Amores Risíveis

I – a rejeição do inexistente

Não existe momento mais solitário do que aquele que antecede a farra
Para te conquistar, basta ser tudo — menos uma boa pessoa
Então, faz frio
Eu vejo lágrimas escorrendo do seu rosto
Você diz que é por causa do frio
Eu digo que nunca tive a intenção de colocar uma aliança no seu dedo
E você diz: quero ser seu, sua cachorra, sua esposa.
Não digo nada
Você diz: era para estarmos juntos, eu te amo.

Eu conheço o risco do amor, mas o amor é sempre risível. É um sem-fim cíclico de expectativa, sedução e desilusão que não leva a lugar nenhum. É como andar em círculos — suas pernas não aguentam mais caminhar. E, mesmo assim, você praticamente não saiu do lugar. O amor é estático, imóvel. Nunca leva a lugar nenhum. É uma felicidade infinita com hora marcada para acabar.

II – a valorização do medíocre

Eu estou no metrô com você
Voltando da festa
Te conto da minha infância
Abro meu coração
Conto como brincava de bonecos e de ser super heróis
Faço o máximo para ser um humano
Mostro minhas fraquezas, minhas inseguranças
Tiro minha armadura
Mas você é uma pedra, bonita, mas uma pedra
Como aquelas que me fascinavam quando eu era criança
Lindas, porém medíocres

Eu juro que já tentei de tudo para acabar com minha solidão. Das maneiras mais diversas possíveis. Mostrei meus aspectos mais lindos, tão bonitos como flores. Mostrei minhas características mais sórdidas. Mostrei meu eu mais egoísta. E já fui a pessoa mais altruísta que alguém já conheceu. Mas percebi que, nessa caminhada, não conheci ninguém diferente. Caricato.

III – a satisfação do grotesco

Estamos voltando para casa
Você está ao meu lado, no carro
Deu tudo certo — conheci todos os seus amigos
Eles me adoraram
Causei boas impressões
Com você e com eles
Minutos depois, xingo você sem parar
E mais tarde não me lembro de tê-lo feito
Estraguei tudo

Já te chamei de senhora, sem te conhecer. Porque você poderia ser qualquer uma, num mundo povoado por bilhões de pessoas. Será que o mistério está em você ou em mim? Se fosse possível obter a resposta correta para o enigma mais intrigante da minha vida. Perguntaria para mim ou para você? O que é a nossa história? É minha ou é sua? É nossa? Afinal, quando dois corações se unem, é certo falar em nós? Gosto de criar histórias nas quais não existe apenas eu. Alguém tem de estar junto. E toda vez que eu me uno, já não sou mais eu mesmo. Então, de quem é a culpa? Quem estragou tudo? Eu, porque fui um bom homem? Ou você, que foi uma pessoa ruim? Eu, porque fui uma pessoa malvada? Ou você, que foi uma mulher bondosa? Uma vez dessas, foi diferente. Eu fui eu mesmo — com qualidades e defeitos. E você foi você mesma. Mais ninguém importava e o mundo era só eu e você. Tinha dado certo.

IV – o êxito dos astros

Há pouquíssimos homens sinceros no mundo
E Deus sabe disso.
Mas a nossa história é um tesouro
Guardado nas estrelas e selado pelos planetas
Um símbolo de esperança desenhado pelas constelações
Duas almas tão complementares
Quanto dois espelhos em face um do outro, refletindo a eternidade
Mas você está longe, tão quanto está a Terra de Júpiter
Eu me desfaço à medida que meus pés se encontram em duas placas tectônicas distintas
Quando você partiu, o céu escureceu para sempre e passou a me iluminar com escuridão
O firmamento chorou e a depressão choveu em mim
Eu vivo esperando o seu retorno
Eu aguardo o êxito dos astros

Agora eu sou uma estrela cadente. Deixo todos comendo poeira e apontando para mim. Sinto um mal-estar na minha Via Láctea crescer de maneira exponencial. Tudo me parece sem gravidade. O amor voltou, afinal, ele nunca tinha ido embora. Eu espero o encontro dos astros. Eu aguardo um desastre. Os amores que não deram certo são absurdos. São como rejeitar o inexistente. São como dar valor ao medíocre. São como se sentir satisfeito com o grotesco. Os amores de verdade são como o alinhamento dos astros. Acontece apenas uma vez na vida. É a eternidade.

