Chypre

Não sou muito bom de poemas. O vício da fala sempre esteve impregnado em mim. Por isso, gosto mesmo é de prosear. Mas, às vezes, o poema vem — e eu não posso fazer muita coisa senão escutar minha inspiração. Daí, escrevo em qualquer lugar — na agenda de telefone da minha vó na mesa da cozinha, no bloco de notas do celular, no computador.

Tudo começou em meados de 2012. Estava envolvido num projeto experimental do segundo ano de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero para criar um veículo de comunicação que desse voz à avenida mais bonita de São Paulo, a Paulista. O problema era que, como sempre, não podíamos fazer “jornalismo tradicional”. Tínhamos que inovar. E inovamos. Elaboramos o m900, site de hiperlocalização com pautas e estilos de textos variados, diferente do que se veria num jornal, e, embora hiper local, extremamente universal. Infelizmente, o portal não está mais no ar.

No meio dessa efervescência de ideias, ao caminhar pela Paulista, poemei. O poema que escrevi passou a integrar o editorial do produto que havíamos criado. E se o poema não pode ficar eternizado no site que criamos, que fique eterno por aqui.

Chypre

No mosaico-constelação da Avenida Paulista,
Tudo começa na Consolação,
O prédio que troca I por Y
A praça sem lugar de convivência
O idoso que dorme no banco do Conjunto Nacional
O ciclista que manobra na esquina da Ministro
A mulher que erra o caminho
A moto que quase atropela quando se atravessa na faixa atrasado
O motoboy que se arrisca no trânsito frenético
O alívio de achar um lugar para sentar
O espetáculo da vida de uma cidade subdesenvolvida. Na maior metrópole de um dos países mais injustos do mundo
O coração que bate acelerado de um gigante não mais adormecido
Um espelho da cidade em todas as suas contradições
A melodia vazia do surdo que atravessa a rua
O espetáculo transparente nas pupilas do cego que passa pelas calçadas de relevo da paulista
O executivo que comemora sua promoção
O mendigo que …
A mulher paulistana que desfila a sua beleza e inquietudes
A pressa. O devaneio
O sol, a luz, os carros, os ônibus, as conversas, as pressas, os encontros, os desencontros, o calor, o frio, o cansaço, a harmonia de cima, a desordem de baixo, o xadrez das camisas, o bronzeado da pele, o negro das calças sociais, o verde do farol, o amarelo das blusas, o vermelho do Masp
A ordem na desordem
A instabilidade do ser humano
O ponto de encontro
O celular que atrapalha a caminhada
As histórias no olhar
As transmissões de rotinas
A música nos fones de ouvido
A estagnação do contemporâneo
Uma Paulista sensorial. Uma miscelânea de sensações. Uma guerra dos sentidos para ver quem fala mais alto. Ou toca mais com mais intensidade. Ou escuta mais alto. Ou cheira mais forte. Ou saboreia com mais intensidade. Ou quem pressente com mais certeza. Um combate entre os seis sentidos
E, ironicamente,
Tudo acaba na Paraíso.

Para concluir a história, a minha amiga jornalista Caroline Zilberman teve a ideia de adaptar o poema. Ela produziu um vídeo no qual ninguém menos que os próprios frequentadores da Avenida Paulista recitam a obra. Lindo. Minha grande amiga Luana Martins e meu amigo André Oliveira (também jornalistas, todos da minha sala) ajudaram Caroline na tarefa. E, repito, ficou lindo.

Fabrício Bernardes

Dores de adulto

Sendo bem sincero, nunca quis ganhar muito dinheiro. Essa decisão deve ter sido uma mistura de criação com a minha própria personalidade. A minha geração de classe média é, de longe, a mais bem estruturada da história da minha família. Leia-se: eu fui a um dos melhores colégios do Brasil, a uma das melhores faculdades, me formei com apenas 22 anos e fiz três intercâmbios na vida. É claro que eu fui criado para ser alguém bem-sucedido, mas isso nunca influiu em nenhuma das minhas decisões. Ainda bem que nunca passei por dificuldades financeiras. Por isso, nunca me vi coagido a pensar num futuro em que houvesse dinheiro. Porque sempre assumi que o mesmo aconteceria comigo. “Se minha mãe conseguiu, eu consigo.”

