Amores Risíveis

I – a rejeição do inexistente

Não existe momento mais solitário do que aquele que antecede a farra
Para te conquistar, basta ser tudo — menos uma boa pessoa
Então, faz frio
Eu vejo lágrimas escorrendo do seu rosto
Você diz que é por causa do frio
Eu digo que nunca tive a intenção de colocar uma aliança no seu dedo
E você diz: quero ser seu, sua cachorra, sua esposa.
Não digo nada
Você diz: era para estarmos juntos, eu te amo.

Eu conheço o risco do amor, mas o amor é sempre risível. É um sem-fim cíclico de expectativa, sedução e desilusão que não leva a lugar nenhum. É como andar em círculos — suas pernas não aguentam mais caminhar. E, mesmo assim, você praticamente não saiu do lugar. O amor é estático, imóvel. Nunca leva a lugar nenhum. É uma felicidade infinita com hora marcada para acabar.

II – a valorização do medíocre

Eu estou no metrô com você
Voltando da festa
Te conto da minha infância
Abro meu coração
Conto como brincava de bonecos e de ser super heróis
Faço o máximo para ser um humano
Mostro minhas fraquezas, minhas inseguranças
Tiro minha armadura
Mas você é uma pedra, bonita, mas uma pedra
Como aquelas que me fascinavam quando eu era criança
Lindas, porém medíocres

Eu juro que já tentei de tudo para acabar com minha solidão. Das maneiras mais diversas possíveis. Mostrei meus aspectos mais lindos, tão bonitos como flores. Mostrei minhas características mais sórdidas. Mostrei meu eu mais egoísta. E já fui a pessoa mais altruísta que alguém já conheceu. Mas percebi que, nessa caminhada, não conheci ninguém diferente. Caricato.

III – a satisfação do grotesco

Estamos voltando para casa
Você está ao meu lado, no carro
Deu tudo certo — conheci todos os seus amigos
Eles me adoraram
Causei boas impressões
Com você e com eles
Minutos depois, xingo você sem parar
E mais tarde não me lembro de tê-lo feito
Estraguei tudo

Já te chamei de senhora, sem te conhecer. Porque você poderia ser qualquer uma, num mundo povoado por bilhões de pessoas. Será que o mistério está em você ou em mim? Se fosse possível obter a resposta correta para o enigma mais intrigante da minha vida. Perguntaria para mim ou para você? O que é a nossa história? É minha ou é sua? É nossa? Afinal, quando dois corações se unem, é certo falar em nós? Gosto de criar histórias nas quais não existe apenas eu. Alguém tem de estar junto. E toda vez que eu me uno, já não sou mais eu mesmo. Então, de quem é a culpa? Quem estragou tudo? Eu, porque fui um bom homem? Ou você, que foi uma pessoa ruim? Eu, porque fui uma pessoa malvada? Ou você, que foi uma mulher bondosa? Uma vez dessas, foi diferente. Eu fui eu mesmo — com qualidades e defeitos. E você foi você mesma. Mais ninguém importava e o mundo era só eu e você. Tinha dado certo.

IV – o êxito dos astros

Há pouquíssimos homens sinceros no mundo
E Deus sabe disso.
Mas a nossa história é um tesouro
Guardado nas estrelas e selado pelos planetas
Um símbolo de esperança desenhado pelas constelações
Duas almas tão complementares
Quanto dois espelhos em face um do outro, refletindo a eternidade
Mas você está longe, tão quanto está a Terra de Júpiter
Eu me desfaço à medida que meus pés se encontram em duas placas tectônicas distintas
Quando você partiu, o céu escureceu para sempre e passou a me iluminar com escuridão
O firmamento chorou e a depressão choveu em mim
Eu vivo esperando o seu retorno
Eu aguardo o êxito dos astros

Agora eu sou uma estrela cadente. Deixo todos comendo poeira e apontando para mim. Sinto um mal-estar na minha Via Láctea crescer de maneira exponencial. Tudo me parece sem gravidade. O amor voltou, afinal, ele nunca tinha ido embora. Eu espero o encontro dos astros. Eu aguardo um desastre. Os amores que não deram certo são absurdos. São como rejeitar o inexistente. São como dar valor ao medíocre. São como se sentir satisfeito com o grotesco. Os amores de verdade são como o alinhamento dos astros. Acontece apenas uma vez na vida. É a eternidade.

“J’attends la réussite des astres/désastre” — Nekfeu

Amores Risíveis (Risibles Amours)

Amores Risíveis (Risibles Amours): é uma canção do rapper francês Nekfeu, baseada no livro homônimo, do escritor Milan Kundera

Fabrício Bernardes

Noites de insônia

Noites de insônia são assustadoras. E elas não acontecem à toa. Normalmente, uma pessoa não consegue dormir quando está muito preocupada. Ou incomodada com algo. Às vezes, está triste. O meu caso deve ser uma mistura de tudo isso. Estou preocupado, sim. Com o trabalho. Mas veja se pode. Até parece que não sei que trabalho vai e vem. Um dia se está aqui, outro dia se está ali. Ainda mais eu, que sou jornalista, profissional acostumado com as reviravoltas da vida de laboro — na qual é normal ver 30, 40 colegas serem despedidos num só dia. Me dá agonia só de repensar nas vezes em que encontrei amigos no banheiro ou no elevador chorando porque haviam sido demitidos sem alguma justificativa plausível, que não fosse simples corte de custos.