“J’attends la réussite des astres/désastre” — Nekfeu

Amores Risíveis (Risibles Amours)

Amores Risíveis (Risibles Amours): é uma canção do rapper francês Nekfeu, baseada no livro homônimo, do escritor Milan Kundera

Fabrício Bernardes

Cartas a Idalina

Idalina, hoje é meu aniversário. Estou envelhecendo. Mas que o Senhor não escute minhas reclamações — e que esta carta fique apenas entre mim e você. Afinal, tenho duas mãos perfeitas para escrever o que lhe escrevo. Duas pernas perfeitas para chegar onde quiser e uma saúde que não me tem falhado há tempos. O problema é que, hoje, não consegui fazer mais nada que não fosse dar voltas e voltas pelo corredor da minha casa. Desatei a andar numa caminhada curta de tamanho, porém larga em número de horas. Não sei muito bem. Talvez seja a falta do mar para consolar minha solidão. Eu já não sei o que aconteceu de verdade. Mas tenho certeza de que sinto sua falta. Mesmo sem nem saber direito quem você é hoje em dia. Peço perdão pelas minhas reclamações porque sei que quero tantas coisas que não tenho. Parece que me falta lembrar das coisas que já possuo. Por isso, não me parecem dignas minhas queixas. Enfim, hoje é meu aniversário e cá estou um ano mais próximo da morte. Não tenho mais certeza se estou feliz pela sua existência. Justamente porque ela me transformou no que me transformei esses anos.

Enfim, na verdade, a razão pela qual lhe escrevo é para que você veja como estou lidando melhor com essas datas. Eu não estou passando meu aniversário sozinho — afinal, estou próximo de você, escrevendo-lhe. Idalina, hoje as ruas estão frias e chuvosas. Não chovia faz tempo aqui. O ar estava ficando cada vez mais seco. Por isso, sinto com mais força a fumaça do cigarro que você outrora fumou entrar em meus pulmões. As árvores estão judiadas e, secamente, me disseram durante esta semana inteira: “volte para a sua casa.” E cá estou, escrevendo-lhe. Na verdade, não estou muito seguro de quanto tempo faz que não saio de casa e há quanto tempo chove. A única coisa que tenho segura em minha mente é como você parecia naquela camiseta cinza, com o cabelo encaracolado, me olhando daquela janela. Idalina, agradeço-lhe por existir porque sei que minha existência está condenada à sua. E, quanto mais ficamos longe, mais próximo me sinto da vida e, por consequência, da morte. Eu deveria estar chorando por passar mais um aniversário assim. Mas, justamente porque decidi lutar, cá estou andando sem parar e sem pensar em meu apartamento. Idalina, quando lhe disserem que a vida é curta, aproveite. Quando lhe derem uma rosa, não hesite em cheirá-la. Se algum dia você for presenteada com um livro, não deixe de devorá-lo.

Eu ainda sinto o gosto da última macarronada que cozinhamos. Não posso me recordar muito bem de quando isso aconteceu, mas parece que ainda estou com bafo de alho na boca. Idalina, tudo o que comemos nos faz viver. Tudo o que nos faz viver vem da terra, do cultivo, do preparo, do cuidado. Tudo o que faz bem — e às vezes não tão bem assim — nos é proporcionado pelo Senhor e é por isso que lhe agradeço tanto. Idalina, lembre-se de que, enquanto você respirar, ainda estarei ao seu lado torcendo para que o Senhor e a terra tenham lhe proporcionado o mesmo contingente de felicidade que me foi garantido. Afinal, sou feliz. Não sou? Idalina, lembre-se de é preciso cuidado, carinho e petulância para chegar aos lugares em que mais desejamos estar. Recorde-se de que, no final das contas, nem tudo nos é proporcionado, porém tudo vem da terra. Aproveite o que lhe é dado, pois às vezes será necessário batalhar pelo que desejamos. E nem sempre a luta é válida ou justa. Portanto, escute Chopin, mas lembre-se de que a melodia — por mais maravilhosa que seja — sempre terá um final. Assim como a vida, assim como o nosso amor.

Do seu querido e sonhador,

Hermengardo.

large

(Des)encontros: A única coisa que tenho segura em minha mente é como você parecia naquela camiseta cinza, com o cabelo encaracolado, me olhando daquela janela.

Fabrício Bernardes

Suborno de amor

Há uns poucos dias, eu estava em casa lavando a louça antes de ir ao trabalho e escutando música ao mesmo tempo. Inesperadamente, começou a tocar uma canção velha, do cantor gaúcho Armandinho, de cuja existência eu já tinha até esquecido — mas que me trouxe para o passado, para a época em que estudava na Espanha.

Tinha 19 anos e estava num ônibus que saía de Madri, passava por Zaragoza e chegava em Barcelona. Eu sentei do lado de uma amiga. Sim, uma amiga que eu tinha conhecido na capital. Lembro como se fosse ontem. Da gente na sala de aula. Ela sentada na primeira carteira e eu na última. Ela era linda. Até demais. Beleza brasileira — morena, pele bronzeada, cabelos lisos e castanhos, olhos cor de mel e um sorriso cativante. Sem mencionar sua simpatia. Achei melhor fingir que não estava interessado. Não teria chance de qualquer maneira. Então, no meio da aula, trocamos farpas. Eu havia sido grosseiro. Descobri também ao ouvir sua voz que ela era carioca. Instigante. O mundo, estranho que só, acabou conspirando para que nos tornássemos colegas. E lá estávamos, com mais três amigos, viajando para Barcelona.