Eu nunca enxerguei a vida pela perspectiva do dinheiro e do sucesso profissional. Sempre me imaginei fazendo algo que gosto e que, eventualmente, o dinheiro viria. Como se um fosse a causa e a consequência do outro. Até eu decidir fazer jornalismo. E começar a comparar meu trabalho com o dos meus amigos que faziam outro curso. Ficou claro que eu ia ganhar bem menos pela mesma quantidade de trabalho — ou mesmo para trabalhar mais. E, então, foi a primeira vez que apareceu o desespero monetário em minha vida.

“Eu vou ganhar mal o resto da minha vida.” Em seguida, eu tentava me acalmar, pensando em alternativas no jornalismo que me dessem dinheiro. “Você pode ser âncora de jornal.” Esqueça.

Essa foi minha primeira dor de adulto. E eu não tinha nem 20 anos quando ela apareceu. Nada fazia sentido. Minha vó trabalhava desde os 13 anos e sempre se orgulhou disso. Minha mãe se encaixa no estilo workaholic e sempre deixou claro para mim que trabalhar é a solução para todos os problemas da vida. Talvez porque ela nunca tenha feito um intercâmbio. Mas eu, com o perdão da palavra, estava cagando para trabalhar e ganhar dinheiro. Mas daí aconteceu e eu fiquei preso na dinâmica do laboro.

Uma mistura de orgulho, alpinismo social e inevitável sentimento de realização quando mostrava meus textos aos meus familiares. Embora estivesse infinitamente mais confortável indo apenas à faculdade, fazendo minha sesta, lendo meus livros e indo ao taekwondo.

Em seguida, as coisas foram se encaixando e eu comecei a trabalhar para valer. Achei um bom emprego e fui efetivado. É bizarro, mas agora sou eu quem edito os textos dos estagiários — eu tento ignorar o fato de que, não faz nem seis meses, eu estava na posição deles. Talvez seja porque eu cresci rápido demais. Talvez seja sorte. Talvez sejam os dois. O importante é que eu consegui (!). Estou trabalhando e, como disse meu primo uma vez, “finalmente você está ganhando salário de gente.”

Assim sendo, outra dor de adulto me apareceu. Ela diz respeito ao quão estúpido eu sou para administrar meu próprio dinheiro. Uma controvérsia, pois trabalho com negócios. Sabe aquelas coisas do tipo, “sabe administrar e dar pitaco no dos outros, mas no seu, é nulo.” É bem isso mesmo. Eu tenho pavor de caixa eletrônico. Não consigo acessar minha conta bancária do celular. Vivo errando minhas senhas e morro de vergonha por isso. Não consegui até hoje tirar todo o dinheiro da minha conta no Santander. Não faço ideia do esquema de salário que tenho — se eles pagam mês vencido, em quanta vezes eles pagam o salário por mês. Já perdi uns quatro cartões de crédito ou débito. Tenho pavor de andar com dinheiro no bolso. Odeio usar moedas, porque elas fazem barulho e eu demoro a contá-las. Tenho um cofre pesadíssimo em casa, cheio delas, como se ainda fosse legal — como aos 12 anos — juntar quilos e quilos de moedas. E tenho a impressão de que, não importa o que eu faça, os bancos estarão sempre me roubando e tirando vantagem de mim. Talvez essa não seja mentira. Enfim, será que não dá para voltar à época em que minha única preocupação monetária era se o dinheiro que minha vó me deu dava para comprar um saquinho de pão de queijo, um sorvete e um chiclete na padaria da esquina? Ah, só para constar, eu sou da época em que um pãozinho francês custava 15 ou 20 centavos.

Ontem, eu estava extremamente chateado comigo mesmo porque não sabia fazer coisa de adulto. Ainda não sei. Mas sentei com minha vó no sofá na hora da novela e ela me deu umas dicas. Acho que agora entendi como funcionam os caimentos dos pagamentos do meu salário durante o mês. Pois é. As dores de adulto chegam — exatamente como chegam as dores nas costas e de cabeça das quais minha mãe sempre reclamou. Acho que ela sempre quis que eu trabalhasse para que a entendesse melhor. Ok, agora eu a entendo. Posso voltar a ser criança de novo?

Fabrício Bernardes

Resenha – Dias de Inferno na Síria

Quem começa a ler o livro “Dias de Inferno na Síria”, do jornalista pernambucano Klester Cavalcanti, se depara com uma introdução confusa. Um flashback caótico anuncia uma série de deslizes jornalísticos e narrativos – inaceitáveis para a experiência e o currículo de prêmios que o autor coleciona – numa trama que deveria falar sobre a guerra na Síria, na cidade de Homs, mas acaba se transformando num relato de heroísmo sobre e contado pelo próprio Klester.

