Barbeador elétrico

Nós, seres-humanos, por sermos dotados de cinco dedos dispostos de uma maneira peculiar, podemos manipular objetos com uma facilidade assustadora. Mesmo assim, esse utensílio foi designado para encaixar perfeitamente em nossas mãos. Por ser algo mais utilizado pelos homens, eles normalmente têm cores mais másculas, como azul escuro ou preto; mas isso não é uma regra. Vulgarmente falando, ele tem uma forma triangular, mas, se olhado com atenção, tem uma geometria muito mais complexa.

Olhando-o de cima para baixo, percebe-se uma cabeça também triangular, porém moldada suavemente com curvas, como se alguém tivesse raspado as arestas desse triângulo. Em seu interior, três lâminas circulares realizam o trabalho que define o objeto. Os milhares de pontos que determinam esse circunferência derivam de pequenas retas que cortam. Se passarmos a unha entre essas pequenas retas, da fricção, sairia um ruído fino, fugaz e levemente irritante.

Normalmente, esses utensílios têm um cheiro próprio. Imagine-se cheirando seu braço depois de algumas horas sem tomar banho. A pele não estará com um odor ruim, estará simplesmente cheirando à pele. Este olor, misturado com uma leve interferência do metal da lâmina caracteriza a experiência olfativa do objeto. Deslizando a mão da extremidade superior para baixo, sentimos a maciez do corpo do utensílio, que deve ter aproximadamente um palmo de altura e menos de 1/3 de palmo de largura.

Trata-se de uma coisa funcional. É facilmente manipulado, seu peso ínfimo permite que seja carregado em qualquer mochila e, por funcionar em qualquer lugar que tenha uma tomada, pode ser utilizado nas mais variadas situações. Um executivo o usaria uma vez por dia, pois sua cara limpa é essencial em sua ocupação. Eu, como jornalista, utilizo-o uma ou duas vezes por semana.

Gostem eles ou não, o utensílio é um companheiro dos homens e tem um gosto amargo de maturidade, pois essa bate à porta sem avisar e derrama em sua sala objetos simbólicos e comportamentos típicos de alguém que está virando adulto. Quando ligado na tomada, ele reproduz um barulho, de certa forma, similar ao discurso daqueles que impõem: “filho, faça a barba”; “amor, faça a barba, pois ela me pinica”; “faça a barba, se não você perderá o emprego”. É um ruído que entra nos seus ouvidos e, no seu cérebro, raspa e rói “r”s (rrrrrrr).

Quem tem problema com crescer normalmente não gosta desse objeto. Pois, de fato, ele não é querido pelos seus donos, mas, pelo menos, muitos o suportam. Afinal, ele simboliza a aspereza do tempo e da vida, que, como a maturidade, batem à porta sem aviso prévio e entram de supetão em sua sala. Não há nenhum momento específico que me faça lembrar desse utensílio, senão todas as vezes que fiquei em um dilema: dilacero a minha pele para satisfazer as exigências da sociedade ou fico com metade da cara negra, com esses pelos saindo da minha face?

Se tivesse que relembrar um momento baseado nesse dilema, pensaria naqueles em que, não importa para qual caminho eu fosse, acabaria prejudicado. De qualquer forma, é marcante o dia em que minha mãe não aguentava mais ver-me de barba e decidiu comprar-me um barbeador elétrico. Desde então, esses “r”s têm raspado e roído minha cabeça, no dilema entre fazer o que os outros esperam que eu faça ou sentir-me bem, sem ter que irritar minha epiderme.

Esse utensílio está dentro de todos os homens, pois representa a fase das responsabilidades. Desde que tive necessidade de me barbear, tenho que enfrentar provas, vestibular, trabalhos e trabalho. Desde então, sempre traduzo esses “r”s como exigências da vida e sempre evito o dilema de me barbear o máximo possível.

Fabrício Bernardes