Figuras de linguagem

É praticamente um consenso entre os cientistas que a memorização — isto é, a capacidade de reter informações a longo prazo — está ligada a valores sentimentais que damos a certo assunto. É por isso que gostar de alguma matéria é importante. Porque você já está inclinado a ter uma conexão positiva com o assunto e, por consequência, a ter mais facilidade de lembrar o que você viu ou estudou. Eu, por exemplo, adorava português.

Porém, é verdade que em algumas situações não interessa se você gosta do tópico ou não. A ver, na matemática, aonde você chega na escola sem saber o Teorema de Pitágoras ou a fórmula de Bhaskara? Neste caso, o valor sentimental era expressado na forma de medo, porque sabia que minha mãe ia me matar se eu repetisse de ano. Mas um ótimo exemplo de como gostar de uma matéria ajuda a reter informações que não eram, de longe, essenciais para passar de ano é o fato de eu lembrar de um monte de figuras de linguagem até hoje. E não, não se estuda ou se revisa isso na faculdade de Jornalismo. Pelo menos não na minha.

Metonímia, zeugma, catacrese, paronomásia, prosopopeia, quiasmo, anacoluto, entre muitas outras. Parecem feitiços do Harry Potter. O fato é que, embora não seja essencial saber o que é um zeugma, as figuras de linguagem são usadas quase que de maneira inconsciente por todos nós no dia a dia. Às vezes, soltamos umas hipérboles por aí e nem nos damos conta. Pois é, enquanto os grandes escritores escolhem com o maior zelo que malabarismo vão fazer com as palavras em seu texto, a maioria da população está na rua arrasando no português criativo.

Quer ver? O que você responde se alguém pergunta se você já leu Paulo Coelho? Embora eu espere que você diga não, é fato que você entendeu exatamente a questão. Mas, reflitamos, é possível ler uma pessoa? Não. Na verdade, o que o indivíduo queria saber era se você já leu algum livro do Paulo Coelho. Sem querer, a pessoa usou uma metonímia e você entendeu na hora.  

Na minha opinião, elas são úteis para entender a lógica da nossa língua. Dizem que os portugueses são muito literais e nós, por outro lado, nada racionais em relação à nossa língua. Esse contraste cria uma série de situações cômicas quando vamos a Portugal. Eis algumas.

— Moço, tem uma mesa para a gente sentar?

— Temos cadeiras para vocês sentarem, senhor. Na mesa, colocamos os pratos.

Quando um garçom em Lisboa me respondeu isso, eu achei hilário. De fato, não sentamos na mesa. Será que ele pensou mesmo que nós queríamos sentar na mesa? Enfim, no mesmo restaurante, pedi o seguinte para o garçom:

— Você pode trazer um café para a gente?

E, embora estivéssemos em quatro, ele trouxe apenas um café.

— Oras, pediste um café!

Essa falha na comunicação acontece porque o brasileiro e o português utilizam lógicas diferentes ao atribuir sentido às palavras. As figuras de linguagem são fascinantes porque dizem muito sobre a língua que falamos.

Por isso, sempre gostei de português. Mas tinha problemas sérios com uma matéria específica do português: a redação. Isso fazia com que minhas notas quase nunca passassem dos 6,75 por melhor que eu fosse em gramática e literatura. Isso tudo é uma grande ironia – olha aí, outra figura de linguagem dando o ar da graça – porque, mais tarde, escolheria estudar Jornalismo e viver de escrever.

A um tempo atrás, na escola, fui inventar um neologismo, outra figura de linguagem. Neologismo é o fenômeno linguístico que consiste em criar novas palavras ou atribuir um novo sentido a uma já utilizada. Neologizar. Pronto — criei um em dois segundos. Viu que fácil? Mas quem era realmente exímio em neologismo — e, claro, em escrever de maneira geral — era Guimarães Rosa. Esse cara aí era simplesmente fora da curva. Cada frase que ele escrevia dá no mínimo meia hora de explicação numa aula de literatura. Enfim, gênio. Ele criou neologismos lindos que marcaram eternamente nossa língua. Quer um exemplo? Ele é o dono da palavra estória. Que, pelo visto, segundo o corretor do celular do qual estou escrevendo, já é uma palavra incorporada ao português formal.

Voltando às aulas de redação da sétima série, numa das provas, quis inventar um neologismo e criei a linda palavra “bostosa”. A intenção era conceber uma palavra que juntava bolacha e gostosa. Claro que, na hora, não imaginei que a professora acharia que eu estava comendo uma bosta gostosa. Eu acho que eu teria dado zero para mim mesmo. 

Mas é isso, as figuras de linguagem estão aí para humanizar nossa língua, para deixá-la excitante, vigorosa e, por que não, render anedotas engraçadas. As pessoas gostam delas. Elas são uma fuga. Elas são nosso jeito de deixar a língua portuguesa, tão rígida e tão cheia de regras, mais amável, mais próxima da nossa realidade.

Por exemplo, a palavra tóxico. Faz três semanas que não paro de ouvir essa palavra. E não a escutava desde as minhas aulas de química no colegial. É claro que, a rigor, uma pessoa não pode ser tóxica. Pois ela não tem a capacidade de envenenar alguém por meio da sua ingestão ou do seu cheiro. Afinal, você não vai comer uma pessoa e se envenenar. Vixe. Essa frase ficou estranha. Vamos seguir para evitar duplos sentidos. 

Enfim, a palavra tóxica virou moda agora para designar pessoas nocivas à nossa felicidade e inteligência emocional. O embuste, que virou “boy” lixo, agora é o “boy” tóxico. E está aí, na boca de todo jovem sentado no bar contando da(o) ex, nos diários das(os) garotas(os) do ensino fundamental e nos conselhos amorosos que sua(seu) melhor amiga(o) sempre dá. Logo aparece em novela, em livros… aqui já apareceu. 

