Estranho Brasil

Boa noite Brasil, são 11 horas da noite de uma terça-feira. Nossa. Wow. Como estamos diferentes desde o meu último post. Passei, junto com meu País, por poucas e boas desde então. Há mais ou menos duas semanas, fui recebido pela Polícia Militar, em São Paulo, com bombas de efeito moral porque protestava contra 20 centavos a mais na passagem do transporte público na minha cidade. Passei por um pânico horrível. Fui encurralado de um lado pelo choque e de outro pela cavalaria. O que eu tinha feito? Tinha gritado, com mais umas 100 pessoas ao lado, “sem violência”. Isso foi quinta-feira, dia 13 de junho.

Então, fiquei, literalmente, puto. Contei tudo o que acontecera no Facebook. Compartilhei fotos, depoimentos, xinguei a polícia e fiz até piada deles. Afinal, eles haviam proibido os manifestantes de portar até vinagre, usado para amenizar o efeito das bombas de gás lacrimogênio. Então, segunda-feira (17), fui às ruas novamente com toda a minha gana. Eu, e mais um monte de gente, havíamos sido desprovidos do direito de manifestar. O que é, até certo ponto, compreensível – embora inaceitável – pois há tempo não lidávamos com movimentos sociais de peso no País.

Cheguei à Avenida Faria Lima, palco do quinto ato contra o aumento da tarifa, munido. De todas as maneiras imagináveis. Havia trazido um cachecol para respirar por ele para quando jogassem bombas em mim. Um óculos de natação, porque meus olhos arderam demais quinta-feira. Uma camiseta confortável, uma barrinha de cereais e um lanche que eu comprei na saída do trabalho para não ficar com fome, pois sabia que aquele seria um longo dia. Meu primo foi vestido à Clube da Luta. De jaqueta de couro e bota de aço (sim, de aço, nem sabia que isso existia).

Foi muito estranho (agora essa palavra vai começar a surgir no texto demasiadamente) andar na Faria Lima na RUA. Eu, que sempre passei por essa avenida com pressa, na calçada, literalmente esmagado pelo sistema, correndo para chegar a tempo na aula do francês, estava lá andando com calma, com um cartaz na mão, ao lado dos meus amigos (encontrei gente do meu antigo colégio, da faculdade, do trabalho e até da minha família — meu primo). Eu estava empossado. Nunca andara naquela avenida me sentindo tão forte. Gritava, pulava, sorria por dentro, porque havíamos mostrado quem mandava no País.

Andamos, com certeza, mais de 10 quilômetros. Acabamos na Avenida Paulista — a quem eu gostava de apelidar de Bastilha. Sonhando com uma revolução desse porte no País. E olhe. Fizemos história. Só falaram de nós nos jornais de fora e a mídia tradicional brasileira não podia mais nos ignorar ou nos rebaixar. Já éramos grandes demais. Então, viramos queridinhos deles também. Até página na Wikipédia ganhamos! A Revolta da Salada. Formidável.

Porém, desde então, tudo começou a ficar muito estranho. Um clima de incerteza pairava no ar dos dias que iam se passando. Eu comecei a me ausentar. Não sabia mais o que pensar. Sim, era muito mais do que 20 centavos. Mas estava tudo tão nebuloso. Então, umas coisas mais estranhas ainda começaram a acontecer. Coisas tipo: #ogiganteacordou, As 5 Causas, #chegadepartido, #oportunistas, etc.

Então, vimos um bombadinho quebrando a prefeitura de São Paulo em imagens em todos os noticiários. Arrastões, vandalismo de verdade. E a polícia, que antes nos tratara como baratas, na terça-feira (18), praticamente não existia. Nem para colocar ordem nessas pessoas que, realmente, não respeitavam o patrimônio público. Porque não tinham e não sabiam nem pelo que protestar.

Desde então, essa revolta tem sido um show de erros de todas as partes. Até da que eu me sentia mais parte. Muitas pessoas que acordaram atrasadas quiseram fazer parte dessa festa, ops, dos protestos. Teve gente que se aproveitou disso e teve gente que não soube lidar com isso. A grande mídia soube tirar proveito. Beatificou as manifestações e deu um caráter próprio a elas. “Protestos contra a corrupção, a favor da educação e contra o governo atual”. A esquerda disse que não fazia mais parte desse aglomerado e falou nas redes sociais: “isso não me representa mais”.

