Clepsidra

Em meados de 2008, o garoto estava sentado em sua carteira, em seu colégio, tendo a primeira aula de Simbolismo português da sua vida. A professora, já conhecida há mais de um ano pelo aluno, hipnotizava-o com suas palavras. Em meio às cobranças do vestibular, das provas que estavam chegando e de qualquer outra preocupação que poderia atingir o menino, a aula de literatura, ensinada por uma educadora querida, era uma das poucas horas em que podia se esquecer das suas frustrações. Não que sua vida fosse ruim, longe disso. Talvez, a pequenez de ser um estudante de Ensino Médio fosse o que mais lhe afligisse. Também por isso, a cada aula de literatura que tinha, saía mais leve e realizado. Pois estava aprendendo sobre outras maneiras de viver e encarar a vida, desviando-se da pequenez de viver em um bairro do qual saiu pouquíssimas vezes antes de entrar na faculdade. Era como se as aulas de literatura fossem a única maneira de abrir portas, de diminuir sua insignificância. Enquanto que, nos outros momentos, era dominado por preocupações menores, porém válidas para aquela época.

Um momento icônico de sua vida, por mais estático que tenha sido – uma aula de uma hora e meia sobre Simbolismo em Portugal -, foi quando aprendeu sobre Camilo Pessanha. Ele estava maravilhado com o trabalho e a experiência de vida do poeta. Como o escritor vivera em Macau, aprendeu chinês e, por consequência, teve uma poesia rica em símbolos, representações, alegorias e alusões como nenhum outro. Pessanha teve apenas uma obra publicada: Clepsidra.

Cinco anos depois, o mesmo garoto viu-se esperando uma amiga no Shopping Iguatemi para, em seguida, irem jantar. Subiu a rampa de um dos centros comerciais mais chiques de São Paulo e se espantou ao presenciar uma antiga figura querida em sua mente. Ele estava diante de um relógio d’água. E, então, o rapaz se transportou para o seu quarto, de novo em 2008, no momento exato em que estava fazendo sua lição de casa e encontrou uma foto de uma clepsidra em seu livro de literatura. Ele era exatamente o mesmo garoto que estava sentado estudando há cinco anos. Mas tudo estava estranhamente diferente e, bizarramente, encaixado numa harmonia estrondosa.

O tempo.

Clepsidra é uma palavra grega, que significa “relógio d’água”. Serve para medir o tempo, como uma ampulheta. Usar água para medir o tempo é uma ironia dos gregos, convenhamos. Parece que eles estavam rindo e nos dizendo que o tempo é líquido, ele se vai por nossas mãos e, uma vez que escapa de nós, ele não volta; é irreversível. Além disso, Hidra é uma serpente gigantesca, com inúmeras cabeças, que, à medida que são cortadas, nascem e se desenvolvem novamente. Somos impotentes, frágeis e toscos diante de Cronos, deus do tempo.

Camilo Pessanha fez uma escolha formidável de título à sua única obra publicada. Ele realmente sabia mexer com simbologia. E o garoto, no meio de toda esta grandeza – do tempo, dos deuses gregos, dos poetas portugueses -, não tinha mais vergonha de ser pequeno. Pois, como uma vez disse Dalai Lama, “se você acha que é pequeno demais para fazer a diferença, tente dormir com um mosquito”. Afinal, tudo estava encaixado quase que divinamente. Cada vez mais, o garoto tinha convicção de que nada era por acaso e de que tudo o que passou na sua vida tinha um sentido.

Então, ao encarar o relógio d’água do Iguatemi, sabia que era o mesmo. Que nada mudara. Que ainda “vivia como seus pais” e que era profundamente agradecido por tudo. Pois, só chegara onde chegou porque era, justamente, o mesmo de cinco anos atrás. Porque teve uma professora de literatura extraordinária, que lhe mostrou inúmeros pontos de vista, que o fez ser apaixonado pela literatura portuguesa, que o “apresentou” a poetas notáveis, como Antero de Quental, Camilo Pessanha, Mario de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa. E depois desses dois anos com essa mesma professora, estava sentado novamente numa carteira, porém, numa ocasião diferente. Estava prestando o vestibular da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero e, na redação da prova, citou Mário de Sá-Carneiro e, semanas depois, soube que foi aprovado. E foi nessa instituição de ensino que conheceu pessoas maravilhosas, professores incríveis, ensinamentos singulares, que lhe proporcionaram um estágio em uma grande revista e… Ali estava o garoto. Diante da inevitabilidade e onisciência do tempo. Encarando um dos mais belos símbolos da humanidade. Em uma cidade frenética de 10 milhões de habitantes. Em um país símbolo de mudança. Em um continente apelidado de Novo Mundo. Em um planeta com seres humanos. O garoto não tinha motivo algum para se sentir pequeno. E o recado dado – seja lá por quem – nesta conexão de cinco anos, era claro. Somos ilimitados e únicos. Qualquer momento em nossa vida pode ser o último. Nada é por acaso. Sentimos dor porque estamos vivos. É necessário desconforto para estar confortável. Tudo tende ao equilíbrio. E, dessa nossa condição, até os deuses nos invejam.

Fabrício Bernardes