É engraçada essa intersecção entre as gírias, as figuras de linguagem e o padrão da língua. A figura de linguagem é o que os gramáticos convencionaram que se pode fazer com a língua e ainda estar no território da formalidade. A gíria é o famoso foda-se. Vou usar as palavras do jeito que eu quiser. Elas são proibidas no português formal. A rigor, eu não poderia escrever “legal” aqui. Mas foda-se, não é? Professor Pasquale que me prenda. Por mais condenadas que sejam pelos acadêmicos, as gírias tendem a ser incorporadas à nossa fala e escrita porque muitas podem ser interpretadas como figuras de linguagem. E eventualmente serão aceitas como uma palavra qualquer. Então para que esse preconceito todo com gírias? Não sei. Elas são tão legais. Assim como as figuras de linguagem.

FABRÍCIO BERNARDES

De noite, com a minha idade

Neste momento, me sinto como alguém que ainda tem idade para chorar. Não tenho?

Porque o que você disse, o que você escreveu, o que você fez pode fazer mal. Mas o que você deixou de fazer pode matar severamente.

Sou um grande falso quando finjo alegria. Quando finjo simpatia. Quando finjo um sorriso.

Ver você indo embora no aeroporto sem saber se ia voltar algum dia e ter de fingir que estava tudo bem… fui um grande mentiroso.

A verdade é que eu cansei das minhas muralhas. Elas protegem mas também demandam uma manutenção absurda, às custas da minha alma. Além do mais, basta você me atacar com sua retórica sofista para me destruir completamente.

Com o argumento de que ninguém pode estar 100% correto — nem eu, nem você.

Então, eu nunca vou ganhar.

Então, me resta chorar.

Chorar se decidir te perdoar. Chorar se decidir não te perdoar. Porque minha mãe me sugeriu que eu devo perdoar as pessoas. Mas seria justo perdoar da boca para fora? Seria justo pensar que você precisa de perdão por deixar de me amar?

Um dia, você me trancou no quarto e me convenceu de que estava cuidando de mim. Nesse par de horas pensei no quanto te odiava por deixar eu te amar tanto.

Mas, aos poucos, este amor que você outrora sentiu por mim foi se esvaindo como um perfume na pele depois de um tempo. Até o momento em que você não sentia mais nenhum aroma. Até que o que restasse fosse apenas uma memória olfativa.

Você, por outro lado, deixou uma tatuagem em mim. Algo permanente. Que demora décadas e décadas para perder sequer um pouco de brilho. Também algo que dói muito para retirar da pele. Então, seria justo comigo mesmo te perdoar?

Você diz que tem que viver sua vida e eu até acredito que o esteja fazendo. Mas nada vai tirar da minha cabeça o pensamento de que, juntos, poderíamos conquistar o mundo. Eu tenho certeza disso porque, aos 16 anos, passei na frente do seu liceu e tirei uma foto na frente dele sem nem imaginar que você existia. Porque, quando estava lá, uns locais vieram falar comigo no elevador, sendo extremamente simpáticos, mas eu praticamente não entendi nada. Porque eu sabia que estava ligado àquele lugar por uma força inexplicável. Porque, mesmo após mais de 10 anos, eu ainda me lembro de detalhes como o cheiro das plantas do parque que visitei. O que a moça do McDonald’s disse para mim quando falei com ela em inglês. A cor do cinza que pintava o céu naqueles dias. O que eu respondi, exatamente, para aqueles locais no elevador. E assim vai. Tu comprends ce que je te dis ?

E se não está certo para mim, não é possível que esteja 100% certo para você também. Não foi isso que você me disse sobre ter razão? Por acaso você ficou cego? Perdeu sua razão em relação às suas emoções? Ninguém vai amar você tão brutalmente. Tu seras toujours mon champion.

Um dia, quero ser um campeão como você. Quero ter alguém que me dê de tudo — amor, alegria, tristeza e verdade. Mas alguém que também me olhe como o campeão que eu via em você. Porque toda esta alegria perdida, todo este tesão ignorado, toda esta saudade enterrada; tudo isso que você me causou, não há de ser eterno. Correto?

No prefácio do breu da noite, no frio do inverno, gritando mentalmente para que todos os anjos possam me escutar, involucrado pelo meu pesar, me resta chorar. Como uma criança, como um adolescente, como um adulto. Tanto faz. Chorar, em qualquer idade na qual eu me encontre.

Complimenti per la vita da campione. Insulti per l’errore di un rigore.

Tiziano Ferro

FABRÍCIO BERNARDES

Amores Risíveis

I – a rejeição do inexistente

Não existe momento mais solitário do que aquele que antecede a farra
Para te conquistar, basta ser tudo — menos uma boa pessoa
Então, faz frio
Eu vejo lágrimas escorrendo do seu rosto
Você diz que é por causa do frio
Eu digo que nunca tive a intenção de colocar uma aliança no seu dedo
E você diz: quero ser seu, sua cachorra, sua esposa.
Não digo nada
Você diz: era para estarmos juntos, eu te amo.

Eu conheço o risco do amor, mas o amor é sempre risível. É um sem-fim cíclico de expectativa, sedução e desilusão que não leva a lugar nenhum. É como andar em círculos — suas pernas não aguentam mais caminhar. E, mesmo assim, você praticamente não saiu do lugar. O amor é estático, imóvel. Nunca leva a lugar nenhum. É uma felicidade infinita com hora marcada para acabar.

II – a valorização do medíocre

Eu estou no metrô com você
Voltando da festa
Te conto da minha infância
Abro meu coração
Conto como brincava de bonecos e de ser super heróis
Faço o máximo para ser um humano
Mostro minhas fraquezas, minhas inseguranças
Tiro minha armadura
Mas você é uma pedra, bonita, mas uma pedra
Como aquelas que me fascinavam quando eu era criança
Lindas, porém medíocres

Eu juro que já tentei de tudo para acabar com minha solidão. Das maneiras mais diversas possíveis. Mostrei meus aspectos mais lindos, tão bonitos como flores. Mostrei minhas características mais sórdidas. Mostrei meu eu mais egoísta. E já fui a pessoa mais altruísta que alguém já conheceu. Mas percebi que, nessa caminhada, não conheci ninguém diferente. Caricato.