Acabei sentando ao seu lado no ônibus. Tinha de mostrar serviço. Afinal, como posso estar sentado ao lado desta gata e nem ao menos flertar com ela? E daí, com o papinho mais sem graça e pretensioso do mundo, comecei um diálogo. Descobri que ela me achou “metido” de cara, mas depois simpatizou comigo. Disse-lhe que pensei o mesmo dela. E rimos. Estava indo bem. Minha malícia, meu charme, minha inteligência estavam me ajudando. Então, decidi fazer o romântico e peguei qualquer musiquinha bonitinha que tinha no meu Itunes e a fiz escutar. Era uma do Jason Mraz, que já tinha mandado para várias antes dela. Sinceramente, não entendo como eu conseguia ser tão brega. Mas, enfim, ela escutou. E gostou. Hoje sei que a canção é, de fato, bonita. Se chama Beautiful Mess. Não sei se ela ficou bonita por causa da Marcella ou porque ela é bonita mesmo.

Sempre achei que esse meu jeitinho sensível e romântico ajudava a conquistar quem eu queria. Na verdade, isso só contribuía para que eu ficasse sempre na zona da amizade e enterrar cada vez mais minha autoestima. Eu sabia disso, mas era o único jeito que eu sabia paquerar. O que foi diferente desta vez? Ela gostou! De verdade. Dava para ver nos olhos dela. E com um mero sorriso ela me despedaçou da mesma forma que faria se tivesse jogado um vaso de vidro no chão. Ela havia gostado de mim pelo o que eu era. E ninguém, nunca, jamais, em nenhuma outra circunstância, poderia ter feito algo tão bom por mim quanto aquilo. Hoje, enxergo isso com clareza. Na época, simplesmente fiquei sem chão. Completamente apaixonado por uma menina que morava a 600 km de mim no Brasil e que estaria comigo na Espanha por mais três semanas no máximo.

Ela estava apreciando tanto a minha companhia que me mostrou uma música também. Aquela do Armadinho da qual falei anteriormente — e que diz “eu vou te subornar com meu amor”. Ela disse que achava aquela canção linda. Eu, desligado e presunçoso que era, nunca tinha parado para prestar atenção na letra. Só gostava do ritmo e achava estranho essa coisa de subornar com amor. Ela me explicou o sentido da música e eu achei lindo — é sério, prestem atenção nos versos. Aposto que vocês vão achar fofo.

Todavia, ela namorava. Estava ficando com um cara lá do Rio. E quando me falou aquilo, eu não tive outra reação senão chorar (!!). Como um bebê que sai da barriga da mãe. Era incontrolável. Isso nunca tinha acontecido comigo na frente de um estranho. Além disso, nunca fui de chorar. Mas eu estava tão desarmado por aquele sentimento que não sabia nem mais o que estava fazendo. Marcella me abraçou. E eu deitei no seu ombro. Me senti um homem realizado.

Hoje tenho gostos diferentes, visões diferentes e devo ter amadurecido um pouco desde então. Já não me acho o rei da cocada preta como antes. Já não me acho tão inteligente, tão sensível, tão genial, tão romântico, tão charmoso — e nem tão bom escritor. Mas no meio de todo o emaranhado de deslizes que eu era, ela enxergou luz em mim. Engraçado, a música que eu dediquei à Marcella, Beautiful Mess, fala da sua insegurança e das suas grosserias — mesmo que tudo isso se encaixe numa beleza fenomenal. Hoje, vejo que o inseguro e o grosso foram eu. E a beleza fenomenal continua sendo dela. Na época, sentia raiva de não tê-la comigo.

Hoje, sinto gratidão por ela ter visto o que nem eu conseguia enxergar de bom em mim. Pode soar exagero, mas foi como renascer de novo. Sua mãe te ama durante nove meses dentro da sua barriga. Depois, você tem de sair do lugar mais confortável em que vai estar durante a sua vida inteira — que é dentro dela. E o que você faz quando chega ao mundo? Chora. E em seguida? Faz teimosia. Por último, pensa, repensa, reflete e agradece por tudo o que sua mãe já fez por você.

Marcella, obrigado por ter me feito chorar. Você me transformou num homem.

“It’s like taking a guess when the only answer is yes” — Jason Mraz.

Fabrício Bernardes

Ditadura genesial

I’ll sing you a song, close your pretty eyes
I like to hear you breathing
It’s like the soundtrak of my life
The only memory I’m keeping

Enumere todos os formatos redondos em que você consegue pensar. Sol, bola de futebol, laranja, lua cheia, roda de veículos, umbigo. Redonda também é a minha cara, cheia de rugas. Essas marcas de expressão não são aquelas que vêm com o tempo, mas com a vivência, com o sofrimento, com os traumas. Ninguém aqui foi escravizado ou torturado. Essas rugas são fruto de picadas que levamos todos os dias em nossas faces. Aos poucos, vamos ficando cheios de hematomas e furúnculos — mas ninguém os enxerga. Porque quem pica é o bicho da solidão, do estresse, da inveja, da preguiça, da covardia e até da burrice. São marcas invisíveis, que passam desapercebidas até pelos aparelhos de raio-X mais avançados.

