ao lado desta gata e nem ao menos flertar com ela? E daí, com o papinho mais sem graça e pretensioso do mundo, comecei um diálogo. Descobri que ela me achou “metido” de cara, mas depois simpatizou comigo. Disse-lhe que pensei o mesmo dela. E rimos. Estava indo bem. Minha malícia, meu charme, minha inteligência estavam me ajudando. Então, decidi fazer o romântico e peguei qualquer musiquinha bonitinha que tinha no meu Itunes e a fiz escutar. Era uma do Jason Mraz, que já tinha mandado para várias antes dela. Sinceramente, não entendo como eu conseguia ser tão brega. Mas, enfim, ela escutou. E gostou. Hoje sei que a canção é, de fato, bonita. Se chama Beautiful Mess. Não sei se ela ficou bonita por causa da Marcella ou porque ela é bonita mesmo.

Sempre achei que esse meu jeitinho sensível e romântico ajudava a conquistar quem eu queria. Na verdade, isso só contribuía para que eu ficasse sempre na zona da amizade e enterrar cada vez mais minha autoestima. Eu sabia disso, mas era o único jeito que eu sabia paquerar. O que foi diferente desta vez? Ela gostou! De verdade. Dava para ver nos olhos dela. E com um mero sorriso ela me despedaçou da mesma forma que faria se tivesse jogado um vaso de vidro no chão. Ela havia gostado de mim pelo o que eu era. E ninguém, nunca, jamais, em nenhuma outra circunstância, poderia ter feito algo tão bom por mim quanto aquilo. Hoje, enxergo isso com clareza. Na época, simplesmente fiquei sem chão. Completamente apaixonado por uma menina que morava a 600 km de mim no Brasil e que estaria comigo na Espanha por mais três semanas no máximo.

Ela estava apreciando tanto a minha companhia que me mostrou uma música também. Aquela do Armadinho da qual falei anteriormente — e que diz “eu vou te subornar com meu amor”. Ela disse que achava aquela canção linda. Eu, desligado e presunçoso que era, nunca tinha parado para prestar atenção na letra. Só gostava do ritmo e achava estranho essa coisa de subornar com amor. Ela me explicou o sentido da música e eu achei lindo — é sério, prestem atenção nos versos. Aposto que vocês vão achar fofo.

Todavia, ela namorava. Estava ficando com um cara lá do Rio. E quando me falou aquilo, eu não tive outra reação senão chorar (!!). Como um bebê que sai da barriga da mãe. Era incontrolável. Isso nunca tinha acontecido comigo na frente de um estranho. Além disso, nunca fui de chorar. Mas eu estava tão desarmado por aquele sentimento que não sabia nem mais o que estava fazendo. Marcella me abraçou. E eu deitei no seu ombro. Me senti um homem realizado.

Hoje tenho gostos diferentes, visões diferentes e devo ter amadurecido um pouco desde então. Já não me acho o rei da cocada preta como antes. Já não me acho tão inteligente, tão sensível, tão genial, tão romântico, tão charmoso — e nem tão bom escritor. Mas no meio de todo o emaranhado de deslizes que eu era, ela enxergou luz em mim. Engraçado, a música que eu dediquei à Marcella, Beautiful Mess, fala da sua insegurança e das suas grosserias — mesmo que tudo isso se encaixe numa beleza fenomenal. Hoje, vejo que o inseguro e o grosso foram eu. E a beleza fenomenal continua sendo dela. Na época, sentia raiva de não tê-la comigo.

Hoje, sinto gratidão por ela ter visto o que nem eu conseguia enxergar de bom em mim. Pode soar exagero, mas foi como renascer de novo. Sua mãe te ama durante nove meses dentro da sua barriga. Depois, você tem de sair do lugar mais confortável em que vai estar durante a sua vida inteira — que é dentro dela. E o que você faz quando chega ao mundo? Chora. E em seguida? Faz teimosia. Por último, pensa, repensa, reflete e agradece por tudo o que sua mãe já fez por você.

Marcella, obrigado por ter me feito chorar. Você me transformou num homem.

“It’s like taking a guess when the only answer is yes” — Jason Mraz.

Fabrício Bernardes

One thought on “Suborno de amor

  1. Eu sempre lembro do seu blog, em algum momento do ano, mês ou dia. Há tempos não visitava, muito bom esse texto, imaginei toda a cena que você expôs, e senti uma nostalgia estranha também, li ouvindo música como sempre faço, dessa vez Beautiful Mess, como indica o texto, viciei haha! Abraço.

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