Além de preocupado, também estou incomodado. Há tempo sinto que me curvei diante das amarras e obrigações da vida adulta. Juro, se eu me visse com 15 anos na posição em que estou atualmente, com certeza não me reconheceria. Não só não me reconheceria, como teceria uma infinidade de críticas a mim mesmo. Sério, estou há cinco anos sem férias. Ainda sonho com as curvas ladrilhadas de Barcelona. Ou com as paisagens rochosas da Bretanha. Ou com as folhas alaranjadas que caem nos outonos de Montreal. Ainda sonho com vidas diferentes. Em ser alguém diferente a cada dia do ano. Em conhecer pessoas novas. Em carpe diem… Então, você me pergunta. Por que não vai viver essas vidas? Também não sei. Do que tenho medo? De desapontar. Mas desapontar a quem? Minha família. Mas por que eles haveriam de ficar desapontados com as suas novas resoluções de vida? Não sei. Então o que lhe prende aqui? Não sei.

Também estou triste. Estou envelhecendo e a perspectiva de encontrar aquela pessoa que vai me amar pelos meus defeitos e não pelas minhas qualidades está cada vez mais dubitável. Até encontrei pessoas assim. Mas estraguei tudo. O que posso fazer? Não sou perfeito. Mas daí tem aquelas que você pensou que seriam aquelas pessoas. Mas não foram. Malditas! A vontade que tenho é de voltar no tempo e… Não sei. Não tenho coragem de fazer mal a ninguém. Acho que não mudaria nada. Mas como é difícil ser rejeitado. Eu fico imaginando um monte de hipóteses sobre por que fui largado. E nenhuma, nenhuma mesmo, é plausível. Então, transfiro a culpa ao outro. “Eu era bom demais. Ela que saiu perdendo”, penso. Bobagem. No fundo, sei que o problema mesmo era eu. Em seguida, penso que devo me cuidar mais. Prestar mais atenção no que me faz ser uma pessoa boa. Sabe, cuidar mais de mim — ler um bom livro, comer menos chocolate, ir ao taekwondo com mais frequência, assistir a um bom filme. Enfim, criar hábitos mais saudáveis.

À vista disso, penso em como seria bom se conseguisse fazer tudo isso que propus a mim mesmo acima. Talvez só assim eu desencalhasse e conseguisse ser uma pessoa feliz. Então, penso em como seria incrível se tivesse tempo para fazer tudo isso. Mas, claro, não dá tempo! Não dá tempo de fazer tudo aquilo e ainda… Dormir. Pois é, preciso dormir.

A verdade é que as noites de sono escondem muita dor. Noites de sono são anestésicas. A insônia vem quando está tudo tão fora de ordem que o sono não consegue vencer a batalha travada diariamente contra nossas agonias. Quando a insônia reina, a revolução deve ser feita internamente. Logo eu, que sempre fui um entusiasta de revoluções e da justiça social, estou aqui — tentando travar a batalha mais intimista de todos os tempos. Nunca pensei que seria tão egoísta.

Ser sonhador é bonito até a primeira vírgula. É bonito quando sua mãe fala, cheia de orgulho, para os outros que você é uma maquininha de ideias, que nunca está parado e que tem uma sensibilidade fodida. Parece bacana quando o seu psicólogo diz naqueles testes vocacionais: “Fabrício, você é um sonhador, gosta de viajar, de ajudar as pessoas e tem talento para profissões com contato humano.”

Agora, vá tentar encaixar essa caralhada de sonhos na sua vida e veja se consegue realizar, ao menos, 15% deles. Não é bonito querer tudo. E ser “sonhador”, “romântico”, “utópico”, “lírico” é que nem ser palhaço. Só é engraçado quando é o outro. Se for você o palhaço, tem alguma coisa errada. Ou alguma vez na vida, quando lhe chamaram de palhaço, você achou que aquilo era um elogio?

Niilismo, revolta, inquietação, desumanização, cansaço. Eis como começa um dos poemas mais importantes de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, escrito em 1928, chamado Tabacaria.

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

O homem que tinha todos os sonhos do mundo precisou criar 127 heterônimos para “neutralizar” sua “loucura”. Uma das personas de Pessoa era brasileiro(!!!). Será que Pessoa tinha insônias também? Tinha. É só colocar no Google.

Pessoas

Álvaro de Campos: “Quando olho para mim, não me percebo.”

Fabrício Bernardes

Cartas a Idalina

Idalina, hoje é meu aniversário. Estou envelhecendo. Mas que o Senhor não escute minhas reclamações — e que esta carta fique apenas entre mim e você. Afinal, tenho duas mãos perfeitas para escrever o que lhe escrevo. Duas pernas perfeitas para chegar onde quiser e uma saúde que não me tem falhado há tempos. O problema é que, hoje, não consegui fazer mais nada que não fosse dar voltas e voltas pelo corredor da minha casa. Desatei a andar numa caminhada curta de tamanho, porém larga em número de horas. Não sei muito bem. Talvez seja a falta do mar para consolar minha solidão. Eu já não sei o que aconteceu de verdade. Mas tenho certeza de que sinto sua falta. Mesmo sem nem saber direito quem você é hoje em dia. Peço perdão pelas minhas reclamações porque sei que quero tantas coisas que não tenho. Parece que me falta lembrar das coisas que já possuo. Por isso, não me parecem dignas minhas queixas. Enfim, hoje é meu aniversário e cá estou um ano mais próximo da morte. Não tenho mais certeza se estou feliz pela sua existência. Justamente porque ela me transformou no que me transformei esses anos.