Olhos entreabertos, cabelos opacos, a barba mal feita, a bochecha flácida, a sobrancelha desarrumada, os cílios caídos, os lábios rasgados pelo frio… Uma ausência de harmonia horrorosa para levar a vida que todos conhecemos como desarmônica. Quanto mais fechado fico no meu quarto, maior a sensação de ter vivido tudo de ruim que poderia ter me acontecido. O medo de sofrer é grande e tão presente quanto o oxigênio em meus pulmões.

Você também passou por tudo isso. E cada um sabe a dor que é carregar a cruz que nos é designada. Já passamos por tudo e vamos passar por mais. Sabe aquela sensação proveniente dos segundos antes de um lindo desastre?

Tendo em vista que nada é como queremos que seja, está confirmado — teremos que viver assim. Nem mais, nem menos. Exatamente como deve ser. Você, cá. Eu, lá. Você segurando meus pertences e eu, os seus. Mas eu prometo que tudo vai ficar bem se você estiver nos meus braços. Contanto que você prometa o mesmo.

Eu sei. Eu sei que você também foi picado pelos mosquitos da vida. E eu eu enxergo suas cicatrizes tanto quanto enxergo as minhas quando me olho no espelho. Temos aparências distintas, porém feridas semelhantes. E tudo se encaixa numa sinfonia maravilhosa de Beethoven. Num flashback de tudo o que vivemos e vamos viver.

Você consegue ouvir, enquanto te conto esta história, meu coração despedaçado batendo? Você sabe que não dá para viver sem amor. Seria suicídio. Então, vivamos assim. Sob os ditadores da vida que nunca serão depostos. O tempo, a morte, o amor e a dor. Lutamos enquanto podemos, vencemos quando possível, apanhamos quando necessário. Mas juntos — partindo da noção de que o que criamos é muito maior que eu e você.

É aterrorizante, eu juro. Deitar minha cabeça no seu ombro é tão assustador quanto pular de um precipício e saber que eu vou continuar vivo. Mas escutar você respirando é tão reconfortante.

Eu prometo que não vou fugir. Prometo que vou estar para sempre com você. Você promete, também?

Ditadura genesial: sob os déspotas do Big Bang, vivemos.

Ditadura genesial: sob os déspotas do Big Bang, vivemos.

Fabrício Bernardes

Ébrio de amor

Sé molt bé que des d’aquest bar
Jo no puc arribar on ets tu
Però dins la meva copa veig
Reflexada la teva llum, me la beuré
Servil i acabat: boig per tu

Na areia da praia, escrevi o quanto te amava. E agora sei que nem a água salgada do mar pode apagar minhas palavras — contrariando o que me diziam sobre não escrever nomes na areia. “O mar sempre leva embora”, dizia minha tia, supersticiosa.

Deixe-me sonhar. Que você ainda está aqui comigo. Eu quero continuar sendo louco por você. E aqui estou, neste bar. Imaginando você, seu corpo e sua aura ao meu lado. Lá se vai outro copo. Eu quero brindar à sua ausência. E à sua presença.

Permita-me viajar em meus pensamentos. Eu quero seguir com a loucura. Embriagado e sonhador. Me falta tudo se você está faltando. Continuo sozinho aqui neste bar. Deixe-me aqui, bebendo mais este copo. Imaginando seu corpo aqui, iluminado pela lua.

Chove. E sei que ao amanhecer minhas lágrimas se misturarão com a chuva. Eu ainda estarei ébrio do seu amor. Deixe-me aqui. Eu quero brindar esta bebida à sua saúde. E devanear caminhando na linha do tempo. Relembrando nossos momentos e cambaleando para chegar ao presente.

Deixe-me continuar. Sabendo que estou louco por você. Sei muito bem que desde aquela vez… Eu não consegui chegar a você. Foi como ver a lua e não poder tocá-la. Visível, porém inalcançável. O frio faz forte. Ele entra dentro de mim e me relembra da sua ausência. E eu bebo mais este copo. Você sabe que eu estou louco por você. Passando os dias esperando as noites.

Responda-me. Como posso amar se você está tão longe? Mas, do meu copo, eu vejo sua luz no reflexo. E viro outro gole. É tudo chuva e lágrima. Que logo cairão ao amanhecer. Estou preso nesta luz e neste bar. Viciado e acabado: louco por você.

Mas não vou embora de maneira alguma. Sem fazer um brinde a você.

“Boig Per Tu” (louco por você): é o título de uma célebre canção catalã interpretada pela banda Sau

Fabrício Bernardes

Se você não volta

Isto aqui sou eu tentando criar uma lista de como seria se você não voltasse. Ou como tudo está sendo na sua ausência. Seria um apanhado de tudo o que eu sou, porque está difícil definir minha personalidade sem mencionar a sua falta. Quer um conselho? Não ame. E você terá para sempre somente amor dentro de você. Não comece. E você nunca terá de aceitar o fim. Porque o fim é medo. Medo do incontrolável e do inevitável. Medo de você. E medo de que, sem você, tudo ficaria assim.

A chuva deixaria de ser serena e asseada. Perderia sua capacidade de purificar o que toca.