Não podemos dizer, no entanto, que o livro é de todo descartável. Mas, sem dúvida, o propósito da obra foi perdido ao longo das palavras do “sahafi” (jornalista em árabe), como Klester adora ser denonimado. Sobre a parte boa. Em meio a notáveis exageros da complexidade da situação vivida por Klester, revelou-se um povo muito parecido com o brasileiro. A população da síria, conforme o esperado de um árabe, é acolhedora e, em sua maioria, não apoia a guerra e nem as barbáries decorrentes dela. Ao ter mostrado – embora com certa carência de detalhes – os sírios com quem teve contato, Klester trouxe para perto do leitor o drama de quem vive na guerra. Uma das partes mais tocantes da obra é quando Klester é recebido sem cerimônia na reza de grupo entre os prisioneiros de guerra com quem dividiu a cela – sim, ele foi preso em território sírio. Mas, não, ele não foi mal tratado. Com certeza, teria sido muito pior se tivesse sido preso no Brasil.

Klester dividiu a comida, a água mineral, a água do banho e até o beliche com os companheiros de prisão. Entretanto, não estava bom para ele. “Ficaria muito feliz em ir embora da prisão (…) sem ter de fazer outra refeição na bacia de plástico, como se fosse um animal num chiqueiro, disputando a ração com outros bichos”, diz Klester em trecho do livro. Durante muitas vezes em que lia, me pegava pensando no que mais Klester queria. Será que ele não sabe que nem no Brasil ele teria um tratamento tão bom na prisão quanto teve na Síria? Eu cansei de contar as vezes em que Klester foi aconselhado a não ir a Homs. E todas as vezes, ele dizia que estava preparado para morrer. Como se não soubesse o que estava falando. Morrer numa guerra da qual ele não faz parte? Pela busca eterna da melhor reportagem? Chega a ser ingênuo. Depois, quando está na prisão, reclama da água, da comida, da temperatura, do ar – os companheiros de cela de Klester fumavam a toda hora. Não era ele que estava preparado para morrer a qualquer momento?

Falando em preparação, a obra passa a impressão de que Klester não estava preparado para cobrir uma guerra deste porte. Sinceramente, levando em consideração tudo o que está acontecendo na Síria, ele ainda decidiu não aceitar a recomendação de ir a Damasco antes de alcançar Homs do Consulado Sírio, que lhe concedeu o visto de jornalista. A palavra maldita. Toda vez em que Klester dizia que era jornalista, algo de ruim lhe acontecia. E quanto mais eu lia aquilo, menos surpreso eu ficava. Ele teve que esperar até a página 74 para perceber que dizer que era repórter não era uma boa ideia. Eu teria esse insight ao planejar minha viagem à Síria – sabendo que liberdade de expressão não é algo que agrada Bashar Al-assad.

No final das contas, o livro de Klester nos mostra que, por mais imperfeito que esteja seu plano de viagem e de atuação como jornalista, a sorte de se encontrar em um país com pessoas acolhedoras pode fazer a diferença entre estar vivo ou estar morto. Não é que Klester não tenha sofrido na sua tentativa de cobertura. Mas é que a história se concentra demais em como ele teve de se esforçar para superar os problemas por que passou – e que não eram tantos, ele não foi exatamente torturado. Foi preso e apontaram armas para ele. Pergunte quantos jornalistas não passaram por isso, ou pior, só nas manifestações de junho. De qualquer forma, a obra retrata a Síria que acolheu Klester – e que, nem de longe, é aquela que vemos tirar a vida de centenas de pessoas na televisão. Foram a Síria e seu povo que salvaram Klester. Foi uma Síria branda.

Fabrício Bernardes

Nós não amamos à toa

Não quero ver você triste assim, não
Que a minha música possa te levar amor – Criolo (ex-doido)

Nossa configuração como ser humano não é à toa. Este blog é infinito como minha mente, meus sonhos, minhas angústias. O ser humano e sua mente são mágicos e a dor no peito de um amor irrealizado, de um quase romance e de uma bola na trave é infinita. Nossa vida é mágica e transcende política, economia, celebridades, futebol. Eu não tenho escrito jornalismo aqui porque não me satisfaço internamente com quase nada que leio na internet, nos jornais. Como é possível ninguém falar do quão mágico é viver? Como é possível ninguém em jornais ter contestado o fato de não podermos voar, mesmo podendo pensar nisso? Não sonhamos à toa. Se um sonho pode ser tão real quanto um acontecimento rotineiro, ele é a nossa chama interna. Nossa roda-viva. Nossa partícula aceleradora para conquistar o desconhecido.

