Figuras de linguagem

É praticamente um consenso entre os cientistas que a memorização — isto é, a capacidade de reter informações a longo prazo — está ligada a valores sentimentais que damos a certo assunto. É por isso que gostar de alguma matéria é importante. Porque você já está inclinado a ter uma conexão positiva com o assunto e, por consequência, a ter mais facilidade de lembrar o que você viu ou estudou. Eu, por exemplo, adorava português.

Porém, é verdade que em algumas situações não interessa se você gosta do tópico ou não. A ver, na matemática, aonde você chega na escola sem saber o Teorema de Pitágoras ou a fórmula de Bhaskara? Neste caso, o valor sentimental era expressado na forma de medo, porque sabia que minha mãe ia me matar se eu repetisse de ano. Mas um ótimo exemplo de como gostar de uma matéria ajuda a reter informações que não eram, de longe, essenciais para passar de ano é o fato de eu lembrar de um monte de figuras de linguagem até hoje. E não, não se estuda ou se revisa isso na faculdade de Jornalismo. Pelo menos não na minha.

Metonímia, zeugma, catacrese, paronomásia, prosopopeia, quiasmo, anacoluto, entre muitas outras. Parecem feitiços do Harry Potter. O fato é que, embora não seja essencial saber o que é um zeugma, as figuras de linguagem são usadas quase que de maneira inconsciente por todos nós no dia a dia. Às vezes, soltamos umas hipérboles por aí e nem nos damos conta. Pois é, enquanto os grandes escritores escolhem com o maior zelo que malabarismo vão fazer com as palavras em seu texto, a maioria da população está na rua arrasando no português criativo.

Quer ver? O que você responde se alguém pergunta se você já leu Paulo Coelho? Embora eu espere que você diga não, é fato que você entendeu exatamente a questão. Mas, reflitamos, é possível ler uma pessoa? Não. Na verdade, o que o indivíduo quis indagar era se você já leu algum livro do Paulo Coelho. Sem querer, a pessoa usou uma metonímia e você entendeu na hora.  

Na minha opinião, elas são úteis para entender a lógica da nossa língua. Dizem que os portugueses são muito literais e nós, por outro lado, nada racionais em relação à nossa língua. Esse contraste cria uma série de situações cômicas quando vamos a Portugal. Eis algumas.

— Moço, tem uma mesa para a gente sentar?

— Temos cadeiras para vocês sentarem, senhor. Na mesa, colocamos os pratos.

Quando um garçom em Lisboa me respondeu isso, eu achei hilário. De fato, não sentamos na mesa. Será que ele pensou mesmo que nós queríamos sentar na mesa? Enfim, no mesmo restaurante, pedi o seguinte para o garçom:

— Você pode trazer um café para a gente?

E, embora estivéssemos em quatro, ele trouxe apenas um café.

— Oras, pediste um café!

Essa falha na comunicação acontece porque o brasileiro e o português utilizam lógicas diferentes ao atribuir sentido às palavras. As figuras de linguagem são fascinantes porque dizem muito sobre a língua que falamos.

Por isso, sempre gostei de português. Mas tinha problemas sérios com uma matéria específica do português: a redação. Isso fazia com que minhas notas quase nunca passassem dos 6,75 por melhor que eu fosse em gramática e literatura. Isso tudo é uma grande ironia – olha aí, outra figura de linguagem dando o ar da graça – porque, mais tarde, escolheria estudar Jornalismo e viver de escrever.

A um tempo atrás, na escola, fui inventar um neologismo, outra figura de linguagem. Neologismo é o fenômeno linguístico que consiste em criar novas palavras ou atribuir um novo sentido a uma já utilizada. Neologizar. Pronto — criei um em dois segundos. Viu que fácil? Mas quem era realmente exímio em neologismo — e, claro, em escrever de maneira geral — era Guimarães Rosa. Esse cara aí era simplesmente fora da curva. Cada frase que ele escrevia dá no mínimo meia hora de explicação numa aula de literatura. Enfim, gênio. Ele criou neologismos lindos que marcaram eternamente nossa língua. Quer um exemplo? Ele é o dono da palavra estória. Que, pelo visto, segundo o corretor do celular do qual estou escrevendo, já é uma palavra incorporada ao português formal.

Voltando às aulas de redação da sétima série, numa das provas, quis inventar um neologismo e criei a linda palavra “bostosa”. A intenção era conceber uma palavra que juntava bolacha e gostosa. Claro que, na hora, não imaginei que a professora acharia que eu estava comendo uma bosta gostosa. Eu acho que eu teria dado zero para mim mesmo. 

Mas é isso, as figuras de linguagem estão aí para humanizar nossa língua, para deixá-la excitante, vigorosa e, por que não, render anedotas engraçadas. As pessoas gostam delas. Elas são uma fuga. Elas são nosso jeito de deixar a língua portuguesa, tão rígida e tão cheia de regras, mais amável, mais próxima da nossa realidade.

Por exemplo, a palavra tóxico. Faz três semanas que não paro de ouvir essa palavra. E não a escutava desde as minhas aulas de química no colegial. É claro que, a rigor, uma pessoa não pode ser tóxica. Pois ela não tem a capacidade de envenenar alguém por meio da sua ingestão ou do seu cheiro. Afinal, você não vai comer uma pessoa e se envenenar. Vixe. Essa frase ficou estranha. Vamos seguir para evitar duplos sentidos. 

Enfim, a palavra tóxica virou moda agora para designar pessoas nocivas à nossa felicidade e inteligência emocional. O embuste, que virou “boy” lixo, agora é o “boy” tóxico. E está aí, na boca de todo jovem sentado no bar contando da(o) ex, nos diários das(os) garotas(os) do ensino fundamental e nos conselhos amorosos que sua(seu) melhor amiga(o) sempre dá. Logo aparece em novela, em livros… aqui já apareceu. 

É engraçada essa intersecção entre as gírias, as figuras de linguagem e o padrão da língua. A figura de linguagem é o que os gramáticos convencionaram que se pode fazer com a língua e ainda estar no território da formalidade. A gíria é o famoso foda-se. Vou usar as palavras do jeito que eu quiser. Elas são proibidas no português formal. A rigor, eu não poderia escrever “legal” aqui. Mas foda-se, não é? Professor Pasquale que me prenda. Por mais condenadas que sejam pelos acadêmicos, as gírias tendem a ser incorporadas à nossa fala e escrita porque muitas podem ser interpretadas como figuras de linguagem. E eventualmente serão aceitas como uma palavra qualquer. Então para que esse preconceito todo com gírias? Não sei. Elas são tão legais. Assim como as figuras de linguagem.

FABRÍCIO BERNARDES