III – a satisfação do grotesco

Estamos voltando para casa
Você está ao meu lado, no carro
Deu tudo certo — conheci todos os seus amigos
Eles me adoraram
Causei boas impressões
Com você e com eles
Minutos depois, xingo você sem parar
E mais tarde não me lembro de tê-lo feito
Estraguei tudo

Já te chamei de senhora, sem te conhecer. Porque você poderia ser qualquer uma, num mundo povoado por bilhões de pessoas. Será que o mistério está em você ou em mim? Se fosse possível obter a resposta correta para o enigma mais intrigante da minha vida. Perguntaria para mim ou para você? O que é a nossa história? É minha ou é sua? É nossa? Afinal, quando dois corações se unem, é certo falar em nós? Gosto de criar histórias nas quais não existe apenas eu. Alguém tem de estar junto. E toda vez que eu me uno, já não sou mais eu mesmo. Então, de quem é a culpa? Quem estragou tudo? Eu, porque fui um bom homem? Ou você, que foi uma pessoa ruim? Eu, porque fui uma pessoa malvada? Ou você, que foi uma mulher bondosa? Uma vez dessas, foi diferente. Eu fui eu mesmo — com qualidades e defeitos. E você foi você mesma. Mais ninguém importava e o mundo era só eu e você. Tinha dado certo.

IV – o êxito dos astros

Há pouquíssimos homens sinceros no mundo
E Deus sabe disso.
Mas a nossa história é um tesouro
Guardado nas estrelas e selado pelos planetas
Um símbolo de esperança desenhado pelas constelações
Duas almas tão complementares
Quanto dois espelhos em face um do outro, refletindo a eternidade
Mas você está longe, tão quanto está a Terra de Júpiter
Eu me desfaço à medida que meus pés se encontram em duas placas tectônicas distintas
Quando você partiu, o céu escureceu para sempre e passou a me iluminar com escuridão
O firmamento chorou e a depressão choveu em mim
Eu vivo esperando o seu retorno
Eu aguardo o êxito dos astros

Agora eu sou uma estrela cadente. Deixo todos comendo poeira e apontando para mim. Sinto um mal-estar na minha Via Láctea crescer de maneira exponencial. Tudo me parece sem gravidade. O amor voltou, afinal, ele nunca tinha ido embora. Eu espero o encontro dos astros. Eu aguardo um desastre. Os amores que não deram certo são absurdos. São como rejeitar o inexistente. São como dar valor ao medíocre. São como se sentir satisfeito com o grotesco. Os amores de verdade são como o alinhamento dos astros. Acontece apenas uma vez na vida. É a eternidade.

“J’attends la réussite des astres/désastre” — Nekfeu

Amores Risíveis (Risibles Amours)

Amores Risíveis (Risibles Amours): é uma canção do rapper francês Nekfeu, baseada no livro homônimo, do escritor Milan Kundera

Fabrício Bernardes

Noites de insônia

Noites de insônia são assustadoras. E elas não acontecem à toa. Normalmente, uma pessoa não consegue dormir quando está muito preocupada. Ou incomodada com algo. Às vezes, está triste. O meu caso deve ser uma mistura de tudo isso. Estou preocupado, sim. Com o trabalho. Mas veja se pode. Até parece que não sei que trabalho vai e vem. Um dia se está aqui, outro dia se está ali. Ainda mais eu, que sou jornalista, profissional acostumado com as reviravoltas da vida de laboro — na qual é normal ver 30, 40 colegas serem despedidos num só dia. Me dá agonia só de repensar nas vezes em que encontrei amigos no banheiro ou no elevador chorando porque haviam sido demitidos sem alguma justificativa plausível, que não fosse simples corte de custos.

Além de preocupado, também estou incomodado. Há tempo sinto que me curvei diante das amarras e obrigações da vida adulta. Juro, se eu me visse com 15 anos na posição em que estou atualmente, com certeza não me reconheceria. Não só não me reconheceria, como teceria uma infinidade de críticas a mim mesmo. Sério, estou há cinco anos sem férias. Ainda sonho com as curvas ladrilhadas de Barcelona. Ou com as paisagens rochosas da Bretanha. Ou com as folhas alaranjadas que caem nos outonos de Montreal. Ainda sonho com vidas diferentes. Em ser alguém diferente a cada dia do ano. Em conhecer pessoas novas. Em carpe diem… Então, você me pergunta. Por que não vai viver essas vidas? Também não sei. Do que tenho medo? De desapontar. Mas desapontar a quem? Minha família. Mas por que eles haveriam de ficar desapontados com as suas novas resoluções de vida? Não sei. Então o que lhe prende aqui? Não sei.

Também estou triste. Estou envelhecendo e a perspectiva de encontrar aquela pessoa que vai me amar pelos meus defeitos e não pelas minhas qualidades está cada vez mais dubitável. Até encontrei pessoas assim. Mas estraguei tudo. O que posso fazer? Não sou perfeito. Mas daí tem aquelas que você pensou que seriam aquelas pessoas. Mas não foram. Malditas! A vontade que tenho é de voltar no tempo e… Não sei. Não tenho coragem de fazer mal a ninguém. Acho que não mudaria nada. Mas como é difícil ser rejeitado. Eu fico imaginando um monte de hipóteses sobre por que fui largado. E nenhuma, nenhuma mesmo, é plausível. Então, transfiro a culpa ao outro. “Eu era bom demais. Ela que saiu perdendo”, penso. Bobagem. No fundo, sei que o problema mesmo era eu. Em seguida, penso que devo me cuidar mais. Prestar mais atenção no que me faz ser uma pessoa boa. Sabe, cuidar mais de mim — ler um bom livro, comer menos chocolate, ir ao taekwondo com mais frequência, assistir a um bom filme. Enfim, criar hábitos mais saudáveis.

À vista disso, penso em como seria bom se conseguisse fazer tudo isso que propus a mim mesmo acima. Talvez só assim eu desencalhasse e conseguisse ser uma pessoa feliz. Então, penso em como seria incrível se tivesse tempo para fazer tudo isso. Mas, claro, não dá tempo! Não dá tempo de fazer tudo aquilo e ainda… Dormir. Pois é, preciso dormir.