E como ninguém fala de coincidências? E das transmissões de rotinas na rua? Será que foi coincidência ou destino ter conhecido aquela pessoa? Ter passado por aquela humilhação, ter tido aquele amor, aquela amizade… Nós não vivemos à toa. Será que é coincidência você estar lendo isso aqui?

Eu já afirmei aqui mesmo neste blog que somos ilimitados. Mas precisamos dar um pontapé inicial para sermos infinitos. Uma bola parada é uma bola parada. Nossas mentes são como o mundo real, porém sem gravidade. Nestas condições, um chute numa bola é uma bola andando para sempre. É o sopro da vida. É entender o mito da caverna. É amar sem pudor, perdoar sem rancor e colocar sem pôr.

Nossa alma precisa beber de mágica, do absurdo, do transcendental. Porque somos tudo isso que eu acabei de mencionar. E o cômico é que realmente esses assuntos são inesgotáveis. Não são como pautas de jornais. Que caem como chuva em dia de tormenta. Que precisam ser batalhadas com o seu editor. Nossos sonhos não precisam de nada para acontecer, eles simplesmente acontecem. E isso não é mágico? Por que será que gostamos tanto de Harry Potter? Ainda há tempo de se sentir mais conectado com o mundo. De uma maneira muito mais vigorosa do que simplesmente fazer o mínimo, viver de inércia. Nada deve substituir o que você está vivendo agora. Tudo tem um porquê. Tudo é mágico. Não sonhamos à toa. É a sua vez de chutar a bola e marcar o gol infinito.

O que você está esperando para dar o pontapé inicial? Lembre-se. Não amamos nem sonhamos à toa.

Boa sorte.

Fabrício Bernardes

Coisas da vida

Ao postar um texto antigo meu chamado “3″ no Facebook, me pus a pensar em por que não escrevo mais textos, digamos, com uma dose maior de literatura, lirismo e romantismo. Então, comecei a pensar em quem eu era nessa época, há mais ou menos dois anos. Eu era um jovem estudante de jornalismo que não trabalhava e, embora cursasse tal graduação, não era um exímio amante de lides, objetividade e pirâmide invertida. Era um sonhador, que sonhava em ser um jornalista/escritor, com um nome reservado na literatura brasileira, e viver da publicidade que viria por meio dos acessos em seu blog. Toda hora estava com um livrinho em sua bolsa. Obras como: Madame Bovary, Laços de Família, Dois Irmãos, Amor de Perdição, Lucíola, Antologia poética de Vinícius de Moraes. Como estou falando de mim mesmo, tenho o direito de me classificar como um tipinho de classe média, metido a intelectual, com aversão a miscelâneas e apreciador da “cultura de primeira”. Nada de funk, sertanejo, pagode e samba de boteco. Um chatinho, que acreditava pertencer a uma elite cultural.

E quem sou hoje? O mesmo de cima, porém sem medo de miscelâneas, contradições (essa palavra é perigosa e bem típica da minha pessoa) e influências diversas. Eu sou um jornalista (ESTAGIÁRIO) que assiste a um vídeo de Kuduro na Angola e sonha em passar um ano lá com os nativos, escutando o sotaque deles, aproveitando o carinho e a simpatia dos angolanos e aprendendo a dançar Kuduro. Sou aquele que viaja para Itacaré, assiste aos nativos lutando capoeira e gostaria de ficar por lá aprendendo a luta/dança. Sou aquele que, ainda quer mudar o mundo, mas também quer sossego e qualidade de vida. Sou aquele que ainda admira o Che Guevara e o Lênin, mas entende que eles são humanos e, portanto, também erram. Sou aquele que quer viajar para a França, conhecer Estrasburgo, cheirar as flores da Normandia, morar no sexto arrondissement de Paris, correr no Parque de Luxemburgo aos domingos e fazer dread. Sou aquele que, enquanto procura faculdades argentinas em seu trabalho, descobre a Universidade da Patagônia e gostaria de passar um ano lá estudando e conhecendo essa região magnífica. Sou aquele que quer ter um filho e educá-lo em português e francês e dar a ele um nome bretão. Sou aquele que queria ser professor de literatura no Xingu. Não sou daqueles que critica professor que quer ensinar na rede privada, afinal, entendo que eles estão falando com a elite do País e, quer vocês queiram ou não, o que essas pessoas pensam é essencial para o Brasil. Sou aquele que vive dois mundos extremamente extensos: o de dentro e o de fora. E só porque o de dentro é complexo demais, não me abstenho de tentar fazer a diferença fora também.