Enfim, na verdade, a razão pela qual lhe escrevo é para que você veja como estou lidando melhor com essas datas. Eu não estou passando meu aniversário sozinho — afinal, estou próximo de você, escrevendo-lhe. Idalina, hoje as ruas estão frias e chuvosas. Não chovia faz tempo aqui. O ar estava ficando cada vez mais seco. Por isso, sinto com mais força a fumaça do cigarro que você outrora fumou entrar em meus pulmões. As árvores estão judiadas e, secamente, me disseram durante esta semana inteira: “volte para a sua casa.” E cá estou, escrevendo-lhe. Na verdade, não estou muito seguro de quanto tempo faz que não saio de casa e há quanto tempo chove. A única coisa que tenho segura em minha mente é como você parecia naquela camiseta cinza, com o cabelo encaracolado, me olhando daquela janela. Idalina, agradeço-lhe por existir porque sei que minha existência está condenada à sua. E, quanto mais ficamos longe, mais próximo me sinto da vida e, por consequência, da morte. Eu deveria estar chorando por passar mais um aniversário assim. Mas, justamente porque decidi lutar, cá estou andando sem parar e sem pensar em meu apartamento. Idalina, quando lhe disserem que a vida é curta, aproveite. Quando lhe derem uma rosa, não hesite em cheirá-la. Se algum dia você for presenteada com um livro, não deixe de devorá-lo.

Eu ainda sinto o gosto da última macarronada que cozinhamos. Não posso me recordar muito bem de quando isso aconteceu, mas parece que ainda estou com bafo de alho na boca. Idalina, tudo o que comemos nos faz viver. Tudo o que nos faz viver vem da terra, do cultivo, do preparo, do cuidado. Tudo o que faz bem — e às vezes não tão bem assim — nos é proporcionado pelo Senhor e é por isso que lhe agradeço tanto. Idalina, lembre-se de que, enquanto você respirar, ainda estarei ao seu lado torcendo para que o Senhor e a terra tenham lhe proporcionado o mesmo contingente de felicidade que me foi garantido. Afinal, sou feliz. Não sou? Idalina, lembre-se de é preciso cuidado, carinho e petulância para chegar aos lugares em que mais desejamos estar. Recorde-se de que, no final das contas, nem tudo nos é proporcionado, porém tudo vem da terra. Aproveite o que lhe é dado, pois às vezes será necessário batalhar pelo que desejamos. E nem sempre a luta é válida ou justa. Portanto, escute Chopin, mas lembre-se de que a melodia — por mais maravilhosa que seja — sempre terá um final. Assim como a vida, assim como o nosso amor.

Do seu querido e sonhador,

Hermengardo.

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(Des)encontros: A única coisa que tenho segura em minha mente é como você parecia naquela camiseta cinza, com o cabelo encaracolado, me olhando daquela janela.

Fabrício Bernardes

Chypre

Não sou muito bom de poemas. O vício da fala sempre esteve impregnado em mim. Por isso, gosto mesmo é de prosear. Mas, às vezes, o poema vem — e eu não posso fazer muita coisa senão escutar minha inspiração. Daí, escrevo em qualquer lugar — na agenda de telefone da minha vó na mesa da cozinha, no bloco de notas do celular, no computador.

Tudo começou em meados de 2012. Estava envolvido num projeto experimental do segundo ano de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero para criar um veículo de comunicação que desse voz à avenida mais bonita de São Paulo, a Paulista. O problema era que, como sempre, não podíamos fazer “jornalismo tradicional”. Tínhamos que inovar. E inovamos. Elaboramos o m900, site de hiperlocalização com pautas e estilos de textos variados, diferente do que se veria num jornal, e, embora hiper local, extremamente universal. Infelizmente, o portal não está mais no ar.

No meio dessa efervescência de ideias, ao caminhar pela Paulista, poemei. O poema que escrevi passou a integrar o editorial do produto que havíamos criado. E se o poema não pode ficar eternizado no site que criamos, que fique eterno por aqui.

Chypre

No mosaico-constelação da Avenida Paulista,
Tudo começa na Consolação,
O prédio que troca I por Y
A praça sem lugar de convivência
O idoso que dorme no banco do Conjunto Nacional
O ciclista que manobra na esquina da Ministro
A mulher que erra o caminho
A moto que quase atropela quando se atravessa na faixa atrasado
O motoboy que se arrisca no trânsito frenético
O alívio de achar um lugar para sentar
O espetáculo da vida de uma cidade subdesenvolvida. Na maior metrópole de um dos países mais injustos do mundo
O coração que bate acelerado de um gigante não mais adormecido
Um espelho da cidade em todas as suas contradições
A melodia vazia do surdo que atravessa a rua
O espetáculo transparente nas pupilas do cego que passa pelas calçadas de relevo da paulista
O executivo que comemora sua promoção
O mendigo que …
A mulher paulistana que desfila a sua beleza e inquietudes
A pressa. O devaneio
O sol, a luz, os carros, os ônibus, as conversas, as pressas, os encontros, os desencontros, o calor, o frio, o cansaço, a harmonia de cima, a desordem de baixo, o xadrez das camisas, o bronzeado da pele, o negro das calças sociais, o verde do farol, o amarelo das blusas, o vermelho do Masp
A ordem na desordem
A instabilidade do ser humano
O ponto de encontro
O celular que atrapalha a caminhada
As histórias no olhar
As transmissões de rotinas
A música nos fones de ouvido
A estagnação do contemporâneo
Uma Paulista sensorial. Uma miscelânea de sensações. Uma guerra dos sentidos para ver quem fala mais alto. Ou toca mais com mais intensidade. Ou escuta mais alto. Ou cheira mais forte. Ou saboreia com mais intensidade. Ou quem pressente com mais certeza. Um combate entre os seis sentidos
E, ironicamente,
Tudo acaba na Paraíso.

Para concluir a história, a minha amiga jornalista Caroline Zilberman teve a ideia de adaptar o poema. Ela produziu um vídeo no qual ninguém menos que os próprios frequentadores da Avenida Paulista recitam a obra. Lindo. Minha grande amiga Luana Martins e meu amigo André Oliveira (também jornalistas, todos da minha sala) ajudaram Caroline na tarefa. E, repito, ficou lindo.