A verdade é que as noites de sono escondem muita dor. Noites de sono são anestésicas. A insônia vem quando está tudo tão fora de ordem que o sono não consegue vencer a batalha travada diariamente contra nossas agonias. Quando a insônia reina, a revolução deve ser feita internamente. Logo eu, que sempre fui um entusiasta de revoluções e da justiça social, estou aqui — tentando travar a batalha mais intimista de todos os tempos. Nunca pensei que seria tão egoísta.

Ser sonhador é bonito até a primeira vírgula. É bonito quando sua mãe fala, cheia de orgulho, para os outros que você é uma maquininha de ideias, que nunca está parado e que tem uma sensibilidade fodida. Parece bacana quando o seu psicólogo diz naqueles testes vocacionais: “Fabrício, você é um sonhador, gosta de viajar, de ajudar as pessoas e tem talento para profissões com contato humano.”

Agora, vá tentar encaixar essa caralhada de sonhos na sua vida e veja se consegue realizar, ao menos, 15% deles. Não é bonito querer tudo. E ser “sonhador”, “romântico”, “utópico”, “lírico” é que nem ser palhaço. Só é engraçado quando é o outro. Se for você o palhaço, tem alguma coisa errada. Ou alguma vez na vida, quando lhe chamaram de palhaço, você achou que aquilo era um elogio?

Niilismo, revolta, inquietação, desumanização, cansaço. Eis como começa um dos poemas mais importantes de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, escrito em 1928, chamado Tabacaria.

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

O homem que tinha todos os sonhos do mundo precisou criar 127 heterônimos para “neutralizar” sua “loucura”. Uma das personas de Pessoa era brasileiro(!!!). Será que Pessoa tinha insônias também? Tinha. É só colocar no Google.

Pessoas

Álvaro de Campos: “Quando olho para mim, não me percebo.”

Fabrício Bernardes

Cartas a Idalina

Idalina, hoje é meu aniversário. Estou envelhecendo. Mas que o Senhor não escute minhas reclamações — e que esta carta fique apenas entre mim e você. Afinal, tenho duas mãos perfeitas para escrever o que lhe escrevo. Duas pernas perfeitas para chegar onde quiser e uma saúde que não me tem falhado há tempos. O problema é que, hoje, não consegui fazer mais nada que não fosse dar voltas e voltas pelo corredor da minha casa. Desatei a andar numa caminhada curta de tamanho, porém larga em número de horas. Não sei muito bem. Talvez seja a falta do mar para consolar minha solidão. Eu já não sei o que aconteceu de verdade. Mas tenho certeza de que sinto sua falta. Mesmo sem nem saber direito quem você é hoje em dia. Peço perdão pelas minhas reclamações porque sei que quero tantas coisas que não tenho. Parece que me falta lembrar das coisas que já possuo. Por isso, não me parecem dignas minhas queixas. Enfim, hoje é meu aniversário e cá estou um ano mais próximo da morte. Não tenho mais certeza se estou feliz pela sua existência. Justamente porque ela me transformou no que me transformei esses anos.

Enfim, na verdade, a razão pela qual lhe escrevo é para que você veja como estou lidando melhor com essas datas. Eu não estou passando meu aniversário sozinho — afinal, estou próximo de você, escrevendo-lhe. Idalina, hoje as ruas estão frias e chuvosas. Não chovia faz tempo aqui. O ar estava ficando cada vez mais seco. Por isso, sinto com mais força a fumaça do cigarro que você outrora fumou entrar em meus pulmões. As árvores estão judiadas e, secamente, me disseram durante esta semana inteira: “volte para a sua casa.” E cá estou, escrevendo-lhe. Na verdade, não estou muito seguro de quanto tempo faz que não saio de casa e há quanto tempo chove. A única coisa que tenho segura em minha mente é como você parecia naquela camiseta cinza, com o cabelo encaracolado, me olhando daquela janela. Idalina, agradeço-lhe por existir porque sei que minha existência está condenada à sua. E, quanto mais ficamos longe, mais próximo me sinto da vida e, por consequência, da morte. Eu deveria estar chorando por passar mais um aniversário assim. Mas, justamente porque decidi lutar, cá estou andando sem parar e sem pensar em meu apartamento. Idalina, quando lhe disserem que a vida é curta, aproveite. Quando lhe derem uma rosa, não hesite em cheirá-la. Se algum dia você for presenteada com um livro, não deixe de devorá-lo.

Eu ainda sinto o gosto da última macarronada que cozinhamos. Não posso me recordar muito bem de quando isso aconteceu, mas parece que ainda estou com bafo de alho na boca. Idalina, tudo o que comemos nos faz viver. Tudo o que nos faz viver vem da terra, do cultivo, do preparo, do cuidado. Tudo o que faz bem — e às vezes não tão bem assim — nos é proporcionado pelo Senhor e é por isso que lhe agradeço tanto. Idalina, lembre-se de que, enquanto você respirar, ainda estarei ao seu lado torcendo para que o Senhor e a terra tenham lhe proporcionado o mesmo contingente de felicidade que me foi garantido. Afinal, sou feliz. Não sou? Idalina, lembre-se de é preciso cuidado, carinho e petulância para chegar aos lugares em que mais desejamos estar. Recorde-se de que, no final das contas, nem tudo nos é proporcionado, porém tudo vem da terra. Aproveite o que lhe é dado, pois às vezes será necessário batalhar pelo que desejamos. E nem sempre a luta é válida ou justa. Portanto, escute Chopin, mas lembre-se de que a melodia — por mais maravilhosa que seja — sempre terá um final. Assim como a vida, assim como o nosso amor.

Do seu querido e sonhador,

Hermengardo.

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(Des)encontros: A única coisa que tenho segura em minha mente é como você parecia naquela camiseta cinza, com o cabelo encaracolado, me olhando daquela janela.

Fabrício Bernardes

Chypre

Não sou muito bom de poemas. O vício da fala sempre esteve impregnado em mim. Por isso, gosto mesmo é de prosear. Mas, às vezes, o poema vem — e eu não posso fazer muita coisa senão escutar minha inspiração. Daí, escrevo em qualquer lugar — na agenda de telefone da minha vó na mesa da cozinha, no bloco de notas do celular, no computador.

