O Curioso Caso de Benjamin Button

Hoje, agora a pouco, numa tarde despretenciosa, começou a passar na televisão um dos meus filmes favoritos. Eu já o havia assistido no cinema e, quando o vi na tevê, torci para que pudesse ainda apreciar uma das cenas cinematográficas mais bonitas da minha vida. Aquela na qual os dois personagens principais (Brad Pitt e Cate Blanchett) se olham no espelho por alguns segundos e guardam na memória o momento em que os dois têm praticamente a mesma idade. Um crescendo para cima e o outro para baixo, mas para tudo na vida há uma intersecção. E nada melhor do que um espelho e uma memória para registrar tudo isso. Logo em seguida, inclusive, Daisy Fuller conta ao seu amante que está grávida.

O filme (originado por um conto do autor americano F. Scott Fitzgerald) é uma mistura de sensações incríveis. É muito estranho, de fato, envelhecer ficando mais novo, mas a velhice e a infância têm muito em comum. Como a própria Daisy fala no filme: “ambos acabaremos de fraldas.”

As duas fases estão perto de extremos. Nos dois momentos, verificamos muita teimosia e uma certa infantilidade, por mais óbvio que pareça. Na verdade, o que o casal mais temia era o que mais os aproximava. Porque tudo caminhava para o equilíbrio e não para a falta dele. Enquanto os dois estavam jovens e com idades parecidas, a chama do amor ardia fortemente, a rotina não existia e tudo era fugaz e acelerado. Em seguida, quando Benjamin volta bem mais novo, a Daisy cuida dele, conta-lhe histórias, ensina-o a caminhar, recorda-o de coisas de que ele havia se esquecido. Ele estava na infância, mas idosos também passam por isso.

Essa foi uma das conciliações de impossíveis mais ilógicas, porém também mais bem-sucedidas; mostrando a tenacidade do amor. Tinha tudo para dar errado, mas o amor encaixou tudo da forma mais bonita e perfeita possível. E é por isso que, por mais que muitos neguem, ele está presente. Nas ruas, nas calçadas, nas padarias, nos bares, nas baladas, nos museus, nos escritórios, nos cartórios e até em São Paulo (ouviu, Criolo?). Nem que esteja presente pela sua falta, pela sua negação.

Pode soar clichê, mas, no final das contas, tudo converge a clichês. Pense nas melhores histórias dos melhores autores de todos os tempos. Camões, em o Desconcerto do Mundo. Precisava de um poema para dizer que o mundo está desconsertado? Machado, com Dom Casmurro. É clichê falar de adultério? Milton Hatoum, em Dois Irmãos. É clichê falar de ciúmes e ódio entre irmãos? A Odisseia, de Homero. É clichê contar feitos heroicos? Tudo na vida é desmontável e os bons são aqueles que montam boas histórias desmontáveis. Sentimentos estão aí para serem explorados e citados. O amor é só mais um deles e não é surpresa – ainda bem! – que muitas histórias desovem nele. Sim, o amor. Sou eternamente apaixonado por ele.

Portanto, busque-o. E agradeça a Fitzgerald por ter criado uma história tão linda, que converge em algo maior e mais bonito ainda.

Fabrício Bernardes