Fabrício Bernardes

Valéria Legat final

- Eu finalmente havia encontrado o que procurava. Foi a prova real mais dolorosa que já realizei. Foi como levar 5 socos na boca ou ficar 5 minutos debaixo d’água sem ter como respirar. Tive tonturas, mal consegui sair do quarto para pegar um copo de água. Pensei comigo: Até quando?

Valéria estava visivelmente cansada. Contar tudo isso foi extremamente desgastante, mas ela queria falar mais:

- O pior de tudo é ter que fingir que está tudo bem. Ter que mentir a uma das minhas melhores amigas, a Paula, que conheceu Klaus, dizendo que fora uma pena ele estar namorando. Nada mais do que isso. Porque, afinal, quem se apaixona em duas noites? Quem sou eu, senão uma louca, para ainda lembrar desses momentos de felicidade como se fosse ontem? Por que eu ainda não consegui superar isso? Deve ser porque eu tinha tudo em minhas mãos naqueles momentos. Uma boa amiga, um bom companheiro, num bom lugar, com uns bons drink. Desculpe a piada infame.

A moça, arrasada pelas palavras que proferira, simplesmente abaixou os olhos cansados, como se tivesse perdido uma luta de boxe. Estava sangrando, com hematomas por dentro e, ao seu lado, o juiz estava levantando o braço da solidão, que, invicta, ganhara mais uma batalha contra Valéria. Luís, incomodado pela estranheza do momento, achou válido se pronunciar.

- Valéria, escute… Existem algumas coisas que você precisa entender. Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para dar conselhos, mas me sinto na obrigação de dizer algumas coisas. Como você sabe, eu sou um garoto de programa. Portanto, tenho que me adaptar às mais diversas situações — e o que eu faço não é nada difícil. Quantas vezes você já não foi quem não era uma noite? Por um dia? Por uma semana? Como você pode ter certeza de que esse tal de Klaus era a pessoa certa se você apenas o conheceu por horas? E se ele estava fingindo ser o que não é naquela noite? Eu faço isso durante todo meu “expediente”. Garanto a você que não é tão difícil. Por uma noite, não. Difícil mesmo é esconder quem você é por uma vida. Além disso, seu problema não é o Klaus, nem seu ex-namorado, nem qualquer outro caso. O problema está em você mesmo. Sabe por que você não consegue achar o que quer? Porque você está procurando. Você está vivendo para se apaixonar, você está transformando o amor em um objetivo de vida, você está fazendo planos em cima dele. Consequentemente, você idealiza uma figura perfeita, como um príncipe que vai chegar vestindo branco e montado em um cavalo para lhe buscar. E, sinceramente, em todos os anos que você viveu, você achou esse príncipe? Não. Ele é ideal, só existe no plano das ideias. Você está personalizando e projetando a sua felicidade em um homem que não existe. Por outro lado, e isso eu mesmo pude comprovar, a tendência é encontrar amores (e amizades também) verdadeiras e duradouras no momento em que você estiver no ápice da felicidade e realização consigo própria. Correndo atrás dos seus objetivos e desenvolvendo-se como um ser humano. E então, nesta jornada para se sentir completa e satisfeita com você mesma, você acabará encontrando pessoas com as mesmas aspirações. Valéria, acorde! Você não pode ficar parada na estrada com uma placa de papelão apontada para os carros que passam dizendo “PRECISO DE UM NAMORADO”. Você pararia para dar carona a esta pessoa? Acho que não. Só pessoas vazias como esse Klaus que, provavelmente, no dia seguinte, colocariam-lhe para fora do carro como ele fez. Você precisa percorrer seu próprio caminho. Quem sabe na estrada você não conhece alguém que realmente lhe mereça?

Valéria, que estava com os olhos murchos, agora os tinha arregalados. Ela havia totalmente subestimado Luís, que tinha uma sabedoria completamente diferente da garota. O garoto havia lido os sinais da vida há muito tempo, sem precisar ter estudado nas melhores escolas nem faculdades, como Valéria.

- Nossa, Luís, muito sábio o que você disse. Realmente vou levar para frente. Devo a você meu mais sincero obrigado.

Valéria desligou o gravador, deu um abraço amigável em Luís e tentou, de todas as formas, pagar pelas horas que ele havia ficado com ela escutando sua história. Mas ele se recusou. A jovem pressentiu que, seguindo sua estrada, sem procurar, nem criar expectativas, havia encontrado um grande amigo; exatamente como descrevera Luís. E sob aquela noite fresca e quieta de quarta-feira, pois já havia passado da meia-noite, uma grande amizade foi selada, debaixo da maior proteção que qualquer relacionamento poderia ter: o (bom) acaso.

Fabrício Bernardes

Valéria Legat parte IV

Valéria deu uma pausa na história. Percebeu que havia contado uma noite inteira em dois blocos imensos de fala. Precisou respirar um pouco. Olhou seu gravador, mirou nos olhos de Luís, que escutava tudo com atenção e curiosidade, esperando saber o que aconteceria no final. Embora soubesse que a história não deveria acabar bem devido a todas as circunstâncias na qual Valéria se encontrava.

Era visível o alívio de Valéria ao ter terminado a parte mais emblemática de sua história. Os momentos mais felizes com Klaus foram, justamente, os que mais teve dificuldade para contar e dos que menos se lembrava. A moça não sabia exatamente se era por que estava embriagada naquela noite, ou se a felicidade foi tanta que, com a decepção, ela foi aos poucos se esquecendo do que acontecera; ou se a felicidade, e não seus detalhes mais sórdidos, fosse tudo e apenas o que ficou marcado em seu peito.