Não haveria mais vida. Eu não saberia mais o que fazer.

Minhas únicas companheiras seriam as estrelas, que trariam notícias curtas e grossas de como você anda.

Os campos perderiam o verde. Os morangos se tornariam amargos. As cachoeiras não fariam mais barulho. Os rios não me molhariam mais. As flores perderiam seu cheiro.

Eu ficaria tão grande por dentro e tão pequeno por fora que meu corpo não aguentaria mais andar devido ao peso da sua ausência.

Os violinos tocariam marchas fúnebres até que chegasse minha hora.

O amor pela humanidade e pelo meu país não significariam mais nada.

Eu seria feito de nada.

As noites de insônia seriam frias e eternas.

O mar se secaria.

Minhas lembranças de você me digeririam.

O mundo se tornaria num grande deserto.

Eu nunca mais sentiria seu perfume infinito.

Si no vuelves, no habrá vida
No sé lo que haré
No sé lo que haré…

clarice-lispector

Clarice Lispector: “Não ouças a Quinta Sinfonia de Beethoven e ela nunca terminará para ti.”

Fabrício Bernardes

Amor sem amor

Tears (should) stream
Down your face
When you lose something you cannot replace

Então, lá estavam eles. Ela estava nervosa. Ele era um exibicionista. Ela não fazia questão nenhuma de fazer grandes reflexões do porquê se encontravam lá naquele dia, naquela noite. Em resumo, eles estiveram juntos por algum tempo. Se amaram — pelo menos ela o amou. A vida os separou, mas não completamente. Nada fora superado. Ela tratou de lidar com as lembranças da maneira mais rápida e dolorosa possível. Como se tivesse ido a um parque e lá tivesse enterrado todos os bons momentos — e não foram poucos — na areia. Mas certos dias aquelas memórias se enchiam de tanto brilho e luz que ultrapassavam a areia rude que outrora as ofuscou. Iluminavam o parque inteiro mesmo que fosse de noite. E ela chorava. Mas por dentro, nunca por fora. Cascatas jorravam do seu coração, mas seus olhos eram mais fortes que os diques holandeses. Não deixavam escapar uma gota d’água. O que era para ser um resumo foi uma grande reflexão na cabeça de Valéria, que estava sendo interrompida.

- Você não vai tirar a roupa? – indagou Pierre.

- Tire você primeiro.

Foi tudo casual. Mas era a única chance de ter Pierre de volta — nem que fosse por alguns instantes.

- Quero ser sua esta noite.

- Só esta noite?

- Se dependesse de mim, seria para sempre. Você sabe – retrucou Valéria.

Silêncio. Ele tirou a blusa e eles começaram. Não estava sendo tão maravilhoso quanto esperara. Na verdade, ela não estava conseguindo nem ficar excitada. Mas o que a gente não faz por quem a gente ama? Mesmo por quem um dia já nos deixou.

As coisas estavam indo bem. Até que Valéria cometeu mais uma das suas várias burrices.

- Eu te amo.

As três palavras ecoaram por todos os objetos do quarto do motel. Criado-mudo, abajur, telefone, paredes, televisão, portas, tapetes e até na cara do Pierre, que respondeu sem jeito.

- Eu também.

Depois de uns 30 segundos, Pierre acendeu as luzes.

- Te enxergo melhor assim.

E eles continuaram fazendo amor sem amor. Até que toca o celular dele.

- Um minuto, ok?

Passaram-se vinte. E ele entrou no banheiro para falar em particular. Valéria se sentiu a pessoa mais burra, insossa e sem valor do mundo. “Nem com os caras que eu conheço há uma semana isso acontece”, pensou. “Eles nem atenderiam o celular.” Valéria foi mais burra ainda e escreveu um bilhete. “Vou dormir em casa. Beijos.” E foi embora. E, igual a todos os dias que passam, nutriu um ódio ainda maior pelo amor que sentia por quem já amou sem culpa. Foi dormir em casa, mas não conseguiu dormir. Olhou para o seu celular e não recebera nenhuma mensagem de “desculpa”. Fechou os olhos e tentou dormir de novo. Conseguiu — mas acordou cheirando a Pierre. E, de novo, não conseguiu chorar.

Valéria Legat: é difícil esquecer o que a gente nunca quis olvidar

Valéria Legat: é difícil se esquecer do que a gente nunca quis se olvidar

Fabrício Bernardes

Valéria Legat final

- Eu finalmente havia encontrado o que procurava. Foi a prova real mais dolorosa que já realizei. Foi como levar 5 socos na boca ou ficar 5 minutos debaixo d’água sem ter como respirar. Tive tonturas, mal consegui sair do quarto para pegar um copo de água. Pensei comigo: Até quando?