Tudo começou em meados de 2012. Estava envolvido num projeto experimental do segundo ano de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero para criar um veículo de comunicação que desse voz à avenida mais bonita de São Paulo, a Paulista. O problema era que, como sempre, não podíamos fazer “jornalismo tradicional”. Tínhamos que inovar. E inovamos. Elaboramos o m900, site de hiperlocalização com pautas e estilos de textos variados, diferente do que se veria num jornal, e, embora hiper local, extremamente universal. Infelizmente, o portal não está mais no ar.

No meio dessa efervescência de ideias, ao caminhar pela Paulista, poemei. O poema que escrevi passou a integrar o editorial do produto que havíamos criado. E se o poema não pode ficar eternizado no site que criamos, que fique eterno por aqui.

Chypre

No mosaico-constelação da Avenida Paulista,
Tudo começa na Consolação,
O prédio que troca I por Y
A praça sem lugar de convivência
O idoso que dorme no banco do Conjunto Nacional
O ciclista que manobra na esquina da Ministro
A mulher que erra o caminho
A moto que quase atropela quando se atravessa na faixa atrasado
O motoboy que se arrisca no trânsito frenético
O alívio de achar um lugar para sentar
O espetáculo da vida de uma cidade subdesenvolvida. Na maior metrópole de um dos países mais injustos do mundo
O coração que bate acelerado de um gigante não mais adormecido
Um espelho da cidade em todas as suas contradições
A melodia vazia do surdo que atravessa a rua
O espetáculo transparente nas pupilas do cego que passa pelas calçadas de relevo da paulista
O executivo que comemora sua promoção
O mendigo que …
A mulher paulistana que desfila a sua beleza e inquietudes
A pressa. O devaneio
O sol, a luz, os carros, os ônibus, as conversas, as pressas, os encontros, os desencontros, o calor, o frio, o cansaço, a harmonia de cima, a desordem de baixo, o xadrez das camisas, o bronzeado da pele, o negro das calças sociais, o verde do farol, o amarelo das blusas, o vermelho do Masp
A ordem na desordem
A instabilidade do ser humano
O ponto de encontro
O celular que atrapalha a caminhada
As histórias no olhar
As transmissões de rotinas
A música nos fones de ouvido
A estagnação do contemporâneo
Uma Paulista sensorial. Uma miscelânea de sensações. Uma guerra dos sentidos para ver quem fala mais alto. Ou toca mais com mais intensidade. Ou escuta mais alto. Ou cheira mais forte. Ou saboreia com mais intensidade. Ou quem pressente com mais certeza. Um combate entre os seis sentidos
E, ironicamente,
Tudo acaba na Paraíso.

Para concluir a história, a minha amiga jornalista Caroline Zilberman teve a ideia de adaptar o poema. Ela produziu um vídeo no qual ninguém menos que os próprios frequentadores da Avenida Paulista recitam a obra. Lindo. Minha grande amiga Luana Martins e meu amigo André Oliveira (também jornalistas, todos da minha sala) ajudaram Caroline na tarefa. E, repito, ficou lindo.

Fabrício Bernardes

Valéria Legat final

– Eu finalmente havia encontrado o que procurava. Foi a prova real mais dolorosa que já realizei. Foi como levar 5 socos na boca ou ficar 5 minutos debaixo d’água sem ter como respirar. Tive tonturas, mal consegui sair do quarto para pegar um copo de água. Pensei comigo: Até quando?

Valéria estava visivelmente cansada. Contar tudo isso foi extremamente desgastante, mas ela queria falar mais:

– O pior de tudo é ter que fingir que está tudo bem. Ter que mentir a uma das minhas melhores amigas, a Paula, que conheceu Klaus, dizendo que fora uma pena ele estar namorando. Nada mais do que isso. Porque, afinal, quem se apaixona em duas noites? Quem sou eu, senão uma louca, para ainda lembrar desses momentos de felicidade como se fosse ontem? Por que eu ainda não consegui superar isso? Deve ser porque eu tinha tudo em minhas mãos naqueles momentos. Uma boa amiga, um bom companheiro, num bom lugar, com uns bons drink. Desculpe a piada infame.

A moça, arrasada pelas palavras que proferira, simplesmente abaixou os olhos cansados, como se tivesse perdido uma luta de boxe. Estava sangrando, com hematomas por dentro e, ao seu lado, o juiz estava levantando o braço da solidão, que, invicta, ganhara mais uma batalha contra Valéria. Luís, incomodado pela estranheza do momento, achou válido se pronunciar.

– Valéria, escute… Existem algumas coisas que você precisa entender. Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para dar conselhos, mas me sinto na obrigação de dizer algumas coisas. Como você sabe, eu sou um garoto de programa. Portanto, tenho que me adaptar às mais diversas situações — e o que eu faço não é nada difícil. Quantas vezes você já não foi quem não era uma noite? Por um dia? Por uma semana? Como você pode ter certeza de que esse tal de Klaus era a pessoa certa se você apenas o conheceu por horas? E se ele estava fingindo ser o que não é naquela noite? Eu faço isso durante todo meu “expediente”. Garanto a você que não é tão difícil. Por uma noite, não. Difícil mesmo é esconder quem você é por uma vida. Além disso, seu problema não é o Klaus, nem seu ex-namorado, nem qualquer outro caso. O problema está em você mesmo. Sabe por que você não consegue achar o que quer? Porque você está procurando. Você está vivendo para se apaixonar, você está transformando o amor em um objetivo de vida, você está fazendo planos em cima dele. Consequentemente, você idealiza uma figura perfeita, como um príncipe que vai chegar vestindo branco e montado em um cavalo para lhe buscar. E, sinceramente, em todos os anos que você viveu, você achou esse príncipe? Não. Ele é ideal, só existe no plano das ideias. Você está personalizando e projetando a sua felicidade em um homem que não existe. Por outro lado, e isso eu mesmo pude comprovar, a tendência é encontrar amores (e amizades também) verdadeiras e duradouras no momento em que você estiver no ápice da felicidade e realização consigo própria. Correndo atrás dos seus objetivos e desenvolvendo-se como um ser humano. E então, nesta jornada para se sentir completa e satisfeita com você mesma, você acabará encontrando pessoas com as mesmas aspirações. Valéria, acorde! Você não pode ficar parada na estrada com uma placa de papelão apontada para os carros que passam dizendo “PRECISO DE UM NAMORADO”. Você pararia para dar carona a esta pessoa? Acho que não. Só pessoas vazias como esse Klaus que, provavelmente, no dia seguinte, colocariam-lhe para fora do carro como ele fez. Você precisa percorrer seu próprio caminho. Quem sabe na estrada você não conhece alguém que realmente lhe mereça?

