Cremaster 1: Para além das artes

Matthew Barney nasceu em 1976 em Nova Iorque. Foi lutador e jogador de futebol americano no colégio e estudou medicina em Yale. Depois, se transferiu para o departamento de artes e se formou na área. Seu primeiro trabalho exposto foi em 1991 e atraiu atenção imediata. Três anos depois, Barney começou a trabalhar com o ciclo Cremaster. Produziu primeiro Cremaster 4, evitando uma ordem cronológica e depois voltou ao primeiro da ordem. Mas por que Cremaster? Barney explica: “o músculo cremaster está associado, mas não realmente relacionado com a dimensão das gônadas durante a diferenciação sexual no útero. Uma história poderia ser desenvolvida sobre um sistema sexual que teria a capacidade de se mover à vontade, e dentro dessa fantasia, o músculo cremaster controlaria o que na verdade não controla”.

Peço desculpas pela citação longa de mais no parágrafo acima. Mas ela é necessária. Em um filme como Cremaster 1, tudo o que se considere sobre ele, pode ser aceitável. A obra não tem diálogo e, por mais que haja explicação para tudo no filme, ele é subjetivo. Tudo começa com um campo de futebol em Boise (Idaho), onde Barney passou sua infância, e com dois dirigíveis suspendidos acima do estádio. O interior branco dos dirigíveis lembra o cenário de uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrik. Em cada um, há um grupo de aeromoças tomando conta de uma mesa com uma escultura de forma fálica e rodeada de uvas. Debaixo da mesa, encontra-se uma mulher que abre orifícios na mesa para poder pegar uvas de lá. Quando o faz, organiza-as de uma forma que lembra estruturas sexuais. E bailarinas abaixo, no campo de futebol americano, reproduzem o que foi feito com as uvas em uma escala maior.

Ninguém é obrigado a gostar nem a entender todas os pequenos detalhes da obra. Como já dito, ela é subjetiva. No entanto, qualquer tipo de arte o é. É engraçado ver as centenas de pessoas amontoando-se no Louvre para ver a Monalisa. A grande maioria nem sabe porque ela é uma obra de arte.  Este conceito está enraizado num senso-comum pela maioria. O que todos os especialistas dizem sobre Cremaster é que o filme é uma obra de arte vanguardista, que busca juntar todos os tipos de arte em algo só. De fato, só através do cinema, isso seria possível, com todas as suas possibilidades de edição e representação.

Cremaster 1 explora a dança, a escultura, a música. Parece uma pintura em movimento. É difícil entender porque causa tanto choque ou desaprovação por parte da maioria. Cremaster é simples, é uma pintura pós-moderna em movimento, riquíssima em simbologias. Arrisco dizer que há certo teor literário na obra. Uma vez que ela se apropria de símbolos e representações os quais só podem ser entendidos numa esfera literária.

Portanto, cabe a pergunta: o filme é recomendável? Sim e não. Recomendo-o a quem saiba, de fato, apreciar arte. A quem não vá ao Louvre só para ver a Monalisa e colocar uma foto no Facebook para os amigos verem. Aconselho-o a quem não tem preconceito contra inovações. Ou a quem não tenha preguiça de decodificar símbolos e representações.

Elefante Branco

Há dias em que você acorda pensando: “Meu Deus, o que me espera hoje?” É provável que os dois garotos responsáveis pelo massacre de Columbine retratados no filme Elefante, de Gus Van Sant, tenham acordado pensando o mesmo diversas vezes. O bullying está presente. Todos sabemos que existe. Mas o ignoramos. É realmente é um elefante branco. Ninguém sabe lidar. Pergunto-lhe, leitor. Você já parou para pensar o que levaria uma pessoa a largar tudo na vida? Agir por agir, matar por matar. É como passar o bilhete único na catraca, parar quando o sinal fecha, escovar os dentes acordar. Chega a ser fora de cogitação como matar pessoas pode ser encarado tão friamente quanto às ações descritas acima.

Não que eu os esteja condenando. Longe disso. Condeno a bizarrice da sociedade. Porque, me desculpem. Isso é bizarro. Preconceito, descriminação chegar a tal ponto em que a única solução enxergada é matar alguém(“alguéins”). Deve-se consagrar, portanto, quem teve a iniciativa de registrar isso em forma de um filme. Sabe qual é o caminho para a imortalidade? A arte. Ulisses é imortal até hoje devido aos aedos que contaram suas aventuras. Está imortalizado pela literatura. Assim como este episódio pelo cinema.

A sétima arte tem uma abordagem diferenciada. Todos sabemos. Ao ler sobre o que é, de fato, um ensaio, encontrei a seguinte definição: “Escreve ensaisticamente aquele que compõe experimentando; quem, portanto, vira e revira seu objeto, quem o questiona, apalpa, prova, reflete; quem o ataca de diversos lados e reúne em seu olhar espiritual aquilo que ele vê e põe em palavras.” De George Lukács. Há um diálogo interessante entre essa explicação e a própria forma como o filme foi feito. Bem, o filme se chama Elefante devido a uma parábola budista. Na qual vários cegos tocam um elefante e o descrevem de acordo com a parte que a que tiveram contato. A pata, a cauda, a orelha, a tromba. No entanto, ninguém pode imaginar como é o animal em sua totalidade. No filme, mostra-se a visão de todos os cegos da história. Assim, é possível tirar as próprias conclusões e entender melhor o elefante. Ora, o que é um ensaio, se não isso? Vira, revira, apalpa, ataca de diversos lados e reúne no olhar espiritual na forma de um filme. Ele mostra todos os lados, todas as possibilidades, todas as rotinas daqueles que estavam envolvidos no massacre. Assim como um ensaio tende a esgotar todos os pensamentos sobre certo assunto. Bem como explorar todas as visões sobre o mesmo.

Tenho em mente que essas atitudes, depois de ver tal filme, sejam repudiadas logo em seguida. Mas o problema é que, no fundo, todos sabemos que já praticamos certo tipo de bullying. Seja em maior ou menor escala. E ainda nos justificamos da seguinte maneira: “Ele/ela mereceu.” Talvez até os dois garotos do massacre também já tenham agido preconceituosamente. É normal, somos todos inconsequentes. E, mais uma vez, um texto é acabado com a mesma conclusão: somos todos iguais. Então, sejamos diferentes. Pois nunca se sabe o que lhe espera depois que você sai da cama.

Fabrício Bernardes