Barreiras

A moça, morena e de cabelos ondulados, se encontrava presa em mais um dos rituais provenientes do que se diz sobre ser uma boa mãe. Ela tinha que levar a filha ao aeroporto para se despedir de seu pai Johann — um holandês com quem esteve durante menos de uma noite, há muitos anos.

Juliana se via presa de várias maneiras. Algemada numa relação de estranhamento com o homem com quem teve sua filha, no que a sociedade e sua família julgam sobre deveres maternais, na culpa que sente pelo fato de Johann ser distante da  filha — e naquele aeroporto cheio de gente apressada. Isso porque era domingo.

- Mãe, o papai está chegando – sua filha Mariana havia interrompido seus pensamentos.

- Oi, Johann, tudo bem? – perguntou Juliana.

Ele respondeu que “sim, tudo ótimo” em inglês e deu um forte abraço na filha. Levantou-a no colo. Já estava cada vez mais difícil brincar com ela assim — afinal, ela já tem mais de seis anos e está ficando pesada. O tempo passa. Ainda mais para ele que via sua filha tão raramente. Ele estava indo para mais uma missão internacional. Desta vez, ia à África e só Deus sabe quando voltaria. Há seis anos, os cabelos encaracolados e dourados de Johann eram bem mais chamativos. Juliana nunca vai se esquecer do dia em que viu os olhos de Johann mais azuis do que em qualquer ocasião. Como se fossem rios provenientes de uma complexa bacia hidrográfica, seus vasos sanguíneos avermelhavam o entorno de sua íris, deixando-a reluzente como uma enseada caribenha. Ele estava chorando — sua filha nascera de sete meses e poderia não sobreviver. “Nunca vi o Johann tão abalado em sua vida”, pensou Juliana. Os dois se encontravam um ao lado do outro no corredor do hospital. Johann chorava. Juliana sofria. “Olhando daquele vidro, ela parecia tão pequena, tão indefesa e, principalmente, tão sozinha”, refletiu Juliana.

Johann não largava da filha. Mariana, é claro, se regozijava com tanta atenção. Foram poucos os momentos em que teve seu pai e sua mãe tão perto ao mesmo tempo.

- Tchau, Ju – disse Johann num português carregado.

- Bye, take care – respondeu Juliana a três palmos de distância de Johann. Eles não haviam se tocado nenhuma vez naquele dia.

Johann estava agindo como um pai babão. Deu incontáveis beijos em Mariana. Abraçou-a, brincou com o seu cabelo, fez cócegas nela. Por fim, deu um último beijo na filha e seguiu seu rumo para morar longe de novo. Johann era corpulento, alto e andava de maneira desastrada por causa das duas malas de mão que carregava. Ao seu lado, uma faixa preta — aquelas usadas para formar filas de aeroporto — o separava de sua filha e de Juliana. Johann parou de andar inesperadamente. Causou tumulto entre as pessoas que estavam atrás dele, deu meia volta e violou a faixa. “O que ele está fazendo? Será que esqueceu alguma coisa? Será que desistiu de ir?”, pensou Juliana. Johann se aproximava fixando seus olhos azuis nos olhos marrons da moça. Juliana estava confusa e tensa.

Ele a abraçou por 30 segundos e, sem dizer uma palavra, retornou à fila do seu voo. Johann havia transposto uma série de barreiras que o separavam de Juliana: a geográfica, a linguística, a do silêncio, a do estranhamento, a da falta de amor entre eles e até a do vidro que outrora os separou da filha na maternidade. Aquela faixa foi a única barreira (in)transponível.

Fabrício Bernardes