Resenha – Dias de Inferno na Síria

Quem começa a ler o livro “Dias de Inferno na Síria”, do jornalista pernambucano Klester Cavalcanti, se depara com uma introdução confusa. Um flashback caótico anuncia uma série de deslizes jornalísticos e narrativos – inaceitáveis para a experiência e o currículo de prêmios que o autor coleciona – numa trama que deveria falar sobre a guerra na Síria, na cidade de Homs, mas acaba se transformando num relato de heroísmo sobre e contado pelo próprio Klester.

Não podemos dizer, no entanto, que o livro é de todo descartável. Mas, sem dúvida, o propósito da obra foi perdido ao longo das palavras do “sahafi” (jornalista em árabe), como Klester adora ser denonimado. Sobre a parte boa. Em meio a notáveis exageros da complexidade da situação vivida por Klester, revelou-se um povo muito parecido com o brasileiro. A população da síria, conforme o esperado de um árabe, é acolhedora e, em sua maioria, não apoia a guerra e nem as barbáries decorrentes dela. Ao ter mostrado – embora com certa carência de detalhes – os sírios com quem teve contato, Klester trouxe para perto do leitor o drama de quem vive na guerra. Uma das partes mais tocantes da obra é quando Klester é recebido sem cerimônia na reza de grupo entre os prisioneiros de guerra com quem dividiu a cela – sim, ele foi preso em território sírio. Mas, não, ele não foi mal tratado. Com certeza, teria sido muito pior se tivesse sido preso no Brasil.

Klester dividiu a comida, a água mineral, a água do banho e até o beliche com os companheiros de prisão. Entretanto, não estava bom para ele. “Ficaria muito feliz em ir embora da prisão (…) sem ter de fazer outra refeição na bacia de plástico, como se fosse um animal num chiqueiro, disputando a ração com outros bichos”, diz Klester em trecho do livro. Durante muitas vezes em que lia, me pegava pensando no que mais Klester queria. Será que ele não sabe que nem no Brasil ele teria um tratamento tão bom na prisão quanto teve na Síria? Eu cansei de contar as vezes em que Klester foi aconselhado a não ir a Homs. E todas as vezes, ele dizia que estava preparado para morrer. Como se não soubesse o que estava falando. Morrer numa guerra da qual ele não faz parte? Pela busca eterna da melhor reportagem? Chega a ser ingênuo. Depois, quando está na prisão, reclama da água, da comida, da temperatura, do ar – os companheiros de cela de Klester fumavam a toda hora. Não era ele que estava preparado para morrer a qualquer momento?

Falando em preparação, a obra passa a impressão de que Klester não estava preparado para cobrir uma guerra deste porte. Sinceramente, levando em consideração tudo o que está acontecendo na Síria, ele ainda decidiu não aceitar a recomendação de ir a Damasco antes de alcançar Homs do Consulado Sírio, que lhe concedeu o visto de jornalista. A palavra maldita. Toda vez em que Klester dizia que era jornalista, algo de ruim lhe acontecia. E quanto mais eu lia aquilo, menos surpreso eu ficava. Ele teve que esperar até a página 74 para perceber que dizer que era repórter não era uma boa ideia. Eu teria esse insight ao planejar minha viagem à Síria – sabendo que liberdade de expressão não é algo que agrada Bashar Al-assad.

No final das contas, o livro de Klester nos mostra que, por mais imperfeito que esteja seu plano de viagem e de atuação como jornalista, a sorte de se encontrar em um país com pessoas acolhedoras pode fazer a diferença entre estar vivo ou estar morto. Não é que Klester não tenha sofrido na sua tentativa de cobertura. Mas é que a história se concentra demais em como ele teve de se esforçar para superar os problemas por que passou – e que não eram tantos, ele não foi exatamente torturado. Foi preso e apontaram armas para ele. Pergunte quantos jornalistas não passaram por isso, ou pior, só nas manifestações de junho. De qualquer forma, a obra retrata a Síria que acolheu Klester – e que, nem de longe, é aquela que vemos tirar a vida de centenas de pessoas na televisão. Foram a Síria e seu povo que salvaram Klester. Foi uma Síria branda.

Fabrício Bernardes