Valéria, que estava com os olhos murchos, agora os tinha arregalados. Ela havia totalmente subestimado Luís, que tinha uma sabedoria completamente diferente da garota. O garoto havia lido os sinais da vida há muito tempo, sem precisar ter estudado nas melhores escolas nem faculdades, como Valéria.

– Nossa, Luís, muito sábio o que você disse. Realmente vou levar para frente. Devo a você meu mais sincero obrigado.

Valéria desligou o gravador, deu um abraço amigável em Luís e tentou, de todas as formas, pagar pelas horas que ele havia ficado com ela escutando sua história. Mas ele se recusou. A jovem pressentiu que, seguindo sua estrada, sem procurar, nem criar expectativas, havia encontrado um grande amigo; exatamente como descrevera Luís. E sob aquela noite fresca e quieta de quarta-feira, pois já havia passado da meia-noite, uma grande amizade foi selada, debaixo da maior proteção que qualquer relacionamento poderia ter: o (bom) acaso.

Fabrício Bernardes

Valéria Legat parte IV

Valéria deu uma pausa na história. Percebeu que havia contado uma noite inteira em dois blocos imensos de fala. Precisou respirar um pouco. Olhou seu gravador, mirou nos olhos de Luís, que escutava tudo com atenção e curiosidade, esperando saber o que aconteceria no final. Embora soubesse que a história não deveria acabar bem devido a todas as circunstâncias na qual Valéria se encontrava.

Era visível o alívio de Valéria ao ter terminado a parte mais emblemática de sua história. Os momentos mais felizes com Klaus foram, justamente, os que mais teve dificuldade para contar e dos que menos se lembrava. A moça não sabia exatamente se era por que estava embriagada naquela noite, ou se a felicidade foi tanta que, com a decepção, ela foi aos poucos se esquecendo do que acontecera; ou se a felicidade, e não seus detalhes mais sórdidos, fosse tudo e apenas o que ficou marcado em seu peito.

– Pois é. Eu cheguei em casa e fui dormir. Esperando, pelo amor de Deus, que ele se manifestasse dando continuidade a tudo aquilo. Quando acordei, vi uma mensagem de Klaus! “Me diverti muito ontem à noite. Obrigado!”. Mais uma vez, pensei: “não foi um poema, nem a coisa mais bonita que já li, tampouco uma declaração de amor. Mas foi a continuidade do que eu queria que continuasse.” Não foi a mais bonita, mas foi a mensagem, o que eu queria e precisava naquele momento. Àquela mensagem, respondi que também tinha me divertido muito e comecei uma conversa. Estava tudo dando certo! Em seguida, ele me perguntou como me achava no Facebook. Respondi-lhe: “procure por Valéria Legat”. E não obtive mais resposta. Achei estranho. Mas ignorei. Segundo o que Klaus havia dito na conversa, ele iria sair com seus amigos. Pensei que não pôde responder porque devia estar fora de casa, algo assim. O problema é que o dia seguinte amanheceu, fui ao trabalho, depois ao francês, e nada de resposta. Mandei-o uma outra mensagem e ele respondeu que estava numa “correria louca”. Hum.

– Ixi, moça, não me está cheirando bem isso – pronunciou-se Luís depois de muito tempo quieto.

– Espere, depois você faz comentários, por favor. Neste domingo esperando a resposta de Klaus, também me dei conta de que havia perdido minha Carteira de Habilitação. Mais uma vez, tentei falar com ele, perguntando-lhe o que ele iria fazer naquele dia — era uma quarta-feira. Ele não respondeu a minha pergunta, mas manifestou-se dizendo que encontrara minha CNH ao fazer uma limpeza no interior de seu carro. Pensei que era a oportunidade para nos resolvermos, ou então marcarmos outro dia para nos vermos. Ou, pelo menos, para poder vê-lo novamente, nem que fosse a última vez. Então, marcamos numa sexta-feira, ao meio-dia, no Conjunto Nacional, onde eu ainda trabalho, para que ele pudesse me devolver o documento. Ele estava, como sempre, lindo. Porém, muito diferente. Não tinha mais cara de jovem e eu estava parecendo uma criança perto dele. Sua altura já não era mais ideal, ele era grande demais. Seu cabelo não estava mais jogado para a frente da sua testa, ele estava posto para trás com gel. Ele estava de terno e era de dia. Parecia que, daquela noite, só ele havia crescido. Eu, pelo contrário, era ainda aquela garota da Sarajevo, da balada, de sábado à noite. Ele, não. Ele disse que encontrara um emprego novo, que era chefe. Enquanto que eu estava (e estou) longe disso. Tentei conversar, ser legal, alongar o momento pedindo-lhe para que fosse à Livraria Cultura comigo, mesmo que não tivesse nada demais para comprar. Ele acatou o pedido, mesmo parecendo um pouco contrariado. Até o momento em que ele disse: “você entra ao meio-dia no trabalho, não é? São 12:10, está na hora de entrar. Você está atrasada”. Então, embora houvesse escutado Lucky Man do The Verve o caminho inteiro do metrô até chegar à Avenida Paulista, aquele não era meu dia de sorte. O encontro com Klaus fora um fiasco e eu estava arrasada. Mesmo assim, quando cheguei em casa depois de um dia maçante de trabalho, resolvi tirar a prova real. Mandei mais uma mensagem para Klaus perguntando-lhe se não podíamos nos ver novamente. Ele contestou: “é que eu estou namorando. Desculpe”. (continua)

Fabrício Bernardes

Valéria Legat parte III

Não era à toa que Valéria estava gravando tudo o que dizia. Só de contar aquilo, já estava se sentindo mal. E sabia que, provavelmente, nunca mais proferiria tais palavras com tamanha riqueza de detalhes. Seu coração batia mais forte, seus músculos se enrijeciam e ela começava a ter ânsia de vômito. Mas estava decidida a ir até o final.