- Pois é. Eu cheguei em casa e fui dormir. Esperando, pelo amor de Deus, que ele se manifestasse dando continuidade a tudo aquilo. Quando acordei, vi uma mensagem de Klaus! “Me diverti muito ontem à noite. Obrigado!”. Mais uma vez, pensei: “não foi um poema, nem a coisa mais bonita que já li, tampouco uma declaração de amor. Mas foi a continuidade do que eu queria que continuasse.” Não foi a mais bonita, mas foi a mensagem, o que eu queria e precisava naquele momento. Àquela mensagem, respondi que também tinha me divertido muito e comecei uma conversa. Estava tudo dando certo! Em seguida, ele me perguntou como me achava no Facebook. Respondi-lhe: “procure por Valéria Legat”. E não obtive mais resposta. Achei estranho. Mas ignorei. Segundo o que Klaus havia dito na conversa, ele iria sair com seus amigos. Pensei que não pôde responder porque devia estar fora de casa, algo assim. O problema é que o dia seguinte amanheceu, fui ao trabalho, depois ao francês, e nada de resposta. Mandei-o uma outra mensagem e ele respondeu que estava numa “correria louca”. Hum.

- Ixi, moça, não me está cheirando bem isso – pronunciou-se Luís depois de muito tempo quieto.

- Espere, depois você faz comentários, por favor. Neste domingo esperando a resposta de Klaus, também me dei conta de que havia perdido minha Carteira de Habilitação. Mais uma vez, tentei falar com ele, perguntando-lhe o que ele iria fazer naquele dia — era uma quarta-feira. Ele não respondeu a minha pergunta, mas manifestou-se dizendo que encontrara minha CNH ao fazer uma limpeza no interior de seu carro. Pensei que era a oportunidade para nos resolvermos, ou então marcarmos outro dia para nos vermos. Ou, pelo menos, para poder vê-lo novamente, nem que fosse a última vez. Então, marcamos numa sexta-feira, ao meio-dia, no Conjunto Nacional, onde eu ainda trabalho, para que ele pudesse me devolver o documento. Ele estava, como sempre, lindo. Porém, muito diferente. Não tinha mais cara de jovem e eu estava parecendo uma criança perto dele. Sua altura já não era mais ideal, ele era grande demais. Seu cabelo não estava mais jogado para a frente da sua testa, ele estava posto para trás com gel. Ele estava de terno e era de dia. Parecia que, daquela noite, só ele havia crescido. Eu, pelo contrário, era ainda aquela garota da Sarajevo, da balada, de sábado à noite. Ele, não. Ele disse que encontrara um emprego novo, que era chefe. Enquanto que eu estava (e estou) longe disso. Tentei conversar, ser legal, alongar o momento pedindo-lhe para que fosse à Livraria Cultura comigo, mesmo que não tivesse nada demais para comprar. Ele acatou o pedido, mesmo parecendo um pouco contrariado. Até o momento em que ele disse: “você entra ao meio-dia no trabalho, não é? São 12:10, está na hora de entrar. Você está atrasada”. Então, embora houvesse escutado Lucky Man do The Verve o caminho inteiro do metrô até chegar à Avenida Paulista, aquele não era meu dia de sorte. O encontro com Klaus fora um fiasco e eu estava arrasada. Mesmo assim, quando cheguei em casa depois de um dia maçante de trabalho, resolvi tirar a prova real. Mandei mais uma mensagem para Klaus perguntando-lhe se não podíamos nos ver novamente. Ele contestou: “é que eu estou namorando. Desculpe”. (continua)

Fabrício Bernardes

Valéria Legat parte III

Não era à toa que Valéria estava gravando tudo o que dizia. Só de contar aquilo, já estava se sentindo mal. E sabia que, provavelmente, nunca mais proferiria tais palavras com tamanha riqueza de detalhes. Seu coração batia mais forte, seus músculos se enrijeciam e ela começava a ter ânsia de vômito. Mas estava decidida a ir até o final.

- Depois disso, voltei para casa. Tinha tudo até que dado certo. Dormi. Então, a partir daí, tudo começou a dar realmente certo. Tão certo que eu comecei a desconfiar. Por isso, comecei a enganar eu mesma afirmando ao meu subconsciente que não me importava. Ele me mandou uma mensagem. Foi uma coisa idiota. Totalmente fática, só para iniciar uma conversa. Mas, afinal, eu não precisava de mais do que aquilo. E nem esperava, de qualquer forma, um poema de amor. O fato é que ele veio falar comigo. Perguntei-lhe se ele ia fazer algo naquele dia. Ele disse que não. Sugeri de irmos à balada Sarajevo, na rua Augusta. Ele aceitou. Por precaução, levei minha amiga. Não queria correr o risco de perder uma noite de final de semana caso ele não aparecesse. Entramos praticamente ao mesmo tempo. Avistei-o pegando a comanda no caixa. Cumprimentei-o com um beijo no rosto e um abraço. Em seguida, apresentei-o à minha amiga Paula. Pareceu que eles se entenderam bem logo de primeira. Fiquei aliviada. Embora ela tenha ficado brava no começo dizendo que não havia cabimento ela vir junto comigo para um encontro a dois, Paula se divertiu bastante aquela noite. Assim como eu.

Ao pronunciar essas três palavras finais, Valéria estremeceu em um calafrio e Luís se assustou.

- Está tudo bem?

