Noites de insônia

Noites de insônia são assustadoras. E elas não acontecem à toa. Normalmente, uma pessoa não consegue dormir quando está muito preocupada. Ou incomodada com algo. Às vezes, está triste. O meu caso deve ser uma mistura de tudo isso. Estou preocupado, sim. Com o trabalho. Mas veja se pode. Até parece que não sei que trabalho vai e vem. Um dia se está aqui, outro dia se está ali. Ainda mais eu, que sou jornalista, profissional acostumado com as reviravoltas da vida de laboro — na qual é normal ver 30, 40 colegas serem despedidos num só dia. Me dá agonia só de repensar nas vezes em que encontrei amigos no banheiro ou no elevador chorando porque haviam sido demitidos sem alguma justificativa plausível, que não fosse simples corte de custos.

Além de preocupado, também estou incomodado. Há tempo sinto que me curvei diante das amarras e obrigações da vida adulta. Juro, se eu me visse com 15 anos na posição em que estou atualmente, com certeza não me reconheceria. Não só não me reconheceria, como teceria uma infinidade de críticas a mim mesmo. Sério, estou há cinco anos sem férias. Ainda sonho com as curvas ladrilhadas de Barcelona. Ou com as paisagens rochosas da Bretanha. Ou com as folhas alaranjadas que caem nos outonos de Montreal. Ainda sonho com vidas diferentes. Em ser alguém diferente a cada dia do ano. Em conhecer pessoas novas. Em carpe diem… Então, você me pergunta. Por que não vai viver essas vidas? Também não sei. Do que tenho medo? De desapontar. Mas desapontar a quem? Minha família. Mas por que eles haveriam de ficar desapontados com as suas novas resoluções de vida? Não sei. Então o que lhe prende aqui? Não sei.

Também estou triste. Estou envelhecendo e a perspectiva de encontrar aquela pessoa que vai me amar pelos meus defeitos e não pelas minhas qualidades está cada vez mais dubitável. Até encontrei pessoas assim. Mas estraguei tudo. O que posso fazer? Não sou perfeito. Mas daí tem aquelas que você pensou que seriam aquelas pessoas. Mas não foram. Malditas! A vontade que tenho é de voltar no tempo e… Não sei. Não tenho coragem de fazer mal a ninguém. Acho que não mudaria nada. Mas como é difícil ser rejeitado. Eu fico imaginando um monte de hipóteses sobre por que fui largado. E nenhuma, nenhuma mesmo, é plausível. Então, transfiro a culpa ao outro. “Eu era bom demais. Ela que saiu perdendo”, penso. Bobagem. No fundo, sei que o problema mesmo era eu. Em seguida, penso que devo me cuidar mais. Prestar mais atenção no que me faz ser uma pessoa boa. Sabe, cuidar mais de mim — ler um bom livro, comer menos chocolate, ir ao taekwondo com mais frequência, assistir a um bom filme. Enfim, criar hábitos mais saudáveis.

À vista disso, penso em como seria bom se conseguisse fazer tudo isso que propus a mim mesmo acima. Talvez só assim eu desencalhasse e conseguisse ser uma pessoa feliz. Então, penso em como seria incrível se tivesse tempo para fazer tudo isso. Mas, claro, não dá tempo! Não dá tempo de fazer tudo aquilo e ainda… Dormir. Pois é, preciso dormir.

A verdade é que as noites de sono escondem muita dor. Noites de sono são anestésicas. A insônia vem quando está tudo tão fora de ordem que o sono não consegue vencer a batalha travada diariamente contra nossas agonias. Quando a insônia reina, a revolução deve ser feita internamente. Logo eu, que sempre fui um entusiasta de revoluções e da justiça social, estou aqui — tentando travar a batalha mais intimista de todos os tempos. Nunca pensei que seria tão egoísta.

Ser sonhador é bonito até a primeira vírgula. É bonito quando sua mãe fala, cheia de orgulho, para os outros que você é uma maquininha de ideias, que nunca está parado e que tem uma sensibilidade fodida. Parece bacana quando o seu psicólogo diz naqueles testes vocacionais: “Fabrício, você é um sonhador, gosta de viajar, de ajudar as pessoas e tem talento para profissões com contato humano.”

Agora, vá tentar encaixar essa caralhada de sonhos na sua vida e veja se consegue realizar, ao menos, 15% deles. Não é bonito querer tudo. E ser “sonhador”, “romântico”, “utópico”, “lírico” é que nem ser palhaço. Só é engraçado quando é o outro. Se for você o palhaço, tem alguma coisa errada. Ou alguma vez na vida, quando lhe chamaram de palhaço, você achou que aquilo era um elogio?

Niilismo, revolta, inquietação, desumanização, cansaço. Eis como começa um dos poemas mais importantes de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, escrito em 1928, chamado Tabacaria.

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

O homem que tinha todos os sonhos do mundo precisou criar 127 heterônimos para “neutralizar” sua “loucura”. Uma das personas de Pessoa era brasileiro(!!!). Será que Pessoa tinha insônias também? Tinha. É só colocar no Google.

Pessoas

Álvaro de Campos: “Quando olho para mim, não me percebo.”

Fabrício Bernardes

2 thoughts on “Noites de insônia

  1. Sensacional, parece até que algo fez eu lembrar do blog pra poder ler esse, rs! É de se identificar, e muito.

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