Valéria estava visivelmente cansada. Contar tudo isso foi extremamente desgastante, mas ela queria falar mais:

- O pior de tudo é ter que fingir que está tudo bem. Ter que mentir a uma das minhas melhores amigas, a Paula, que conheceu Klaus, dizendo que fora uma pena ele estar namorando. Nada mais do que isso. Porque, afinal, quem se apaixona em duas noites? Quem sou eu, senão uma louca, para ainda lembrar desses momentos de felicidade como se fosse ontem? Por que eu ainda não consegui superar isso? Deve ser porque eu tinha tudo em minhas mãos naqueles momentos. Uma boa amiga, um bom companheiro, num bom lugar, com uns bons drink. Desculpe a piada infame.

A moça, arrasada pelas palavras que proferira, simplesmente abaixou os olhos cansados, como se tivesse perdido uma luta de boxe. Estava sangrando, com hematomas por dentro e, ao seu lado, o juiz estava levantando o braço da solidão, que, invicta, ganhara mais uma batalha contra Valéria. Luís, incomodado pela estranheza do momento, achou válido se pronunciar.

- Valéria, escute… Existem algumas coisas que você precisa entender. Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para dar conselhos, mas me sinto na obrigação de dizer algumas coisas. Como você sabe, eu sou um garoto de programa. Portanto, tenho que me adaptar às mais diversas situações — e o que eu faço não é nada difícil. Quantas vezes você já não foi quem não era uma noite? Por um dia? Por uma semana? Como você pode ter certeza de que esse tal de Klaus era a pessoa certa se você apenas o conheceu por horas? E se ele estava fingindo ser o que não é naquela noite? Eu faço isso durante todo meu “expediente”. Garanto a você que não é tão difícil. Por uma noite, não. Difícil mesmo é esconder quem você é por uma vida. Além disso, seu problema não é o Klaus, nem seu ex-namorado, nem qualquer outro caso. O problema está em você mesmo. Sabe por que você não consegue achar o que quer? Porque você está procurando. Você está vivendo para se apaixonar, você está transformando o amor em um objetivo de vida, você está fazendo planos em cima dele. Consequentemente, você idealiza uma figura perfeita, como um príncipe que vai chegar vestindo branco e montado em um cavalo para lhe buscar. E, sinceramente, em todos os anos que você viveu, você achou esse príncipe? Não. Ele é ideal, só existe no plano das ideias. Você está personalizando e projetando a sua felicidade em um homem que não existe. Por outro lado, e isso eu mesmo pude comprovar, a tendência é encontrar amores (e amizades também) verdadeiras e duradouras no momento em que você estiver no ápice da felicidade e realização consigo própria. Correndo atrás dos seus objetivos e desenvolvendo-se como um ser humano. E então, nesta jornada para se sentir completa e satisfeita com você mesma, você acabará encontrando pessoas com as mesmas aspirações. Valéria, acorde! Você não pode ficar parada na estrada com uma placa de papelão apontada para os carros que passam dizendo “PRECISO DE UM NAMORADO”. Você pararia para dar carona a esta pessoa? Acho que não. Só pessoas vazias como esse Klaus que, provavelmente, no dia seguinte, colocariam-lhe para fora do carro como ele fez. Você precisa percorrer seu próprio caminho. Quem sabe na estrada você não conhece alguém que realmente lhe mereça?

Valéria, que estava com os olhos murchos, agora os tinha arregalados. Ela havia totalmente subestimado Luís, que tinha uma sabedoria completamente diferente da garota. O garoto havia lido os sinais da vida há muito tempo, sem precisar ter estudado nas melhores escolas nem faculdades, como Valéria.

- Nossa, Luís, muito sábio o que você disse. Realmente vou levar para frente. Devo a você meu mais sincero obrigado.

Valéria desligou o gravador, deu um abraço amigável em Luís e tentou, de todas as formas, pagar pelas horas que ele havia ficado com ela escutando sua história. Mas ele se recusou. A jovem pressentiu que, seguindo sua estrada, sem procurar, nem criar expectativas, havia encontrado um grande amigo; exatamente como descrevera Luís. E sob aquela noite fresca e quieta de quarta-feira, pois já havia passado da meia-noite, uma grande amizade foi selada, debaixo da maior proteção que qualquer relacionamento poderia ter: o (bom) acaso.

Fabrício Bernardes

Valéria Legat parte IV

Valéria deu uma pausa na história. Percebeu que havia contado uma noite inteira em dois blocos imensos de fala. Precisou respirar um pouco. Olhou seu gravador, mirou nos olhos de Luís, que escutava tudo com atenção e curiosidade, esperando saber o que aconteceria no final. Embora soubesse que a história não deveria acabar bem devido a todas as circunstâncias na qual Valéria se encontrava.

Era visível o alívio de Valéria ao ter terminado a parte mais emblemática de sua história. Os momentos mais felizes com Klaus foram, justamente, os que mais teve dificuldade para contar e dos que menos se lembrava. A moça não sabia exatamente se era por que estava embriagada naquela noite, ou se a felicidade foi tanta que, com a decepção, ela foi aos poucos se esquecendo do que acontecera; ou se a felicidade, e não seus detalhes mais sórdidos, fosse tudo e apenas o que ficou marcado em seu peito.