- Sim. Continuemos. Fomos os três ao bar e pedimos uma cerveja. Minha amiga, Paula, não bebe cerveja, por isso pediu algum destilado do qual não me lembro mais. Eu e Klaus estávamos abraçados e conversando com ela. Foi quando descobri que ele tinha 28 anos. Ele estava, novamente, lindo. Uma camiseta branca, debaixo de uma camisa verde e calça bege. Novamente não me lembro de seus calçados. Seu cabelo, com a franja para frente, contrastava com sua feição de um homem de quase 30 anos e me fazia pensar em como Klaus era atraente e, naquela noite, ele era meu. E eu dele. Além disso, o alemão se mostrou uma pessoa extremamente divertida, estudada e liberal. Requisitos para mim. Estava começando a pensar que era impossível ter encontrado alguém tão formidável em uma saída despretensiosa de sexta-feira. Começamos a beber e ficamos mais felizes ainda. Dançamos música brasileira remixada na pista de cima da Sarajevo, bebemos tequila, cerveja, rimos, sorrimos. Minha sobriedade ia embora, mesmo que estivesse exalando felicidade. Em um momento, fiquei olhando para a face do Klaus e refletindo em como tudo, bizarramente, se encaixava. Eu era francesa, ele era alemão. Eu sou paulistana e ele carioca. Eu estou na segunda faculdade e ele é formado. Ele é mais alto. Depois, me disse que nunca sentia frio e gostava de Florence and the Machine. Depois, ele me abraçava e eu sentia seus braços fortes rodeando-me. Depois, ele estava fazendo até minha amiga se apaixonar por ele (num bom sentido, é claro). Depois, não tinha como negar que o Klaus era perfeito. Nem que somente para mim, somente naquele momento e naquelas circunstâncias. Então, minha memória foi ficando prejudicada pelas tequilas que havíamos tomado e, por isso, só lembro que estávamos no fumódromo e decidimos ir embora. Fomos ao carro dele e lá ficamos por um tempo para nos proteger da chuva enquanto Paula ficava com o moço que conhecera na balada. Aproximadamente uma hora depois, saímos de lá e fomos buscar minha amiga. Chovia. Por isso, fomos de carro, mesmo que ela estivesse a metros de nós. Klaus parou o carro na esquina da Bela Cintra com a Paulista e me esperou lá. Fui correndo e encontrei Paula. Ela estava com um garoto um pouco estranho. Como estava alterada pela bebida, tirei sarro dele e até minha amiga que estava com ele deu risada. Tudo estava engraçado demais. Até que o Klaus chegou, porque eu estava demorando muito. E então, ele também começou a zombar do garoto da Paula e estávamos todos rindo – menos ele, claro. Quinze minutos depois, Klaus se lembrou de que havia deixado seu carro no meio da rua e aberto. Fomos os três rindo de preocupação até o veículo e nada havia acontecido com ele. É a sorte dos bêbados e apaixonados. É também apenas mais uma das várias evidências de que nada poderia estragar aquele momento entre mim, Klaus e Paula. Estávamos com fome. Por isso, fomos comer na Bella Paulista, uma padaria deliciosa na rua Haddock Lobo.  E então, novamente, Klaus foi engraçado e encantador. Comi um lanche imenso porque também estava com fome e queria prolongar ao máximo aquele momento, embora estivesse com um sono voraz. Paula também comeu um grande lanche, se eu não engano, era o Mooca. Quando fomos pagar a conta, Klaus não teve que pagar porque o garçom esquecera de anotar seu café da manhã em sua comanda. Então, ele nos levou de carro até a rua Augusta, onde estava estacionado meu carro. Paula saiu do veículo, para que pudéssemos nos despedir melhor. Não trocamos uma palavra. Foi só um longo beijo de despedida, com muito afeto e um monte de outras frases não ditas, embora ansiasse muito dizê-las: “me ligue, pelo amor de Deus”, “não deixe de falar comigo, pelo amor de Deus”, “vamos nos ver de novo, pelo amor de Deus”, “seja meu namorado, pelo amor de Deus”. E, pelo amor de Deus, deixei o carro sem dizer nada, depois do beijo mais enigmático da minha vida, esperando ter dito tudo o que eu queria ter dito com essa demonstração de afeto realizada pelos meus lábios secos devido a tudo o que tinha bebido naquela noite. Ao entrar no carro, Paula falou o caminho inteiro sobre como gostou do Klaus e como ele era incrivelmente engraçado, culto, bonito, charmoso, encantador. Meu único medo, àquela altura pavor, era de que ele não se manifestasse mais e encarasse aquilo como nada mais do que uma noite divertida, com alguém divertido e, consequentemente, uma recordação divertida, porém efêmera, para sua vida. (continua)

Fabrício Bernardes

Valéria Legat parte II

- Tudo começou no dia 7 de julho de 2012. Eu havia saído com mais duas amigas e fomos a uma balada na rua Augusta. Eu não me lembro muito bem do que fiz antes de entrar na casa noturna e isso nem tem muita importância. O fato é que aquela noite ficou marcada pelo tombo que levei. Na verdade, agora me recordo melhor. Fiquei um pouco no fumódromo e lá encontrei alguns franceses – para (não) variar, porque eu sempre encontro franceses nas saídas que dou, principalmente quando vou à Augusta. Falei bastante a língua de Victor Hugo com os estrangeiros e estava feliz porque tinha sido elogiada por eles pela minha fluência no idioma. Em seguida, desci para a pista de dança e dancei. Dancei como se não houvesse amanhã. Embora tenha parecido que estava lá há apenas meia hora, devo ter pulado e me divertido com meus amigos, no mínimo, durante duas horas. Em um desses movimentos, meu cérebro, animado e despreocupado, exigiu mais das minhas pernas, cansadas e judiadas por uma noite de balada, do que elas podiam aguentar e eu caí. Para ser honesta, levei um grande tombo. Caí com as duas pernas em direções opostas. Entretanto, com a mesma rapidez com que falhei, me recuperei. Levantei muito rapidamente e todos riram e se surpreenderam com a minha rapidez. Devia haver como uma dúzia de pessoas na pista, visto que já eram mais de cinco horas da manhã. Então, levando em consideração a vergonha que tinha passado, o cansaço que estava batendo e o horário, decidi dizer às minhas amigas que estava com vontade de ir embora. Elas também estavam e, por isso, dirigimo-nos à fila do caixa, que deve ter demorado uns trinta minutos. Foi lá onde eu o avistei.

