Latter days

Foi assim. Um emaranhado infinito de pontos. Foi assim que cheguei à Faculdade Cásper Líbero no meu primeiro dia, no trote. Era como olhar para as estrelas ou para um espelho estilhaçado. Mil pedaços, desconexos, que, rudemente separados, não tinham razão para fazerem sentido.

Quando eu era pequeno, gostava de pegar o jornal e colocar a cara bem pertinho dele, olhando para as letras como se estivesse usando uma lupa, com os olhos praticamente colados na folha. Não dava para entender nada, mas eu achava divertido. Olhando de perto, eram só letras, pontos desconexos. Olhando de longe, tudo fazia sentido. Era como se as letras estivessem dançando na canção frenética do dia a dia. De perto, elas eram só letras. De longe, elas eram mensagens.

Desde então, tenho cada vez mais consciência de que a vida é formada por inúmeros pontos, mas que todos eles são essenciais para transmitir alguma mensagem. Quando uma letra falta, perdemos sentido, a mensagem falha, a comunicação é prejudicada.

Então, quando, em 2010, pisei na Avenida Paulista pela primeira vez como um casperiano indo à aula, enxerguei, de novo, inúmeros pontos. E, como no jornal de outrora, fui aos poucos tratando de dar sentido a cada ponto que aparecia em minha vida. Não foi fácil. Nem toda mensagem é tão explícita assim. Nem sempre você conhece todas as palavras. Nem sempre você conhece todo mundo. Nem sempre você enxerga tudo de cara.

O fato é que, no dia 9 de abril de 2013, perdemos um ponto. A comunicação falhou. O jornal não fez sentido. E, mais uma vez, olhando de perto, tudo parecia absurdo, extraordinário.

Olhando de perto, o Victor (eu não vou escrever o nome dele completo porque me recuso a me distanciar de um outro casperiano, que pegava elevador comigo e torcia pela Cásper no JUCA comigo, mesmo que eu não o conhecesse de fato) é extremamente semelhante a mim e a todos os outros casperianos. Eu passei minha infância morando no Belém, eu também sou da Zona Leste, eu também passo o dia inteiro fora trabalhando e estudando, eu também fico feliz quando sou liberado mais cedo do trabalho, eu também sou jovem.

Entretanto, é sabido que o olhar aprofundado demais é enxergar uma só estrela no céu, uma só letra no jornal. Não se pode esperar que apenas uma letra em um jornal inteiro faça sentido. E, embora a dor seja imensa e não faça sentido, o jornal infelizmente continua.

Os profissionais da comunicação sabem que lidam com o superficial, com o que está por fora, com o senso comum. Mas isso não é motivo algum para ser ruim, isso não diminui nossa força. Justamente porque, na noite do dia 10, a Cásper reescreveu o jornal. Por causa de uma letra que, embora pareça pequena, mudou a rotina de cada um que contribuía para o ritmo e a dança da vida no jornal que os casperianos escrevem todos os dias.

A dor é grande. Uma letra faltando ou mal colocada não é apenas uma letra. Ela desvia o sentido inteiro de uma vida. E a vida deste radialista é tão grande quanto a pequenez dessa letra que faltou. O jornal não fez sentido sem ele ontem. E dessa fatalidade nunca nos esqueceremos.

No entanto, à medida que a dor aumenta, o orgulho de fazer parte deste jornal casperiano também cresce. O orgulho de fazer parte daqueles que reescreveram o jornal. Daqueles que ainda dão valor à vida. Daqueles que, na forma de letras e pontos unidos, transmitiram humanidade ao acontecimento, às notícias, às mídias e ao escadão da Paulista. Mostrando que, por mais que tudo pareça perdido, o jornal do dia seguinte, mesmo com muita dor e tristeza, sempre pode ser reescrito.

Fabrício Bernardes