- Pois é. Eu cheguei em casa e fui dormir. Esperando, pelo amor de Deus, que ele se manifestasse dando continuidade a tudo aquilo. Quando acordei, vi uma mensagem de Klaus! “Me diverti muito ontem à noite. Obrigado!”. Mais uma vez, pensei: “não foi um poema, nem a coisa mais bonita que já li, tampouco uma declaração de amor. Mas foi a continuidade do que eu queria que continuasse.” Não foi a mais bonita, mas foi a mensagem, o que eu queria e precisava naquele momento. Àquela mensagem, respondi que também tinha me divertido muito e comecei uma conversa. Estava tudo dando certo! Em seguida, ele me perguntou como me achava no Facebook. Respondi-lhe: “procure por Valéria Legat”. E não obtive mais resposta. Achei estranho. Mas ignorei. Segundo o que Klaus havia dito na conversa, ele iria sair com seus amigos. Pensei que não pôde responder porque devia estar fora de casa, algo assim. O problema é que o dia seguinte amanheceu, fui ao trabalho, depois ao francês, e nada de resposta. Mandei-o uma outra mensagem e ele respondeu que estava numa “correria louca”. Hum.

- Ixi, moça, não me está cheirando bem isso – pronunciou-se Luís depois de muito tempo quieto.

- Espere, depois você faz comentários, por favor. Neste domingo esperando a resposta de Klaus, também me dei conta de que havia perdido minha Carteira de Habilitação. Mais uma vez, tentei falar com ele, perguntando-lhe o que ele iria fazer naquele dia — era uma quarta-feira. Ele não respondeu a minha pergunta, mas manifestou-se dizendo que encontrara minha CNH ao fazer uma limpeza no interior de seu carro. Pensei que era a oportunidade para nos resolvermos, ou então marcarmos outro dia para nos vermos. Ou, pelo menos, para poder vê-lo novamente, nem que fosse a última vez. Então, marcamos numa sexta-feira, ao meio-dia, no Conjunto Nacional, onde eu ainda trabalho, para que ele pudesse me devolver o documento. Ele estava, como sempre, lindo. Porém, muito diferente. Não tinha mais cara de jovem e eu estava parecendo uma criança perto dele. Sua altura já não era mais ideal, ele era grande demais. Seu cabelo não estava mais jogado para a frente da sua testa, ele estava posto para trás com gel. Ele estava de terno e era de dia. Parecia que, daquela noite, só ele havia crescido. Eu, pelo contrário, era ainda aquela garota da Sarajevo, da balada, de sábado à noite. Ele, não. Ele disse que encontrara um emprego novo, que era chefe. Enquanto que eu estava (e estou) longe disso. Tentei conversar, ser legal, alongar o momento pedindo-lhe para que fosse à Livraria Cultura comigo, mesmo que não tivesse nada demais para comprar. Ele acatou o pedido, mesmo parecendo um pouco contrariado. Até o momento em que ele disse: “você entra ao meio-dia no trabalho, não é? São 12:10, está na hora de entrar. Você está atrasada”. Então, embora houvesse escutado Lucky Man do The Verve o caminho inteiro do metrô até chegar à Avenida Paulista, aquele não era meu dia de sorte. O encontro com Klaus fora um fiasco e eu estava arrasada. Mesmo assim, quando cheguei em casa depois de um dia maçante de trabalho, resolvi tirar a prova real. Mandei mais uma mensagem para Klaus perguntando-lhe se não podíamos nos ver novamente. Ele contestou: “é que eu estou namorando. Desculpe”. (continua)

Fabrício Bernardes

Valéria Legat parte III

Não era à toa que Valéria estava gravando tudo o que dizia. Só de contar aquilo, já estava se sentindo mal. E sabia que, provavelmente, nunca mais proferiria tais palavras com tamanha riqueza de detalhes. Seu coração batia mais forte, seus músculos se enrijeciam e ela começava a ter ânsia de vômito. Mas estava decidida a ir até o final.

- Depois disso, voltei para casa. Tinha tudo até que dado certo. Dormi. Então, a partir daí, tudo começou a dar realmente certo. Tão certo que eu comecei a desconfiar. Por isso, comecei a enganar eu mesma afirmando ao meu subconsciente que não me importava. Ele me mandou uma mensagem. Foi uma coisa idiota. Totalmente fática, só para iniciar uma conversa. Mas, afinal, eu não precisava de mais do que aquilo. E nem esperava, de qualquer forma, um poema de amor. O fato é que ele veio falar comigo. Perguntei-lhe se ele ia fazer algo naquele dia. Ele disse que não. Sugeri de irmos à balada Sarajevo, na rua Augusta. Ele aceitou. Por precaução, levei minha amiga. Não queria correr o risco de perder uma noite de final de semana caso ele não aparecesse. Entramos praticamente ao mesmo tempo. Avistei-o pegando a comanda no caixa. Cumprimentei-o com um beijo no rosto e um abraço. Em seguida, apresentei-o à minha amiga Paula. Pareceu que eles se entenderam bem logo de primeira. Fiquei aliviada. Embora ela tenha ficado brava no começo dizendo que não havia cabimento ela vir junto comigo para um encontro a dois, Paula se divertiu bastante aquela noite. Assim como eu.

