Cartas a Idalina

Idalina, hoje é meu aniversário. Estou envelhecendo. Mas que o Senhor não escute minhas reclamações — e que esta carta fique apenas entre mim e você. Afinal, tenho duas mãos perfeitas para escrever o que lhe escrevo. Duas pernas perfeitas para chegar onde quiser e uma saúde que não me tem falhado há tempos. O problema é que, hoje, não consegui fazer mais nada que não fosse dar voltas e voltas pelo corredor da minha casa. Desatei a andar numa caminhada curta de tamanho, porém larga em número de horas. Não sei muito bem. Talvez seja a falta do mar para consolar minha solidão. Eu já não sei o que aconteceu de verdade. Mas tenho certeza de que sinto sua falta. Mesmo sem nem saber direito quem você é hoje em dia. Peço perdão pelas minhas reclamações porque sei que quero tantas coisas que não tenho. Parece que me falta lembrar das coisas que já possuo. Por isso, não me parecem dignas minhas queixas. Enfim, hoje é meu aniversário e cá estou um ano mais próximo da morte. Não tenho mais certeza se estou feliz pela sua existência. Justamente porque ela me transformou no que me transformei esses anos.

Enfim, na verdade, a razão pela qual lhe escrevo é para que você veja como estou lidando melhor com essas datas. Eu não estou passando meu aniversário sozinho — afinal, estou próximo de você, escrevendo-lhe. Idalina, hoje as ruas estão frias e chuvosas. Não chovia faz tempo aqui. O ar estava ficando cada vez mais seco. Por isso, sinto com mais força a fumaça do cigarro que você outrora fumou entrar em meus pulmões. As árvores estão judiadas e, secamente, me disseram durante esta semana inteira: “volte para a sua casa.” E cá estou, escrevendo-lhe. Na verdade, não estou muito seguro de quanto tempo faz que não saio de casa e há quanto tempo chove. A única coisa que tenho segura em minha mente é como você parecia naquela camiseta cinza, com o cabelo encaracolado, me olhando daquela janela. Idalina, agradeço-lhe por existir porque sei que minha existência está condenada à sua. E, quanto mais ficamos longe, mais próximo me sinto da vida e, por consequência, da morte. Eu deveria estar chorando por passar mais um aniversário assim. Mas, justamente porque decidi lutar, cá estou andando sem parar e sem pensar em meu apartamento. Idalina, quando lhe disserem que a vida é curta, aproveite. Quando lhe derem uma rosa, não hesite em cheirá-la. Se algum dia você for presenteada com um livro, não deixe de devorá-lo.

Eu ainda sinto o gosto da última macarronada que cozinhamos. Não posso me recordar muito bem de quando isso aconteceu, mas parece que ainda estou com bafo de alho na boca. Idalina, tudo o que comemos nos faz viver. Tudo o que nos faz viver vem da terra, do cultivo, do preparo, do cuidado. Tudo o que faz bem — e às vezes não tão bem assim — nos é proporcionado pelo Senhor e é por isso que lhe agradeço tanto. Idalina, lembre-se de que, enquanto você respirar, ainda estarei ao seu lado torcendo para que o Senhor e a terra tenham lhe proporcionado o mesmo contingente de felicidade que me foi garantido. Afinal, sou feliz. Não sou? Idalina, lembre-se de é preciso cuidado, carinho e petulância para chegar aos lugares em que mais desejamos estar. Recorde-se de que, no final das contas, nem tudo nos é proporcionado, porém tudo vem da terra. Aproveite o que lhe é dado, pois às vezes será necessário batalhar pelo que desejamos. E nem sempre a luta é válida ou justa. Portanto, escute Chopin, mas lembre-se de que a melodia — por mais maravilhosa que seja — sempre terá um final. Assim como a vida, assim como o nosso amor.

Do seu querido e sonhador,

Hermengardo.

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(Des)encontros: A única coisa que tenho segura em minha mente é como você parecia naquela camiseta cinza, com o cabelo encaracolado, me olhando daquela janela.

Fabrício Bernardes