Por fim, tudo acabou estranhamente à brasileira. O preço da passagem abaixou, os pedágios não subiram e a PEC-37, mesmo eu não sabendo ainda se isso foi bom, foi arquivada e… Por enquanto só isso. Esse post foi estritamente historiográfico. É bom escrever para que, depois de um tempo, eu — e quem esteja lendo isso — não me esqueça de como foram as coisas. Quem ficou do lado de quem e como tudo acabou, estranhamente, à brasileira.

Fabrício Bernardes

Digo o que penso

Yo soy el que te recuerda cómo estamos de jodidos

Parabéns, você é brasileiro! Uma economia dinâmica que cresce sem parar. Um gigante latino-americano, cuja moeda vale o dobro da dos nossos “hermanos”. Um potencial imenso ainda por ser explorado, um país de gente feliz e acolhedora.

Parabéns, você é paulistano! A 14a cidade mais globalizada do mundo. Município que possui o 10o maior PIB do planeta. Cidade que abriga a sede da 2a maior bolsa de valores do mundo em valor de mercado. Uma cidade de etnia europeia, porém dinâmica e avançada como uma metrópole americana.

Doutores psicológos descobriram, recentemente, uma lógica eficiente para alcançar qualquer meta que um ser humano comum pode lograr – portanto, exclui-se voar, ser invisível e colocar o Sarney na cadeia. Ele se chama contraste mental. O método consiste em imaginar aspectos bons e ruins do objetivo a alcançar e, em seguida, confrontá-los.

A eficácia dele foi mais do que comprovada. Mas por que é tão difícil contrastar ideias em nossa mente? Simples. Nosso cérebro tende a eliminar todas os pensamentos paradoxais de nossa mente. É como lutar contra nossa própria natureza. É como nadar contra a corrente.

Mas por que o contraste mental é tão eficaz, então? Porque ele força você a tomar uma decisão: ou você segue em frente com e ataca aquele objetivo ou você desiste.

Parabéns, você é brasileiro! Habitante de um país em que é mais importante ter o celular da última geração do que ter seus filhos na escola. Uma nação cujos cidadãos acham bonito tirar vantagem dos outros. Pátria que prefere falar sobre futebol do que discutir sobre os políticos que roubam descaradamente a população.

Parabéns, você é paulistano! Cidade em que gente diferenciada não gosta de metrô para não se misturar com a gentalha. Metrópole em que é bonito dar um carro de presente ao filho que passou na faculdade, mesmo que ele demore 2 horas e meia para chegar ao seu destino. Um dos municípios mais globalizados do mundo e, ao mesmo tempo, lugar onde mais de 625 mil pessoas vivem com menos de 140 reais por mês.

É, a verdade dói. E doa a quem doer. Estou farto de hipocrisia. Ninguém vive no País das Maravilhas de Alice e estamos longe de resolver nosso problema. Falo de São Paulo porque sou paulistano da gema. Que cidade é essa em que uma construtora vai construir um BAIRRO inteiro dentro da cidade (em Pompeia)? Que cidade é essa em que há quase dois carros por pessoa? Que cidade é essa que se vangloria de ser desenvolvida, mas não tem metade da malha ferroviária de uma cidade de 1,5 milhão de habitantes (quase 7 vezes menor do que São Paulo) como Barcelona? Que cidade é essa que enfia polícia super-armada em universidade, enquanto, a cada trimestre, mais de 10 pessoas são assassinadas?

Qual a solução, então? Investir em metrô? Sim, invistamos em transporte público de qualidade! Então, São Paulo será um foco de desenvolvimento e qualidade de vida porque teremos resolvido um dos maiores problemas que assola a cidade. E então mais 10 milhões de pessoas migrarão do resto do Brasil e do mundo buscando as regalias de uma cidade cheia de oportunidades com boa qualidade de vida. Assim, teremos voltado à estaca zero. Sim, o buraco é mais embaixo. Diferentemente de como o paulistano gosta de pensar, não estamos isolados.

E o que fazer com o trânsito, poluição, enchentes, efeito estufa, chuva ácida e tantos outros etc’s numa cidade como São Paulo? Eu me proporia a escrever um texto argumentativo se tivesse ideias lógicas, práticas e concisas para defender. Porém, não as tenho, não sou um acadêmico e o crescente debate interminável sobre tais problemas ambientais só me deixa cada vez mais com a certeza de que, quanto mais se fala, mais se chove no molhado.

A única ideia que defendo – com unhas e dentes. Ora, precisei de mais de 3800 caracteres para chegar a ela – é que nada está como deveria estar. Por mais que você viva positivizando e negando os problemas. Então, façamos como os psicólogos americanos sugeriram: confrontemos ideias e busquemos um objetivo-mór comum. Pelo seu próprio bem, e pelo de todos.

Fabrício Bernardes