Um dia, estávamos discutindo justamente isso na sala de aula: mudar o mundo. Posicionei-me dizendo que estava subindo uma escada e de pouco adianta denunciar se ninguém vai lhe escutar. Por isso, gostaria de construir um nome como jornalista. A professora me respondeu: “você faz jornalismo para ser famoso?”. Não. Se quisesse ser famoso, faria Escola Wolf Maya ou iria para o Ídolos. Não sou tipo aquelas pessoas que riram e concordaram com o que a professora falou, mas trabalham em um jornal que se posicionou a favor do PSDB nas últimas eleições.

Pois é. Acho que é por isso que é difícil escrever textos mais sonhadores, porque o sonho está dentro de mim. Na primeira época, escrevia o que não sabia. Expressava o que não sentia. Escrevia porque queria ser escritor. Isso me cheira a Paulo Coelho. Escreve-se porque se escreve. E ponto final. Se quiser saber mais sobre isso, leia Ostra Feliz não faz Pérola, do Rubem Alves.

Sinceramente, eu prefiro ler Kafka e cantar “Camaro Amarelo” ao lado do meu primo na balada. Eu prefiro ser jornalista e sonhador. Eu prefiro ser escritor para expressar o que eu quiser. Eu prefiro escrever que a Linha Amarela do metrô de São Paulo parou e, ao chegar em casa, escrever um ensaio crítico sobre a situação dos transportes no Brasil. Eu prefiro dançar Kuduro e passear no CERET. Eu prefiro escrever sem culpa e sem cobrança de estar lado a lado com escritores brasileiros. Eu prefiro dar aula de português a crianças flageladas pela guerra no Timor Leste.

Sinceramente, “eu prefiro ser essa metaformose ambulante”.

Fabrício Bernardes

Resenha – Relato de um Náufrago

O livro Relato de um Náufrago, como muitos já disseram, é uma história dentro de uma história. O que faltou dizer é que, na verdade, ele é uma história dentro de outra história dentro de outra maior ainda.

Na época em que se passou o episódio, a Colômbia estava sob um regime militar rígido, parecido, inclusive, com o brasileiro. As premissas eram as mesmas: censura e patriotismo. É óbvio que alguém que sobreviva dez dias no mar sem a ajuda de ninguém se tornaria um ídolo da época. É tudo o que um governo com as características já mencionadas quereria. Um membro da tripulação colombiana com garra suficiente para sobreviver a uma prova dessa. Caiu na boca do povo, o governo se apropria. Inúmeras análises poderiam ser feitas sobre esta terceira grande história contextual dentro das outras duas.

Já a segunda história diz respeito a como o naufrágio virou um livro de Gabriel García Márquez. O colombiano trabalhava em um jornal chamado El Espectador, de Bogotá. Luís Alexandre Velasco, o náufrago, procurou o jornal depois de muita fama e dinheiro que havia conquistado através da publicidade. Os funcionários do jornal hesitaram em escutá-lo porque a história já havia sido vinculada e distorcida demasiadamente. Porém, no fim, acabaram escutando-o e sua trama rendeu polêmica, aumento da tiragem do veículo no qual García Márquez trabalhava e o fechamento do próprio. No meio da conversa, o jornalista descobriu que o destróier o qual levava os marinheiros trazia mercadorias contrabandeadas dos Estados Unidos, informação que desestabilizara o governo da época. Como represália, a Ditadura fechou o El Espectador e desmentiu a história divulgada por Velasco.