– Depois disso, voltei para casa. Tinha tudo até que dado certo. Dormi. Então, a partir daí, tudo começou a dar realmente certo. Tão certo que eu comecei a desconfiar. Por isso, comecei a enganar eu mesma afirmando ao meu subconsciente que não me importava. Ele me mandou uma mensagem. Foi uma coisa idiota. Totalmente fática, só para iniciar uma conversa. Mas, afinal, eu não precisava de mais do que aquilo. E nem esperava, de qualquer forma, um poema de amor. O fato é que ele veio falar comigo. Perguntei-lhe se ele ia fazer algo naquele dia. Ele disse que não. Sugeri de irmos à balada Sarajevo, na rua Augusta. Ele aceitou. Por precaução, levei minha amiga. Não queria correr o risco de perder uma noite de final de semana caso ele não aparecesse. Entramos praticamente ao mesmo tempo. Avistei-o pegando a comanda no caixa. Cumprimentei-o com um beijo no rosto e um abraço. Em seguida, apresentei-o à minha amiga Paula. Pareceu que eles se entenderam bem logo de primeira. Fiquei aliviada. Embora ela tenha ficado brava no começo dizendo que não havia cabimento ela vir junto comigo para um encontro a dois, Paula se divertiu bastante aquela noite. Assim como eu.

Ao pronunciar essas três palavras finais, Valéria estremeceu em um calafrio e Luís se assustou.

– Está tudo bem?

– Sim. Continuemos. Fomos os três ao bar e pedimos uma cerveja. Minha amiga, Paula, não bebe cerveja, por isso pediu algum destilado do qual não me lembro mais. Eu e Klaus estávamos abraçados e conversando com ela. Foi quando descobri que ele tinha 28 anos. Ele estava, novamente, lindo. Uma camiseta branca, debaixo de uma camisa verde e calça bege. Novamente não me lembro de seus calçados. Seu cabelo, com a franja para frente, contrastava com sua feição de um homem de quase 30 anos e me fazia pensar em como Klaus era atraente e, naquela noite, ele era meu. E eu dele. Além disso, o alemão se mostrou uma pessoa extremamente divertida, estudada e liberal. Requisitos para mim. Estava começando a pensar que era impossível ter encontrado alguém tão formidável em uma saída despretensiosa de sexta-feira. Começamos a beber e ficamos mais felizes ainda. Dançamos música brasileira remixada na pista de cima da Sarajevo, bebemos tequila, cerveja, rimos, sorrimos. Minha sobriedade ia embora, mesmo que estivesse exalando felicidade. Em um momento, fiquei olhando para a face do Klaus e refletindo em como tudo, bizarramente, se encaixava. Eu era francesa, ele era alemão. Eu sou paulistana e ele carioca. Eu estou na segunda faculdade e ele é formado. Ele é mais alto. Depois, me disse que nunca sentia frio e gostava de Florence and the Machine. Depois, ele me abraçava e eu sentia seus braços fortes rodeando-me. Depois, ele estava fazendo até minha amiga se apaixonar por ele (num bom sentido, é claro). Depois, não tinha como negar que o Klaus era perfeito. Nem que somente para mim, somente naquele momento e naquelas circunstâncias. Então, minha memória foi ficando prejudicada pelas tequilas que havíamos tomado e, por isso, só lembro que estávamos no fumódromo e decidimos ir embora. Fomos ao carro dele e lá ficamos por um tempo para nos proteger da chuva enquanto Paula ficava com o moço que conhecera na balada. Aproximadamente uma hora depois, saímos de lá e fomos buscar minha amiga. Chovia. Por isso, fomos de carro, mesmo que ela estivesse a metros de nós. Klaus parou o carro na esquina da Bela Cintra com a Paulista e me esperou lá. Fui correndo e encontrei Paula. Ela estava com um garoto um pouco estranho. Como estava alterada pela bebida, tirei sarro dele e até minha amiga que estava com ele deu risada. Tudo estava engraçado demais. Até que o Klaus chegou, porque eu estava demorando muito. E então, ele também começou a zombar do garoto da Paula e estávamos todos rindo – menos ele, claro. Quinze minutos depois, Klaus se lembrou de que havia deixado seu carro no meio da rua e aberto. Fomos os três rindo de preocupação até o veículo e nada havia acontecido com ele. É a sorte dos bêbados e apaixonados. É também apenas mais uma das várias evidências de que nada poderia estragar aquele momento entre mim, Klaus e Paula. Estávamos com fome. Por isso, fomos comer na Bella Paulista, uma padaria deliciosa na rua Haddock Lobo.  E então, novamente, Klaus foi engraçado e encantador. Comi um lanche imenso porque também estava com fome e queria prolongar ao máximo aquele momento, embora estivesse com um sono voraz. Paula também comeu um grande lanche, se eu não engano, era o Mooca. Quando fomos pagar a conta, Klaus não teve que pagar porque o garçom esquecera de anotar seu café da manhã em sua comanda. Então, ele nos levou de carro até a rua Augusta, onde estava estacionado meu carro. Paula saiu do veículo, para que pudéssemos nos despedir melhor. Não trocamos uma palavra. Foi só um longo beijo de despedida, com muito afeto e um monte de outras frases não ditas, embora ansiasse muito dizê-las: “me ligue, pelo amor de Deus”, “não deixe de falar comigo, pelo amor de Deus”, “vamos nos ver de novo, pelo amor de Deus”, “seja meu namorado, pelo amor de Deus”. E, pelo amor de Deus, deixei o carro sem dizer nada, depois do beijo mais enigmático da minha vida, esperando ter dito tudo o que eu queria ter dito com essa demonstração de afeto realizada pelos meus lábios secos devido a tudo o que tinha bebido naquela noite. Ao entrar no carro, Paula falou o caminho inteiro sobre como gostou do Klaus e como ele era incrivelmente engraçado, culto, bonito, charmoso, encantador. Meu único medo, àquela altura pavor, era de que ele não se manifestasse mais e encarasse aquilo como nada mais do que uma noite divertida, com alguém divertido e, consequentemente, uma recordação divertida, porém efêmera, para sua vida. (continua)

