Evanescimento

Eu tenho evitado este momento desde sempre. Ao crescer vendo minha vó bordar, sempre soube que a hora em que eu cosesse para dentro, talvez não voltasse para fora. Voltaria-me em um invólucro infinito e nele me perderia para sempre, porque tudo o que faz sentido para dentro não faz sentido para fora e tudo o que aprendi de linguagem, símbolos e significados seria perdido, porque a primeira só serviria para que eu soubesse me comunicar e trapacear as armadilhas que o meu dentro oferece ao longo da longa jornada de conhecimento-próprio. Então nenhum outro desafio externo valeria mais a pena e ficaria, como já dito, sem sentido. Seria como olhar para qualquer objeto do mundo externo e não enxergar nele função, significado e qualquer outra associação imediata que aprendemos a fazer quando nos confrontamos com algo em nossa frente. Eu saberia que me tornaria tão grande que não conheceria minhas fronteiras e teria que coser eternamente caminhos para que não caísse em nenhum abismo do esquecimento e da saudade de mim mesmo. Por isso, teria que, além de coser, correr, porque não suportaria ver tudo o que eu outrora amei ser destruído na medida em que tudo perdesse sentido para mim: o amor pela minha família, pelos meus amigos, pela literatura, pelo conhecimento, pelo meu país e pela humanidade. E, além de coser e correr, teria que corroer todo o caminho que deixasse para trás, a fim de que eu não me lembre das barbaridades que estarei cometendo ao esquecer o que nunca deveria ter esquecido. Em seguida, teria que cozer todos os meus neurônios nesta jornada pois eles de nada me serviriam. Até que meu bordado interno se tornasse tão grande que extrapolasse em um solavanco estrondoso as estruturas físicas do meu peito e chegasse, assim como o espermatozoide perfura a parede do óvulo, ao exterior do mundo, assassinando-me por fora e imortalizando-me por dentro. Um coso, que levaria a um gozo, uma explosão involuntária causada por determinados estímulos, e, em seguida, a uma elevação d’alma, aproximando-se do tosco, do fosco e do roco do suspiro de uma sensação de prazer e desatamento do banal e obediência dos instintos tintos que pintam com tinta cinza minha existência que grisa meu interior e tudo que eu puder coser na busca e ao mesmo tempo fuga do feroz e atroz caminho ao infinito finito que se encontra dentro de mim. E é por isso que tenho evitado o inevitável (des)encontro de mim comigo mesmo. Porque sei que, quando isso acontecer, o mim virará com-igocêntrico e o fim, mas também um consequente começo, será inevitável.

Fabrício Bernardes