A primeira trama é aquela que não tem nada a ver com García Márquez, nem a Ditadura dos anos 50 na Colômbia. Luís Alexandre Velasques voltava com sua tripulação da cidade de Mobile, nos Estados Unidos, quando foi surpreendido por um vento forte e caiu no mar porque se segurava nas mercadorias que trazia e foram descartadas pela tripulação. Depois disso, manteve-se em uma balsa por 10 dias. Passou fome, sede, por alucinações, comeu uma gaivota, matou um tubarão, tentou comer o próprio cinto. Quando chegou a uma praia deserta no norte da Colômbia, ainda teve que pedir ajuda a colombianos tão ilhados que nem sabiam do naufrágio. Quando chegou ao hospital em Cartagena das Índias (para onde deveria chegar se não tivesse caído no mar), uma infinidade de pessoas quiseram visitá-lo. O único jornalista de fora do regime que conseguiu falar com ele se vestiu de médico. Velasques se tornou um herói nacional e enriqueceu com a publicidade. Fez comerciais do relógio que não parou de funcionar enquanto estava no mar ou do sapato que tentou rasgar para comer mas não conseguiu. Dois anos após, a Colômbia saiu do sistema ditatorial e Velasques caiu no esquecimento.

A linguagem fluida e a trama fantástica são típicas de Gabriel García Márquez. Parece que esse trabalho caiu como uma luva nas mãos do autor. Um prato cheio. A qualidade da reportagem demonstra isso. Excluindo as que poderiam ser tiradas sobre o relato de Velasques e sua luta pela sobrevivência – que são óbvias -, a conclusão mais importante sobre a obra é que é interessante como criamos histórias a partir de histórias. E como essas podem dar frutos inesperados. Quem diria que García Márquez teria se indisposto com o governo da Colômbia por causa de um náufrago? Ou então, que um naufrágio causaria o fechamento de um jornal? Uma trama interessante, que ultrapassa a superação de um homem, se emoldura por uma realidade de um país latino-americano em plena ditadura e passa pela linguagem realística-fantástica de um dos maiores escritores vivos. Leitura recomendada.

Fabrício Bernardes

Eu entrevistei o irmão do Gabriel García Márquez

Jaime García Márquez é um senhor extremamente simpático, bem-humorado e gentil. Este é realmente um marco na minha “carreira” de jornalismo. A entrevista foi feita em espanhol, porém as anotações em portuñol. Houve algo que não tomei nota e não seria nem necessário. O colombiano de 71 anos disse que meu espanhol estava perfeito e que eu era um ótimo repórter, pois eu o havia feito falar por mais de 50 minutos.

Aliás, não foi nada difícil fazê-lo se expressar, já que ele é bastante falador. Na hora em que ele disse isso, eu lhe respondi que, na verdade, entrevistava-o mais como um fã de seu irmão do que como um jornalista propriamente. Ele respondeu: “deve ser por isso que você foi um bom repórter.” Essa entrevista se encontra no portal onde eu trabalho e, como será divulgada nos outros 22 países dos quais a Universia Brasil faz parte, eu a traduzi para o espanhol. Confira a entrevista na íntegra aqui e sinta – pelo menos um pouco – as mesmas emoções que senti enquanto papeava com Jaime García Márquez, irmão do grande Gabriel García Márquez.

Fabrício Bernardes

Minhas 10 melhores músicas

Eu resolvi fazer um post diferente desta vez, sem trocadilho. Primeiro, não sou escritor, nem poeta. Muito menos quero passar tal impressão. Sou uma pessoa normal, um jornalista (ok, talvez não tanto) que posta em seu blog coisas que nem sempre aconteceram de fato, mas que transmitem certa emoção. Eu sou um jornalista que não gosta de lide, nem de objetividade, nem de pirâmide invertida e, acima de tudo, prefere escrever em primeira pessoa. Por isso, um post desta forma pode passar tanto ou mais sentimento do que qualquer outro que já escrevi aqui. Sabe por quê? Porque o bom comunicador fala de tudo e cativa sem querer cativar. Tira emoção de uma pedra – às vezes, um bom periodista tira leite de pedra também, mas isso não vem ao caso.

Este post é musical e extremamente pessoal. São as 10 melhores músicas do mundo – de acordo comigo. Por isso, não levem a sério. Eu nunca estudei música, não toco nenhum instrumento musical e minha cantora favorita é a Shakira. Bom, deixemos de enrolações e passemos para o meu terrível gosto musical:

1 – The thin line between love and hate – Iron Maiden

2 – Bohemian Rhapsody – Queen

3 – True love way – Kings of Leon

4 – En tus pupilas – Shakira

5 – The eraser – Thom Yorke

6 – Si tú no vuelves – Miguel Bosé e Shakira

7 – Sozinho – Caetano Veloso

8 – Childhood dreams – Nelly Furtado

9 – Chanson pour Patrick Dewaere – Raphaël

10 – Latinoamérica – Calle 13

Fabrício Bernardes

The grass is green(er)?

