Sonho de Felicidade

Ven conmigo a dar un paseo por el parque
Porque tengo más cuentos que contarte que García Márquez

Eu não me lembro direito quando foi e nem faço questão de tal. Só sei que foi um sonho. Um sonho de felicidade. Pessoas muito inteligentes às quais devo respeito e admiração pelo resto da minha vida disseram que felicidade é não sentir nada. No começo, achei estranho. Não sentir nada não é ser feliz. Na época, pensava assim. Mas hoje, penso que ser feliz tem sim muito a ver com niilismo. Tem uma certa relação com estar anestesiado. No entanto, não concordo completamente com eles. Porque ainda tenho convicção de que felicidade também é sentir coisas boas. Ou seja, ainda acredito que coisas boas existem. E, de preferência, espero envelhecer crendo nisso. Portanto, prefiro pensar que felicidade não é inteiramente composta de alegria. Um pouco de anestesia, um pouco de serotonina. É claro que se eu estiver sob certo efeito de anestesia, diminuo a serotonina também. E é justamente disso que falo. Anestesiado, você está imunizado de coisas ruins e de exageros de felicidade. Você está simples. Para mim, na minha mera e leiga opinião, felicidade tem muito mais a ver com simplicidade.

Pois bem, um dia, sonhei. Sonhei que estava na praia. Eu sentia a umidade salgada entrando pelo meu nariz. Sentava na mureta de costas para o mar e olhava o vai-e-vem das pessoas. Meus pés, calçando meus chinelos, estavam levemente sujos de areia e eu estava de baixo de uma palmeira. Eu devia estar em Mongaguá.

Uma pick-up parou na ciclovia e dela desceu um chileno que insistia muito para que eu comprasse amendoins. Acabei comprando e, em seguida, ele sentou-se comigo numa mesa de plástico ao lado da mureta. Bebíamos cerveja e comíamos amendoim. Passaram-se alguns minutos e avistei meu primo. Ele vestia roupa de praia e carregava um largo sorriso em seu semblante. Convidei-o para sentar e ele aceitou.

Bebíamos cerveja, comíamos amendoins, sorríamos, estávamos na praia e falávamos espanhol. Tem coisa melhor?

Há muitas coisas ainda que deveriam ser mencionadas, esclarecidas e explicadas por mim sobre este sonho. Mas, na verdade, só quero acrescentar algo: sem qualquer circunstância lógica, acordei feliz após este sonho. Então, em vez de terminar o texto complicando-o, finalizo-o com uma pergunta simples que até já foi feita no parágrafo acima. Beber cerveja, comer amendoim, na praia, ao lado do seu primo e falando espanhol… Tem coisa melhor?

Fabrício Bernardes

Eu e o Mar

É impossível não ter uma certa relação com o mar. Só sendo de outro planeta. Até quem nunca o viu tem algo a dizer sobre ele. Tem o carioca, que ama o mar, vê ele todo dia e não saberia o que fazer se não fosse assim. Tem o paulistano, que ama o mar, não o vê todo dia e vive bem assim. Tem o mineiro, que ama o mar, quase nunca o vê e sente falta dele. Na minha opinião, é um pouco difícil desgostar dele. Ele sempre nos traz sentimentos tão bons. Os supersticiosos, inclusive, dizem que água do mar cura tudo.

Mas, na verdade, o que poucos sabem é como o mar nasceu. Do que ele é feito e, principalmente, porque é do jeito que é. Para que entendam essas dúvidas, vocês precisam conhecer a minha relação com ele. Eu sou paulistano, sempre morei em cidade grande e minha família tem uma casa no litoral há 50 anos. Eu nasci no final de novembro e, em janeiro, minha mãe já havia me levado para o litoral, com apenas um mês e pouco de vida. E, desde então, minha vida foi assim. Eu sempre vou à praia nas férias de janeiro, passo o ano novo lá e, depois, volto para São Paulo. Portanto, foram anos de contato com o mar. Eu não sou nenhum expert porque não nasci no litoral e nem lá morei. Mas sempre tive muito contato com o mar e sinto que ele também tem certa simpatia por mim.

Pois bem, um desses dias de janeiro, eu estava deitado em minha cama. Aquele velho ócio depois do almoço. Eu escutava uma música que trazia à tona sentimentos queridos que cultivo em mim e, de repente, começou a chover. Porém, fazia sol ao mesmo tempo. Eu, como grande admirador de fenômenos naturais, me senti obrigado a ver o mar, a chuva, o céu e o arco-íris. É uma combinação digna. Merece ser admirada. Quando cheguei lá, o mar me chamou e eu fui.

Fiquei com a água até o joelho olhando tudo que a natureza havia me dado de presente. E foi quando o mar decidiu falar comigo. Eu não sei porque ele me escolheu, nem se sou digno de saber tudo isso. Mas, em uma enxurrada de palavras plantadas em minha mente, ele me contou. Eu escutei com atenção.

Você já reparou que o mar é indeciso, hesitante? Quando você quer chegar perto dele, ele recua. E quando você quer ficar longe, ele avança. Você já percebeu que o mar pode estar bravo assim como pode estar calmo? Já parou pra pensar quãa traiçoeiro ele é? Que ele mata e abriga ao mesmo tempo? Que ele é evitado por muitos e também querido por muitos outros?

Ora! O que é isso se não o amor? O mar me contou tudo. Na verdade, o mar são lágrimas. De alguém que, há muito tempo, sofreu por amor. E, por assim ter sido, as lágrimas são salgadas. Esse alguém chorou tanto, mas tanto, que ele encheu mais da metade do mundo só de lágrimas. E estas são como o amor. Tem as características dele. E por que, mesmo você sendo pequeno, é normal sentir que seu amor é imenso? Porque alguém, pequeno como você, o transformou no mar. É por isso que quando olhamos pro mar fixamente, sentimos um certo vazio. Vazio este que vem devido à imensidão do mar perto de você. E, quanto mais se avança, mas você se perde nele e, uma hora, ele simplesmente te afoga. De novo, o que mais pode ser isso se não o amor? Por que tiramos a roupa antes de entrar no mar? Porque temos que entrar nele vazios, sem carregar nada conosco. Para que possamos amar alguém, temos que estar livres, soltos. E por que nos sentimos inseguros no mar à noite? Porque amar já nos priva de quase todas as armas racionais que temos, se entramos no mar no escuro, não temos nenhuma arma contra ele. Por que o mar às vezes tem ressaca? Porque o amor é pra sempre, ele não acaba. Portanto, às vezes, aquele alguém, que outrora sofreu muito, relembra e chora de novo, mesmo tendo superado a desilusão. E por que o mar só vê o arco-íris quando chove? Bom, daí já é demais. Ele não quis me contar.

Fabrício Bernardes