Three Way Monologue

Eu decidi escrever porque queria fazer uma síntese de todos os meus textos. Eu saí correndo do banho, minha cabeça ainda está molhada e o rádio, eu nem o desliguei. Antes, eu me importava em distribuir bem pontos finais, para que fosse bem conciso. Às vezes, até sisudo. Antes, me preocupava em fazer sentido. Escrever um texto como uma colcha de retalhos. Cada assunto puxando o outro. Faz parte do meu estilo de escrever começar com uma introdução estrondosa e acabar o texto desproporcionalmente. Há um tempo atrás, até apagava o que havia escrito. Por quê? Porque pensava. Porque escrevia dependendo de inspiração. Porém, ela é traiçoeira. Você pode ficar meses sem escrever sequer um bilhete se depender dela. Mas o que sinto nesse exato momento não é inspiração.

É uma enxurrada de sentimentos. Todos entalados na garganta. Escrever com inspiração é sentir, mas não experienciar. Portanto, se vocês acharem isso poético, vocês acham a realidade poética.

O lide jornalístico, quando bem elaborado e coeso, faz com o que o leitor crie interesse pela notícia que lerá. E por que apresentar o fato desta forma? Porque o jornalismo une três, quatro, cinco, vários. Une todos. Nos une.

É difícil começar a descrever onde. Na verdade, não tem nada de bonito. O real é só real, mais nada. Quando? Também não sei. Foram tantas vezes. Por quê? Porque foi natural. Assim como envelhecer, comer ou pensar. Como? Foi fácil. O quê? Ainda não sei como se chama. Quem?

- Acorda!

- Não estava dormindo.

- Não?

- Você provavelmente deve achar estranho o que tenho para dizer. Mas as coisas seguem cursos estranhos na vida. Há um ano e meio eu sabia de muitas coisas. Sim, muitas coisas. E agora não sei quase nada. Talvez eu devesse agradecer. Mas o agradecimento torna tudo muito burocrático. Qual é o valor de um sorriso? É provável que você responda que não seja muita coisa. É tão fácil consegui-lo, não é? Durante esse tempo, eu sorri muito. Sem nem perceber. O sorriso traduz. Traduz felicidade. E felicidade é isso aqui: estar sentado na grama, depois de uma balada, comendo um sanduíche quando bateu a fome. O sorriso vem sem querer. Não precisa nem de piada. Eu sorrio porque sorrio. Sem razão aparente. Mas, no fundo sabemos. Há uma. E é a mais simples. Nossa sociedade pode até ser apegada demais a bens materiais. Porém, ainda não perdemos a essência humana. Nos apegamos de verdade a pessoas. Porque essas pessoas às quais você se apega te fazem sorrir. E sorrir é não saber. É não ter certeza. É duvidar, é contestar. É, principalmente, hesitar. Hesitar porque encaramos as coisas de uma outra forma. Enquanto todos dizem para andar, caminhar, correr, seguir frente, continuar. O sorriso te para. E faz você questionar para onde você está se levando. Faz nascer a dúvida, e portanto, o desconhecimento. Mas, é necessário desconhecer-se para se conhecer de novo. É por isso que há um ano e meio, em vez de saber demais, sei de menos. E isso é graças a você. Três coisas: te amo, te admiro e te extraño.

The Three Way Monologue: eu vivo, eu sorrio, eu desaprendo.

Fabrício Bernardes

O Deslumbre Metódico

Quando eu a vejo sentada naquele lugar de sempre, é normal que eu disfarce um sorriso. Sua simplicidade misturada com mais um rojão de características me coçam os lábios, e eles fingem um riso simples.

Talvez o que mais me chame atenção é o fato de sermos diferentes. Enquanto prezo pelo contínuo, livre, solto e despreocupado, sua mente traz regras. Estas, acopladas a um imenso buraco, imerso na alma, do saber-ser e tentar-ser. Tentar-ser, sim. Qual o problema? Nós tentamos ser tudo. Até quem somos de verdade.

É difícil saber o que pessoas querem ser, o que tentam ser e o que são de fato. Às vezes, nem a própria pessoa sabe. Mas, nesse emaranhado de ser, tentar e saber, o bruto que enxergo de seu ser é um ser metódico. No entanto, deslumbrante ao mesmo tempo. É bonito porque concilia o inconciliável. É doce e sistemático.

Assim como um herói necessita sua espada, ela não é nada sem sua agenda. Quando a observo escrevendo nela com a velha caneta roxa, percebo quão fácil e simples é ser feliz. Talvez o riso venha por isso. O que é preciso para ser feliz? Uma agenda. Sinto até uma certa frustração ao vê-la. Porque ela me mostra quão DESregradamente eu vivo. Mas a inveja branca logo passa e eu entendo que pessoas assim são raras. E eu, sinceramente, não conseguiria viver assim. Eu teria ficado louco. E admiro quem sabe ser feliz sendo assim.

Quando sua boca abre e fala articuladamente um turbilhão de palavras conectadas em elevada velocidade, às vezes, me transporto para outro lugar. O lugar das reflexões. Em que penso quão curioso são as pessoas diferentes. E nas milhares e randômicas características que fazem uma personalidade. Na verdade, não. Personalidade não. Pois esta é como impressão digital. Cada um tem a sua. Refiro-me às várias características que fazem o ser. E quanto mais você percorre este lugar que chamamos de mundo, mais você se fascina. Porque encontra milhares de seres diferentes.

Pode parecer que ser metódico é algo negativo. Na maioria das vezes, é. No entanto, o que a faz especial é sê-lo e isso não ser algo ruim. Isso é a mais bela conciliação do ser. Acho que uma agenda nunca teve uma conotação tão doce para mim. Quando a vejo sentada, escrevendo em sua agenda, planejando coisas inplanejáveis, involutariamente sorrio.

Sorrio porque admiro. Admiro que ela tenha a vida tão planejada a ponto de saber que seus planos não são infalíveis. O amor pode estar aí ao lado ou a milhares de quilômetros. E isso basta para que um plano seja arruinado, em nome do amor e da felicidade.

É sempre bom poder acabar um texto com aquele sorrisinho de lado. Aquele que não vem devido ao cômico, mas devido à admiração. Uma agenda, uma pessoa, um ser, um deslumbre metódico.

Fabrício Bernardes