Ao pronunciar essas três palavras finais, Valéria estremeceu em um calafrio e Luís se assustou.

- Está tudo bem?

- Sim. Continuemos. Fomos os três ao bar e pedimos uma cerveja. Minha amiga, Paula, não bebe cerveja, por isso pediu algum destilado do qual não me lembro mais. Eu e Klaus estávamos abraçados e conversando com ela. Foi quando descobri que ele tinha 28 anos. Ele estava, novamente, lindo. Uma camiseta branca, debaixo de uma camisa verde e calça bege. Novamente não me lembro de seus calçados. Seu cabelo, com a franja para frente, contrastava com sua feição de um homem de quase 30 anos e me fazia pensar em como Klaus era atraente e, naquela noite, ele era meu. E eu dele. Além disso, o alemão se mostrou uma pessoa extremamente divertida, estudada e liberal. Requisitos para mim. Estava começando a pensar que era impossível ter encontrado alguém tão formidável em uma saída despretensiosa de sexta-feira. Começamos a beber e ficamos mais felizes ainda. Dançamos música brasileira remixada na pista de cima da Sarajevo, bebemos tequila, cerveja, rimos, sorrimos. Minha sobriedade ia embora, mesmo que estivesse exalando felicidade. Em um momento, fiquei olhando para a face do Klaus e refletindo em como tudo, bizarramente, se encaixava. Eu era francesa, ele era alemão. Eu sou paulistana e ele carioca. Eu estou na segunda faculdade e ele é formado. Ele é mais alto. Depois, me disse que nunca sentia frio e gostava de Florence and the Machine. Depois, ele me abraçava e eu sentia seus braços fortes rodeando-me. Depois, ele estava fazendo até minha amiga se apaixonar por ele (num bom sentido, é claro). Depois, não tinha como negar que o Klaus era perfeito. Nem que somente para mim, somente naquele momento e naquelas circunstâncias. Então, minha memória foi ficando prejudicada pelas tequilas que havíamos tomado e, por isso, só lembro que estávamos no fumódromo e decidimos ir embora. Fomos ao carro dele e lá ficamos por um tempo para nos proteger da chuva enquanto Paula ficava com o moço que conhecera na balada. Aproximadamente uma hora depois, saímos de lá e fomos buscar minha amiga. Chovia. Por isso, fomos de carro, mesmo que ela estivesse a metros de nós. Klaus parou o carro na esquina da Bela Cintra com a Paulista e me esperou lá. Fui correndo e encontrei Paula. Ela estava com um garoto um pouco estranho. Como estava alterada pela bebida, tirei sarro dele e até minha amiga que estava com ele deu risada. Tudo estava engraçado demais. Até que o Klaus chegou, porque eu estava demorando muito. E então, ele também começou a zombar do garoto da Paula e estávamos todos rindo – menos ele, claro. Quinze minutos depois, Klaus se lembrou de que havia deixado seu carro no meio da rua e aberto. Fomos os três rindo de preocupação até o veículo e nada havia acontecido com ele. É a sorte dos bêbados e apaixonados. É também apenas mais uma das várias evidências de que nada poderia estragar aquele momento entre mim, Klaus e Paula. Estávamos com fome. Por isso, fomos comer na Bella Paulista, uma padaria deliciosa na rua Haddock Lobo.  E então, novamente, Klaus foi engraçado e encantador. Comi um lanche imenso porque também estava com fome e queria prolongar ao máximo aquele momento, embora estivesse com um sono voraz. Paula também comeu um grande lanche, se eu não engano, era o Mooca. Quando fomos pagar a conta, Klaus não teve que pagar porque o garçom esquecera de anotar seu café da manhã em sua comanda. Então, ele nos levou de carro até a rua Augusta, onde estava estacionado meu carro. Paula saiu do veículo, para que pudéssemos nos despedir melhor. Não trocamos uma palavra. Foi só um longo beijo de despedida, com muito afeto e um monte de outras frases não ditas, embora ansiasse muito dizê-las: “me ligue, pelo amor de Deus”, “não deixe de falar comigo, pelo amor de Deus”, “vamos nos ver de novo, pelo amor de Deus”, “seja meu namorado, pelo amor de Deus”. E, pelo amor de Deus, deixei o carro sem dizer nada, depois do beijo mais enigmático da minha vida, esperando ter dito tudo o que eu queria ter dito com essa demonstração de afeto realizada pelos meus lábios secos devido a tudo o que tinha bebido naquela noite. Ao entrar no carro, Paula falou o caminho inteiro sobre como gostou do Klaus e como ele era incrivelmente engraçado, culto, bonito, charmoso, encantador. Meu único medo, àquela altura pavor, era de que ele não se manifestasse mais e encarasse aquilo como nada mais do que uma noite divertida, com alguém divertido e, consequentemente, uma recordação divertida, porém efêmera, para sua vida. (continua)

Fabrício Bernardes