Duas árvores, um homem sentado na grama, uma imensidão verde, montanhas e um céu laranja de final da tarde. Esta pessoa desamarra seu sapato que usa para trabalhar, desafrouxa sua gravata, tira seu paletó e desabotoa os dois primeiros botões de sua camisa. Uma hora e quarenta e cinco minutos para chegar de onde estava. Veio direto do trabalho, deve ter levado algumas multas. Mas isso era o que menos lhe importava. Queria mesmo era sair de São Paulo um pouco e respirar ar puro.

Precisava respirar de verdade. Sentir o ar entrando pelo seu nariz, regando suas células com oxigênio e as revigorando. Faz tempo que só tem respirado por respirar. Na verdade, na cidade grande, respira-se para não morrer. Não para sobreviver. Não entendia bem porque esses pensamentos vinham à sua mente. Tudo está indo tão bem. Conseguira o emprego dos sonhos e estava ganhando bem. Sempre quis isso. Sempre achou que a grama era mais verde do outro lado.

Ele nunca havia parado para pensar que, quando se quer algo, necessita-se algo. É o que você quer, é o que você precisa. E, portanto, foi atrás do que queria. Ou precisava, seja lá como for. Foram inúmeras as vezes que ficou sem dormir estudando, ou que teve que trabalhar de final de semana, ou até escutar desaforo de chefe. Mas suportou tudo sem nenhuma reclamação. “É o que eu quero, é o que eu preciso”. Hoje, é colunista de uma revista famosa, tem prestígio, dinheiro, influência e 40 mil seguidores no Twitter.

- É justamente por isso tudo que não há cabimento nessa minha atitude. Isolar-me no interior, na cidade onde nasci. Para quê? Deve ser o estresse de mais um dia de trabalho.

Levantou, pegou seu sapato e foi em direção ao carro. No caminho, encontrou uma flor. Ela estava caída, porém não estava velha. Estava bonita e chamativa. Resolveu pegá-la e trazê-la ao carro. Deixou-a no banco do passageiro e, quando chegou à sua garagem, guardou-a no livro que estava lendo. “O Alquimista”, de Paulo Coelho.

- Eu já li coisa melhor.

Dormiu assim que deitou em sua cama. Acordou com o barulho do despertador e foi trabalhar. Voltou ao seu carro e viu que o livro ainda estava no banco do passageiro.

- Já tive coisa melhor do meu lado.

Chegou à redação, sentou e bebeu café puro. Sabia que aquele seria um dia difícil. Depois de algumas horas trabalhando, sua colega o abordou.

- Você está lendo O Alquimista? Que coincidência! Eu também! E aí, está em que parte?

Em que parte ele estava mesmo?

- Ah, no comecinho ainda…

- Pois então aproveite, porque o começo é a melhor parte. Eu estou amando.

O homem deu-lhe um sorriso de lado e foi almoçar. Pisou na Paulista e andou no sentido Consolação. Parece que seu coração o guiava, não seu cérebro. Ele andava pensando em por que estava andando ou para que direção iria. Parou quando chegou ao parque Trianon. Sentou. Carregava seu livro, a flor que pegara do chão e seu iPod.

“Sim, a grama é verde aqui. Mas não é mais verde do que em Caçapava. Por que demorei tanto para perceber isso? A vontade e a necessidade me cegaram até um certo ponto em que tudo que restou foi meu trabalho”.

A partir deste momento, passou a falar consigo próprio, só que em voz alta. Simplesmente não lhe importava quem passasse ao seu lado.

- Voltar às origens de onde nasci, pegar uma flor do chão, estar lendo O Alquimista, não ter ninguém no banco do passageiro, limitar minha vida social a uma conversa banal sobre um livro que parece uma novela das oito com uma colega de serviço. No que eu me tornei? Eu me tornei aquilo que menos queria me tornar. Estou anestesiado. Não sinto, não choro, não rio, não vivo. Só respiro, para não morrer. Espere, mas se assim for, assim estou porque quis. Eu quis isso? Ou será que os outros quiseram por mim? Ou será que fiz tudo isso porque quis mostrar aos outros? O fato é que fiz pelos outros, mas hoje não tenho ninguém. Sempre coloquei minha carreira acima de tudo. E o que criei para os outros verem, agora só eu vejo. Quer uma prova disto? Olhe o que está tocando no meu iPod:

Oh, I once had something
Something that was so good
Better than the last thing i touched
Then I turned right around on that something
And figured I didn’t like that much

Oh yeah, the grass is green
But can you tell me, can you feel it, I just wanna feel it
Oh yeah, the grass is green
But I think I stained my jeans and now everybody knows that I’ve been in it

- Eu me cansei tanto ao longo do caminho. Buscando algo que estava óbvio. Minha vida inteira critiquei certas pessoas e, agora, sou uma delas. Sempre me orgulhei de princípios os quais não possuo mais. Faz tanto tempo que usei a palavra ideologia que nem lembro mais o que ela significa. A vontade e a consequente necessidade de renome e estabilidade financeira transformaram-me em algo que eu antes repudiava. Pois é, cresci. Finalmente, entendo minha mãe.

