Resenha – Relato de um Náufrago

O livro Relato de um Náufrago, como muitos já disseram, é uma história dentro de uma história. O que faltou dizer é que, na verdade, ele é uma história dentro de outra história dentro de outra maior ainda.

Na época em que se passou o episódio, a Colômbia estava sob um regime militar rígido, parecido, inclusive, com o brasileiro. As premissas eram as mesmas: censura e patriotismo. É óbvio que alguém que sobreviva dez dias no mar sem a ajuda de ninguém se tornaria um ídolo da época. É tudo o que um governo com as características já mencionadas quereria. Um membro da tripulação colombiana com garra suficiente para sobreviver a uma prova dessa. Caiu na boca do povo, o governo se apropria. Inúmeras análises poderiam ser feitas sobre esta terceira grande história contextual dentro das outras duas.

Já a segunda história diz respeito a como o naufrágio virou um livro de Gabriel García Márquez. O colombiano trabalhava em um jornal chamado El Espectador, de Bogotá. Luís Alexandre Velasco, o náufrago, procurou o jornal depois de muita fama e dinheiro que havia conquistado através da publicidade. Os funcionários do jornal hesitaram em escutá-lo porque a história já havia sido vinculada e distorcida demasiadamente. Porém, no fim, acabaram escutando-o e sua trama rendeu polêmica, aumento da tiragem do veículo no qual García Márquez trabalhava e o fechamento do próprio. No meio da conversa, o jornalista descobriu que o destróier o qual levava os marinheiros trazia mercadorias contrabandeadas dos Estados Unidos, informação que desestabilizara o governo da época. Como represália, a Ditadura fechou o El Espectador e desmentiu a história divulgada por Velasco.

A primeira trama é aquela que não tem nada a ver com García Márquez, nem a Ditadura dos anos 50 na Colômbia. Luís Alexandre Velasques voltava com sua tripulação da cidade de Mobile, nos Estados Unidos, quando foi surpreendido por um vento forte e caiu no mar porque se segurava nas mercadorias que trazia e foram descartadas pela tripulação. Depois disso, manteve-se em uma balsa por 10 dias. Passou fome, sede, por alucinações, comeu uma gaivota, matou um tubarão, tentou comer o próprio cinto. Quando chegou a uma praia deserta no norte da Colômbia, ainda teve que pedir ajuda a colombianos tão ilhados que nem sabiam do naufrágio. Quando chegou ao hospital em Cartagena das Índias (para onde deveria chegar se não tivesse caído no mar), uma infinidade de pessoas quiseram visitá-lo. O único jornalista de fora do regime que conseguiu falar com ele se vestiu de médico. Velasques se tornou um herói nacional e enriqueceu com a publicidade. Fez comerciais do relógio que não parou de funcionar enquanto estava no mar ou do sapato que tentou rasgar para comer mas não conseguiu. Dois anos após, a Colômbia saiu do sistema ditatorial e Velasques caiu no esquecimento.

A linguagem fluida e a trama fantástica são típicas de Gabriel García Márquez. Parece que esse trabalho caiu como uma luva nas mãos do autor. Um prato cheio. A qualidade da reportagem demonstra isso. Excluindo as que poderiam ser tiradas sobre o relato de Velasques e sua luta pela sobrevivência – que são óbvias -, a conclusão mais importante sobre a obra é que é interessante como criamos histórias a partir de histórias. E como essas podem dar frutos inesperados. Quem diria que García Márquez teria se indisposto com o governo da Colômbia por causa de um náufrago? Ou então, que um naufrágio causaria o fechamento de um jornal? Uma trama interessante, que ultrapassa a superação de um homem, se emoldura por uma realidade de um país latino-americano em plena ditadura e passa pela linguagem realística-fantástica de um dos maiores escritores vivos. Leitura recomendada.

Fabrício Bernardes

Eu entrevistei o irmão do Gabriel García Márquez

Jaime García Márquez é um senhor extremamente simpático, bem-humorado e gentil. Este é realmente um marco na minha “carreira” de jornalismo. A entrevista foi feita em espanhol, porém as anotações em portuñol. Houve algo que não tomei nota e não seria nem necessário. O colombiano de 71 anos disse que meu espanhol estava perfeito e que eu era um ótimo repórter, pois eu o havia feito falar por mais de 50 minutos.

Aliás, não foi nada difícil fazê-lo se expressar, já que ele é bastante falador. Na hora em que ele disse isso, eu lhe respondi que, na verdade, entrevistava-o mais como um fã de seu irmão do que como um jornalista propriamente. Ele respondeu: “deve ser por isso que você foi um bom repórter.” Essa entrevista se encontra no portal onde eu trabalho e, como será divulgada nos outros 22 países dos quais a Universia Brasil faz parte, eu a traduzi para o espanhol. Confira a entrevista na íntegra aqui e sinta – pelo menos um pouco – as mesmas emoções que senti enquanto papeava com Jaime García Márquez, irmão do grande Gabriel García Márquez.

Fabrício Bernardes