Dores de adulto

Sendo bem sincero, nunca quis ganhar muito dinheiro. Essa decisão deve ter sido uma mistura de criação com a minha própria personalidade. A minha geração de classe média é, de longe, a mais bem estruturada da história da minha família. Leia-se: eu fui a um dos melhores colégios do Brasil, a uma das melhores faculdades, me formei com apenas 22 anos e fiz três intercâmbios na vida. É claro que eu fui criado para ser alguém bem-sucedido, mas isso nunca influiu em nenhuma das minhas decisões. Ainda bem que nunca passei por dificuldades financeiras. Por isso, nunca me vi coagido a pensar num futuro em que houvesse dinheiro. Porque sempre assumi que o mesmo aconteceria comigo. “Se minha mãe conseguiu, eu consigo.”

Eu nunca enxerguei a vida pela perspectiva do dinheiro e do sucesso profissional. Sempre me imaginei fazendo algo que gosto e que, eventualmente, o dinheiro viria. Como se um fosse a causa e a consequência do outro. Até eu decidir fazer jornalismo. E começar a comparar meu trabalho com o dos meus amigos que faziam outro curso. Ficou claro que eu ia ganhar bem menos pela mesma quantidade de trabalho — ou mesmo para trabalhar mais. E, então, foi a primeira vez que apareceu o desespero monetário em minha vida.

“Eu vou ganhar mal o resto da minha vida.” Em seguida, eu tentava me acalmar, pensando em alternativas no jornalismo que me dessem dinheiro. “Você pode ser âncora de jornal.” Esqueça.

Essa foi minha primeira dor de adulto. E eu não tinha nem 20 anos quando ela apareceu. Nada fazia sentido. Minha vó trabalhava desde os 13 anos e sempre se orgulhou disso. Minha mãe se encaixa no estilo workaholic e sempre deixou claro para mim que trabalhar é a solução para todos os problemas da vida. Talvez porque ela nunca tenha feito um intercâmbio. Mas eu, com o perdão da palavra, estava cagando para trabalhar e ganhar dinheiro. Mas daí aconteceu e eu fiquei preso na dinâmica do laboro.

Uma mistura de orgulho, alpinismo social e inevitável sentimento de realização quando mostrava meus textos aos meus familiares. Embora estivesse infinitamente mais confortável indo apenas à faculdade, fazendo minha sesta, lendo meus livros e indo ao taekwondo.

Em seguida, as coisas foram se encaixando e eu comecei a trabalhar para valer. Achei um bom emprego e fui efetivado. É bizarro, mas agora sou eu quem edito os textos dos estagiários — eu tento ignorar o fato de que, não faz nem seis meses, eu estava na posição deles. Talvez seja porque eu cresci rápido demais. Talvez seja sorte. Talvez sejam os dois. O importante é que eu consegui (!). Estou trabalhando e, como disse meu primo uma vez, “finalmente você está ganhando salário de gente.”

Assim sendo, outra dor de adulto me apareceu. Ela diz respeito ao quão estúpido eu sou para administrar meu próprio dinheiro. Uma controvérsia, pois trabalho com negócios. Sabe aquelas coisas do tipo, “sabe administrar e dar pitaco no dos outros, mas no seu, é nulo.” É bem isso mesmo. Eu tenho pavor de caixa eletrônico. Não consigo acessar minha conta bancária do celular. Vivo errando minhas senhas e morro de vergonha por isso. Não consegui até hoje tirar todo o dinheiro da minha conta no Santander. Não faço ideia do esquema de salário que tenho — se eles pagam mês vencido, em quanta vezes eles pagam o salário por mês. Já perdi uns quatro cartões de crédito ou débito. Tenho pavor de andar com dinheiro no bolso. Odeio usar moedas, porque elas fazem barulho e eu demoro a contá-las. Tenho um cofre pesadíssimo em casa, cheio delas, como se ainda fosse legal — como aos 12 anos — juntar quilos e quilos de moedas. E tenho a impressão de que, não importa o que eu faça, os bancos estarão sempre me roubando e tirando vantagem de mim. Talvez essa não seja mentira. Enfim, será que não dá para voltar à época em que minha única preocupação monetária era se o dinheiro que minha vó me deu dava para comprar um saquinho de pão de queijo, um sorvete e um chiclete na padaria da esquina? Ah, só para constar, eu sou da época em que um pãozinho francês custava 15 ou 20 centavos.

Ontem, eu estava extremamente chateado comigo mesmo porque não sabia fazer coisa de adulto. Ainda não sei. Mas sentei com minha vó no sofá na hora da novela e ela me deu umas dicas. Acho que agora entendi como funcionam os caimentos dos pagamentos do meu salário durante o mês. Pois é. As dores de adulto chegam — exatamente como chegam as dores nas costas e de cabeça das quais minha mãe sempre reclamou. Acho que ela sempre quis que eu trabalhasse para que a entendesse melhor. Ok, agora eu a entendo. Posso voltar a ser criança de novo?

Fabrício Bernardes