Chypre

Não sou muito bom de poemas. O vício da fala sempre esteve impregnado em mim. Por isso, gosto mesmo é de prosear. Mas, às vezes, o poema vem — e eu não posso fazer muita coisa senão escutar minha inspiração. Daí, escrevo em qualquer lugar — na agenda de telefone da minha vó na mesa da cozinha, no bloco de notas do celular, no computador.

Tudo começou em meados de 2012. Estava envolvido num projeto experimental do segundo ano de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero para criar um veículo de comunicação que desse voz à avenida mais bonita de São Paulo, a Paulista. O problema era que, como sempre, não podíamos fazer “jornalismo tradicional”. Tínhamos que inovar. E inovamos. Elaboramos o m900, site de hiperlocalização com pautas e estilos de textos variados, diferente do que se veria num jornal, e, embora hiper local, extremamente universal. Infelizmente, o portal não está mais no ar.

No meio dessa efervescência de ideias, ao caminhar pela Paulista, poemei. O poema que escrevi passou a integrar o editorial do produto que havíamos criado. E se o poema não pode ficar eternizado no site que criamos, que fique eterno por aqui.

Chypre

No mosaico-constelação da Avenida Paulista,
Tudo começa na Consolação,
O prédio que troca I por Y
A praça sem lugar de convivência
O idoso que dorme no banco do Conjunto Nacional
O ciclista que manobra na esquina da Ministro
A mulher que erra o caminho
A moto que quase atropela quando se atravessa na faixa atrasado
O motoboy que se arrisca no trânsito frenético
O alívio de achar um lugar para sentar
O espetáculo da vida de uma cidade subdesenvolvida. Na maior metrópole de um dos países mais injustos do mundo
O coração que bate acelerado de um gigante não mais adormecido
Um espelho da cidade em todas as suas contradições
A melodia vazia do surdo que atravessa a rua
O espetáculo transparente nas pupilas do cego que passa pelas calçadas de relevo da paulista
O executivo que comemora sua promoção
O mendigo que …
A mulher paulistana que desfila a sua beleza e inquietudes
A pressa. O devaneio
O sol, a luz, os carros, os ônibus, as conversas, as pressas, os encontros, os desencontros, o calor, o frio, o cansaço, a harmonia de cima, a desordem de baixo, o xadrez das camisas, o bronzeado da pele, o negro das calças sociais, o verde do farol, o amarelo das blusas, o vermelho do Masp
A ordem na desordem
A instabilidade do ser humano
O ponto de encontro
O celular que atrapalha a caminhada
As histórias no olhar
As transmissões de rotinas
A música nos fones de ouvido
A estagnação do contemporâneo
Uma Paulista sensorial. Uma miscelânea de sensações. Uma guerra dos sentidos para ver quem fala mais alto. Ou toca mais com mais intensidade. Ou escuta mais alto. Ou cheira mais forte. Ou saboreia com mais intensidade. Ou quem pressente com mais certeza. Um combate entre os seis sentidos
E, ironicamente,
Tudo acaba na Paraíso.

Para concluir a história, a minha amiga jornalista Caroline Zilberman teve a ideia de adaptar o poema. Ela produziu um vídeo no qual ninguém menos que os próprios frequentadores da Avenida Paulista recitam a obra. Lindo. Minha grande amiga Luana Martins e meu amigo André Oliveira (também jornalistas, todos da minha sala) ajudaram Caroline na tarefa. E, repito, ficou lindo.

Fabrício Bernardes

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