Fabrício Bernardes

Valéria Legat parte II

– Tudo começou no dia 7 de julho de 2012. Eu havia saído com mais duas amigas e fomos a uma balada na rua Augusta. Eu não me lembro muito bem do que fiz antes de entrar na casa noturna e isso nem tem muita importância. O fato é que aquela noite ficou marcada pelo tombo que levei. Na verdade, agora me recordo melhor. Fiquei um pouco no fumódromo e lá encontrei alguns franceses – para (não) variar, porque eu sempre encontro franceses nas saídas que dou, principalmente quando vou à Augusta. Falei bastante a língua de Victor Hugo com os estrangeiros e estava feliz porque tinha sido elogiada por eles pela minha fluência no idioma. Em seguida, desci para a pista de dança e dancei. Dancei como se não houvesse amanhã. Embora tenha parecido que estava lá há apenas meia hora, devo ter pulado e me divertido com meus amigos, no mínimo, durante duas horas. Em um desses movimentos, meu cérebro, animado e despreocupado, exigiu mais das minhas pernas, cansadas e judiadas por uma noite de balada, do que elas podiam aguentar e eu caí. Para ser honesta, levei um grande tombo. Caí com as duas pernas em direções opostas. Entretanto, com a mesma rapidez com que falhei, me recuperei. Levantei muito rapidamente e todos riram e se surpreenderam com a minha rapidez. Devia haver como uma dúzia de pessoas na pista, visto que já eram mais de cinco horas da manhã. Então, levando em consideração a vergonha que tinha passado, o cansaço que estava batendo e o horário, decidi dizer às minhas amigas que estava com vontade de ir embora. Elas também estavam e, por isso, dirigimo-nos à fila do caixa, que deve ter demorado uns trinta minutos. Foi lá onde eu o avistei.

Valéria estava totalmente compenetrada em sua história. Seu medo de não se lembrar direito dos acontecimentos logo se esvairiu ao começar a enumerar os fatos e, em uma marcha moderada, contava suas histórias: em um ritmo nem muito rápido, nem muito devagar, como se tivesse praticado o que estava fazendo há meses. Em um sopetão, ela mesma se interrompeu:

– Você quer beber alguma coisa? Até esqueci de perguntar…

– Pode ser, senhora.

Valéria trouxe dois copos de suco de laranja industrializado. Um para ele e um para ela. E, regado ao gosto agridoce da laranja açucarada dos sucos de caixinha, a história seguiu seu rumo.

– Ele era belo. Sim, muito bonito. Do que se podia ver naquele meio escuro da balada, tratava-se de um rapaz novo, por volta dos 22 anos. Loiro, cabelo liso, jogado para a frente da sua testa, nariz reto, traços europeus, olhos escuros, boca de tamanho mediano, alto, 1 metro e 95 centímetros. Camiseta azul escuro, de manga comprida, calça jeans azul puxado para o preto e tênis que combinavam, porém dos quais não me lembro mais. Olhar de criança, de jovem, despreocupado, “desencanado”, cara de classe média alta, de inconsequente, porém, apaixonante. Belo e solto. Mas ele nem me olhava. E, sinceramente, jamais achei que teria alguma chance com ele. Por isso, dei-lhe algumas três olhadelas, porém bem discretas. Daquelas que ele só perceberia se estivesse realmente compenetrado em prestar atenção em mim. E ele não estava. Por isso, decidi agir como o jovem e também “desencanei”. Saí da balada e, não me recordo bem por quê, uma das minhas amigas começou a falar com um dos amigos dele na saída da casa. E eu, com dor no joelho devido à queda, encostei num carro e fiquei a alguns palmos da roda de conversa na qual minha colega se encontrava. Eis que ele se colocou do meu lado e uma conversa banal aconteceu. Só agora me lembrei que, na queda, também quebrei o feixe do meu relógio. Aliás, não tenho relógio até hoje, desde aquele dia. De qualquer forma, pedi-lhe para tentar consertá-lo. Ele não conseguiu. Ele perguntou como o quebrei. Eu o respondi, rindo, que caíra dançando. Ele riu também. Contei-lhe que sentia dor no joelho direito por causa da queda, logo engatei a história do problema que tivera na articulação e, sem perceber, estávamos numa conversa saudável e produtiva. Afastei-me por alguns instantes dele porque minha amiga havia me chamado para perguntar se eu estava segurando o cigarro dela. Então, o Klaus se aproximou de mim novamente e voltamos a conversar. Contou-me que era alemão. Que nascera lá, mas veio ao Rio de Janeiro quando criança e tinha se mudado há pouco para São Paulo. Foi amor à segunda vista. Pelo menos da minha parte. Depois de  ter contado esses detalhes, ele me olhou nos olhos. Eu o olhei de volta, com as pupilas para cima porque ele era mais alto. Ele sorriu, eu me mantive inerte. Ele me beijou. É claro que não foi o melhor beijo do mundo, nem o mais apaixonante, nem o mais romântico, nem nada. Mas, naquele momento, naquele instante, naquele dia, naquele final de noite, era o beijo. O único. E eu o aproveitei. Segurei sua mão e, com este ato, mostrei-lhe muito de quem sou. Seu amigo queria ir embora e o estava chamando. Ele me disse: “não posso mais ficar, mas dê-me seu número do celular”. Ele anotou. Despediu-se com um último beijo em meus lábios e se foi.

– Acabou, moça?

– Lógico que não. Só se eu fosse louca para chamar-lhe aqui e não ter mais nada para contar do que isso.

Luís, toda vez que escuta a palavra “louca”, refletia sobre a situação e a atitude de Valéria, no mínimo controversa, de fazer tudo o que está fazendo e ainda ter a audácia de dizer que não é louca. Mas, como bem sabe, por meio dos incontáveis clientes que já teve, que loucura é algo comum em sua profissão, espantou esses pensamentos da cabeça para prestar atenção na jovem, pois ela já tinha voltado a contar sua história. (continua)

Fabrício Bernardes