Valéria estava totalmente compenetrada em sua história. Seu medo de não se lembrar direito dos acontecimentos logo se esvairiu ao começar a enumerar os fatos e, em uma marcha moderada, contava suas histórias: em um ritmo nem muito rápido, nem muito devagar, como se tivesse praticado o que estava fazendo há meses. Em um sopetão, ela mesma se interrompeu:

- Você quer beber alguma coisa? Até esqueci de perguntar…

- Pode ser, senhora.

Valéria trouxe dois copos de suco de laranja industrializado. Um para ele e um para ela. E, regado ao gosto agridoce da laranja açucarada dos sucos de caixinha, a história seguiu seu rumo.

- Ele era belo. Sim, muito bonito. Do que se podia ver naquele meio escuro da balada, tratava-se de um rapaz novo, por volta dos 22 anos. Loiro, cabelo liso, jogado para a frente da sua testa, nariz reto, traços europeus, olhos escuros, boca de tamanho mediano, alto, 1 metro e 95 centímetros. Camiseta azul escuro, de manga comprida, calça jeans azul puxado para o preto e tênis que combinavam, porém dos quais não me lembro mais. Olhar de criança, de jovem, despreocupado, “desencanado”, cara de classe média alta, de inconsequente, porém, apaixonante. Belo e solto. Mas ele nem me olhava. E, sinceramente, jamais achei que teria alguma chance com ele. Por isso, dei-lhe algumas três olhadelas, porém bem discretas. Daquelas que ele só perceberia se estivesse realmente compenetrado em prestar atenção em mim. E ele não estava. Por isso, decidi agir como o jovem e também “desencanei”. Saí da balada e, não me recordo bem por quê, uma das minhas amigas começou a falar com um dos amigos dele na saída da casa. E eu, com dor no joelho devido à queda, encostei num carro e fiquei a alguns palmos da roda de conversa na qual minha colega se encontrava. Eis que ele se colocou do meu lado e uma conversa banal aconteceu. Só agora me lembrei que, na queda, também quebrei o feixe do meu relógio. Aliás, não tenho relógio até hoje, desde aquele dia. De qualquer forma, pedi-lhe para tentar consertá-lo. Ele não conseguiu. Ele perguntou como o quebrei. Eu o respondi, rindo, que caíra dançando. Ele riu também. Contei-lhe que sentia dor no joelho direito por causa da queda, logo engatei a história do problema que tivera na articulação e, sem perceber, estávamos numa conversa saudável e produtiva. Afastei-me por alguns instantes dele porque minha amiga havia me chamado para perguntar se eu estava segurando o cigarro dela. Então, o Klaus se aproximou de mim novamente e voltamos a conversar. Contou-me que era alemão. Que nascera lá, mas veio ao Rio de Janeiro quando criança e tinha se mudado há pouco para São Paulo. Foi amor à segunda vista. Pelo menos da minha parte. Depois de  ter contado esses detalhes, ele me olhou nos olhos. Eu o olhei de volta, com as pupilas para cima porque ele era mais alto. Ele sorriu, eu me mantive inerte. Ele me beijou. É claro que não foi o melhor beijo do mundo, nem o mais apaixonante, nem o mais romântico, nem nada. Mas, naquele momento, naquele instante, naquele dia, naquele final de noite, era o beijo. O único. E eu o aproveitei. Segurei sua mão e, com este ato, mostrei-lhe muito de quem sou. Seu amigo queria ir embora e o estava chamando. Ele me disse: “não posso mais ficar, mas dê-me seu número do celular”. Ele anotou. Despediu-se com um último beijo em meus lábios e se foi.

- Acabou, moça?

- Lógico que não. Só se eu fosse louca para chamar-lhe aqui e não ter mais nada para contar do que isso.

Luís, toda vez que escuta a palavra “louca”, refletia sobre a situação e a atitude de Valéria, no mínimo controversa, de fazer tudo o que está fazendo e ainda ter a audácia de dizer que não é louca. Mas, como bem sabe, por meio dos incontáveis clientes que já teve, que loucura é algo comum em sua profissão, espantou esses pensamentos da cabeça para prestar atenção na jovem, pois ela já tinha voltado a contar sua história. (continua)

Fabrício Bernardes

Valéria Legat parte I

Ela havia pensado em todas as formas possíveis para eternizar aquele momento que, ao mesmo tempo que a assombrava, deixava-a mais viva. Embora já fizesse alguns bons meses desde que aquilo tinha acontecido, nunca poderia esquecê-lo. Mesmo sabendo que não poderia olvidá-lo, decidiu transcrevê-lo. Porém, de uma maneira bem inusitada. Ela queria contar para alguém como tudo aconteceu. Sem nenhuma ressalva, mudança ou omissões. Mas, para tal, teria que proferi-lo a alguém que não conhecesse. Que nunca tivesse visto em sua vida. Também para, após a história, poder perguntar: “eu fiz algo de errado?”, “eu sou louca?”; e receber respostas honestas.

Ela sabia que estava tão dominada por aquele momento que estava disposta a ir até as últimas consequências por ele. Bem como até fazer algumas loucuras para eternizá-lo. Foi quando, numa terça-feira cinza de São Paulo, saiu do seu trabalho por volta das nove e meia da noite e dirigiu-se à rua Bela Cintra. Ela não era, de forma alguma, uma mulher feia. Muito pelo contrário, seus cabelos dourados e semi-encaracolados, seus olhos esverdeados, sua feição exótica e seu quadril avantajado denunciavam uma bela mulher. Entretanto, foram tantas decepções e histórias como esta que a fé em sua própria beleza falhava, embora, em todo o lugar que fosse, sabia que era desejada por pelo menos um no recinto. Sem contar as cantadas de pedreiros, motoqueiros, entregadores e atendentes que recebia frequentemente.