O rapaz, que aparentava ter uns 30 anos, pegou suas coisas do chão e levantou. Jogou seu livro no lixo, guardou a flor em seu bolso e pois o fone de ouvido. Caminhou para fora do parque e andou no sentido Brigadeiro. Suas pernas, sábias, buscavam recomeço. E seu cérebro, como sempre o último a saber, esperava ansiosamente para ver onde suas pernas, guiadas pelo seu coração, o levariam. Depois de cinco minutos, seu cérebro se assustou ao perceber onde havia parado. Ele foi levado ao número 900, Avenida Paulista.

Fabrício Bernardes

Cremaster 1: Para além das artes

Matthew Barney nasceu em 1976 em Nova Iorque. Foi lutador e jogador de futebol americano no colégio e estudou medicina em Yale. Depois, se transferiu para o departamento de artes e se formou na área. Seu primeiro trabalho exposto foi em 1991 e atraiu atenção imediata. Três anos depois, Barney começou a trabalhar com o ciclo Cremaster. Produziu primeiro Cremaster 4, evitando uma ordem cronológica e depois voltou ao primeiro da ordem. Mas por que Cremaster? Barney explica: “o músculo cremaster está associado, mas não realmente relacionado com a dimensão das gônadas durante a diferenciação sexual no útero. Uma história poderia ser desenvolvida sobre um sistema sexual que teria a capacidade de se mover à vontade, e dentro dessa fantasia, o músculo cremaster controlaria o que na verdade não controla”.

Peço desculpas pela citação longa de mais no parágrafo acima. Mas ela é necessária. Em um filme como Cremaster 1, tudo o que se considere sobre ele, pode ser aceitável. A obra não tem diálogo e, por mais que haja explicação para tudo no filme, ele é subjetivo. Tudo começa com um campo de futebol em Boise (Idaho), onde Barney passou sua infância, e com dois dirigíveis suspendidos acima do estádio. O interior branco dos dirigíveis lembra o cenário de uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrik. Em cada um, há um grupo de aeromoças tomando conta de uma mesa com uma escultura de forma fálica e rodeada de uvas. Debaixo da mesa, encontra-se uma mulher que abre orifícios na mesa para poder pegar uvas de lá. Quando o faz, organiza-as de uma forma que lembra estruturas sexuais. E bailarinas abaixo, no campo de futebol americano, reproduzem o que foi feito com as uvas em uma escala maior.

Ninguém é obrigado a gostar nem a entender todas os pequenos detalhes da obra. Como já dito, ela é subjetiva. No entanto, qualquer tipo de arte o é. É engraçado ver as centenas de pessoas amontoando-se no Louvre para ver a Monalisa. A grande maioria nem sabe porque ela é uma obra de arte.  Este conceito está enraizado num senso-comum pela maioria. O que todos os especialistas dizem sobre Cremaster é que o filme é uma obra de arte vanguardista, que busca juntar todos os tipos de arte em algo só. De fato, só através do cinema, isso seria possível, com todas as suas possibilidades de edição e representação.

Cremaster 1 explora a dança, a escultura, a música. Parece uma pintura em movimento. É difícil entender porque causa tanto choque ou desaprovação por parte da maioria. Cremaster é simples, é uma pintura pós-moderna em movimento, riquíssima em simbologias. Arrisco dizer que há certo teor literário na obra. Uma vez que ela se apropria de símbolos e representações os quais só podem ser entendidos numa esfera literária.

Portanto, cabe a pergunta: o filme é recomendável? Sim e não. Recomendo-o a quem saiba, de fato, apreciar arte. A quem não vá ao Louvre só para ver a Monalisa e colocar uma foto no Facebook para os amigos verem. Aconselho-o a quem não tem preconceito contra inovações. Ou a quem não tenha preguiça de decodificar símbolos e representações.