Les Nouveaux Riches

Quando me propus a escrever sobre o bairro paulistano Jardim Anália Franco, já sabia que não seria algo fácil. Os orgulhosos moradores do Anália normalmente, quando dizem onde moram, estufam o peito e dizem: “Na ZL… Quer dizer, no Jardim Anália Franco”. É difícil escutar essas duas informações disjuntas. Dizer Anália Franco no final da frase, para os habitantes desta região, é como uma desculpa para morar na Zona Leste.

A palavra que mais se escuta quando pedimos para descreverem a região é “bairro nobre”. E logo em seguida, “os apartamentos aqui passam de um milhão”. A história do Jardim Anália Franco é uma receita de bolo para os outros bairros que um dia sonham em ser nobres. Junte muitas casas de classe média e as derrube para construir vários prédios, construa um parque com restos de Mata Atlântica, faça uma lavagem cerebral nesses moradores e os faça crer que são os novos ricos da cidade, inflacione o bairro o máximo que puder; a cereja do bolo é o Shopping Anália Franco.

Nada melhor, portanto, do que começar com o centro comercial do bairro, a cereja do bolo. Em tons de cinza-pastelado, o shopping mais parece uma murada do que propriamente o abrigo de uma série de lojas. Na sua entrada principal, podemos ver um jardim conservado, grama bem cuidada, do naipe dos campos de futebol que vemos por aí. A calçada que leva à entrada do shopping claramente se destaca comparada à calçada normal da rua. Não é de se espantar que os moradores da extrema Zona Leste (piores inimigos dos habitantes do nosso querido jardim), quando desçam do ônibus, se maravilhem com a calçada, a grama, a arquitetura. É deduzível o pensamento deles: “Isso aqui é ZL mesmo?”. Avançando à entrada, o clima é de ostentação. O cheiro agradável tranquiliza o olfato, acostumado a vários estímulos não muito agradáveis no lado de fora. O nariz relaxa, o cheiro de lavanda entra e você tem uma grande vontade de que sua casa cheirasse igual. A sensação térmica é outra também. O ar-condicionado. Parece que o shopping é o paraíso na Terra. Mulheres bem vestidas com a coleção passada da Zona Sul, o cheiro de lavanda que corteja seu nariz, o clima agradável. A turbulência só ocorre quando chegam os forasteiros de Itaquera. Daí é salve-se quem puder.

Já que os estrangeiros chegaram, é melhor sair do shopping, ele está muito mal frequentado. Um passeio pelo parque do bairro parece uma boa pedida. O único problema é que não sabemos ainda o nome dele. Antes, se chamava Parque Esportivo dos Trabalhadores, depois virou Ceret. No entanto, soa mais luxuoso batizar o parque com o próprio nome do bairro, portanto, o nome foi mudado novamente e agora se chama Parque Anália Franco. Entre os quero-quero e periquitos-ricos que lá podemos encontrar e as longas pistas próprias para caminhada e atletismo, nos sentimos dentro de uma cúpula verde. Dentre as anciãs árvores que embelezam o parque, destacam-se aquelas que deixam cair suas lindas flores rosas claras no chão. Fazendo com que as madames que lá vão se exercitar, sintam-se como entrando no altar do casamento novamente. É puro luxo, digno dos luxuosos e ostentadores moradores do Anália Franco, Les Nouveaux Riches.

Já que o assunto é vanglória, agora me dedico a descrever os famosos prédios milionários. Descobri que nesse bairro, prédios brotam, não são construídos. E a tendência é só aumentar. Sacadas espaçosas, fachadas coloridas e formosas, arquitetura moderna, traços finos e leves. Em frente às fachadas, arvorezinhas cortadas no estilo francês em contraste com o ultraje de ruas esburacadas e mal asfaltadas em um bairro tão nobre. Fora dos prédios, vemos madames alcançando seus carros desengonçadas. É o mesmo pitoresco da alta sociedade paulista no século passado andando com roupas apertadas e quentes em calçadas desniveladas e em um calor infernal. Gozado é ver a mesma fidalga olhando com desprezo a doméstica que passa ao seu lado. Já que quando a madame encontra-se na Zona Sul, se sente acuada igual.

Ah, Les Nouveaux Riches, vocês são luxo, glamour e ostentação. Diria que o último se destaca mais dentre os três. Nenhum outro lugar melhor para abrigar tais figuras que o Jardim Anália Franco. A pedra rara da Zona Leste. Cordialmente, deixo meus sinceros votos que o resto da Zona Leste não os venha incomodar enquanto vocês se divirtam. E vida longa ao Anália Franco! Até quando o metrô chegar lá…

Fabrício Bernardes