Naquela hora da noite, a Bela Cintra fica tomada por michês. E era exatamente isso que estava procurando. Sabia que, ao chegar lá, seria abordada de maneira diferente e que, inevitavelmente, chamaria atenção. Afinal das contas, era uma madame. Jovem e “bonita”. Pois bem, chegou lá e não teve que esperar 30 segundos para um garoto andar em sua direção e abordá-la.

- Oi gata. Tudo bem?

- Eu quero fazer um programa com você. Mas comigo será algo diferente. Você aceita passar a noite comigo?

- Lógico, moça, o tempo que você precisar – respondeu Luís com um sorriso pícaro.

- Ótimo. Vamos ao metrô então.

Eles demoraram 15 minutos para chegar à casa de Valéria. A moça, de 24 anos, estava formada há dois anos e já podia pagar por uma kitnet ao lado da estação de metrô Alto do Ipiranga.

- Tire seus sapatos, fique à vontade.

- Claro, patroa, nunca estive melhor.

- Mas não se sinta tão à vontade assim. Você vai me prestar um serviço e será pago por hora, assim como funciona com seus outros clientes. Mas não vamos exatamente fazer sexo. Na verdade, nada de exatamente. Não vamos fazer sexo. E ponto.

O garoto, que também tinha 24 anos, achou estranho, mas pensou consigo mesmo que ia ser pago de qualquer maneira. Então aquela bizarrice estava valendo. Por isso, fez que “sim” com a cabeça.

- Você já ouviu falar de Ulisses, o grande guerreiro grego?

- Não, senhora. Eu não estou aqui pra aprender história, linda.

- Eu sei. Então, suas histórias são grandiosas. Ele foi um guerreiro astuto, corajoso, inteligente e belo. Mas você já parou para pensar em como eu fiquei sabendo disso? Suas histórias foram imortalizadas porque alguém decidiu contá-las. Os aedos imortalizaram Ulisses. Tudo o que está escrito e guardado, mesmo que não tenha fama, é praticamente imortal. Não espero de forma alguma ter fama a partir da história que vou lhe contar. Mas quero registrá-la. E, em seguida, quero a sua opinião. A visão de um terceiro. Alguém que não faz ideia de quem eu seja.

- Está bem, moça. Vamos logo com essa loucura – disse rindo.

- Não sou louca! E não gosto quando falam assim comigo.

Um silêncio pairou no ar. Luís desejou que ela estivesse brincando, mas não estava. Então olhou-a com uma feição de interrogação, o que fez com que Valéria assumisse as rédeas e começasse a contar sua história, que deveria se eternizar naqueles momentos futuros. Para isso, pegou um gravador e apertou o “play”. Estava disposta a falar o que deixara guardado em seu peito por meses com toda a emoção à qual a sua trama tinha direito. Tinha a consciência de que deixaria sair tudo, exatamente tudo o que guardara. Por isso, gravaria suas palavras, para nunca mais ter de repeti-las.

- Tudo começou no dia 7 de julho de 2012…(continua)

Fabrício Bernardes

Evanescimento

Eu tenho evitado este momento desde sempre. Ao crescer vendo minha vó bordar, sempre soube que a hora em que eu cosesse para dentro, talvez não voltasse para fora. Voltaria-me em um invólucro infinito e nele me perderia para sempre, porque tudo o que faz sentido para dentro não faz sentido para fora e tudo o que aprendi de linguagem, símbolos e significados seria perdido, porque a primeira só serviria para que eu soubesse me comunicar e trapacear as armadilhas que o meu dentro oferece ao longo da longa jornada de conhecimento-próprio. Então nenhum outro desafio externo valeria mais a pena e ficaria, como já dito, sem sentido. Seria como olhar para qualquer objeto do mundo externo e não enxergar nele função, significado e qualquer outra associação imediata que aprendemos a fazer quando nos confrontamos com algo em nossa frente. Eu saberia que me tornaria tão grande que não conheceria minhas fronteiras e teria que coser eternamente caminhos para que não caísse em nenhum abismo do esquecimento e da saudade de mim mesmo. Por isso, teria que, além de coser, correr, porque não suportaria ver tudo o que eu outrora amei ser destruído na medida em que tudo perdesse sentido para mim: o amor pela minha família, pelos meus amigos, pela literatura, pelo conhecimento, pelo meu país e pela humanidade. E, além de coser e correr, teria que corroer todo o caminho que deixasse para trás, a fim de que eu não me lembre das barbaridades que estarei cometendo ao esquecer o que nunca deveria ter esquecido. Em seguida, teria que cozer todos os meus neurônios nesta jornada pois eles de nada me serviriam. Até que meu bordado interno se tornasse tão grande que extrapolasse em um solavanco estrondoso as estruturas físicas do meu peito e chegasse, assim como o espermatozoide perfura a parede do óvulo, ao exterior do mundo, assassinando-me por fora e imortalizando-me por dentro. Um coso, que levaria a um gozo, uma explosão involuntária causada por determinados estímulos, e, em seguida, a uma elevação d’alma, aproximando-se do tosco, do fosco e do roco do suspiro de uma sensação de prazer e desatamento do banal e obediência dos instintos tintos que pintam com tinta cinza minha existência que grisa meu interior e tudo que eu puder coser na busca e ao mesmo tempo fuga do feroz e atroz caminho ao infinito finito que se encontra dentro de mim. E é por isso que tenho evitado o inevitável (des)encontro de mim comigo mesmo. Porque sei que, quando isso acontecer, o mim virará com-igocêntrico e o fim, mas também um consequente começo, será inevitável.

Fabrício Bernardes