A mediocridade e pequenez da classe média

Tupi or not tupi, that is the question. – Oswald de Andrade

Se tivesse que ter se embebedado de alguma coisa ontem, sexta-feira, seria de Nutella. O garoto tinha ido dormir às 2:22 porque não tinha achado nada melhor do que ficar na internet. Acordou porque teve que tirar o carro para que sua vó saísse para fazer compras e, dali uma hora, teria dentista. Acordou com sono, olhos colados; porém estranhamente disposto.

Entrou no elevador com sua vó e encontrou uma vizinha e mais alguém.

- Olá, senhora, quanto tempo! Tudo bem com você? Vejo que sim, mas com o menino; parece que não – disse a vizinha sorrindo.

- Estou ótima! Já ele, acabou de acordar.

- Ai, imagino. Essas baladas de sexta-feira…

- Pior que nem saí ontem. Mas esta semana foi um rolo-compressor – o jovem se pronunciou pela primeira vez.

- Realmente, cansa sim. Ainda mais você que estuda e trabalha – respondeu a vizinha.

- É a primeira sexta do ano que ele não sai – brinca a senhora.

- Mas ele está mais do certo, é uma época que não volta mais. Tem que aproveitar mesmo!

- Isso aí – sorriu o garoto e desceu, junto com sua vó, do elevador na garagem.

Não havia passado nem 3 segundos que o garoto havia deixado o elevador e ele começou a pensar na quarta pessoa que lá se encontrava. Alguém que não cumprimentou ninguém, que passou “desapercebido”, não fosse pelo seu próprio espectro que ainda não é invisível e pelo cheiro pouco agradável do seu traje de porteiro que não deveria ter sido secado direito, conferindo-lhe um odor de mofo.

A mediocridade e pequenez da classe média podem ser verificadas em incontáveis atos dos integrantes dessa parte da sociedade. “Enchi-me de Nutella ontem, não saí, fiquei no meu Macbook, na Internet, não fui despertado pelo meu iPhone, porque minha vó havia me acordado primeiro para tirar meu Renault da frente do seu i30; porém encontrei uma vizinha, a quem expliquei porque não havia ido a nenhuma night club e não tive sequer a decência de dizer um HELLO ao porteiro negro que se encontrava no mesmo recinto que eu”. Parabéns, você é ridículo.

Fabrício Bernardes

Elefante Branco

Há dias em que você acorda pensando: “Meu Deus, o que me espera hoje?” É provável que os dois garotos responsáveis pelo massacre de Columbine retratados no filme Elefante, de Gus Van Sant, tenham acordado pensando o mesmo diversas vezes. O bullying está presente. Todos sabemos que existe. Mas o ignoramos. É realmente é um elefante branco. Ninguém sabe lidar. Pergunto-lhe, leitor. Você já parou para pensar o que levaria uma pessoa a largar tudo na vida? Agir por agir, matar por matar. É como passar o bilhete único na catraca, parar quando o sinal fecha, escovar os dentes acordar. Chega a ser fora de cogitação como matar pessoas pode ser encarado tão friamente quanto às ações descritas acima.

Não que eu os esteja condenando. Longe disso. Condeno a bizarrice da sociedade. Porque, me desculpem. Isso é bizarro. Preconceito, descriminação chegar a tal ponto em que a única solução enxergada é matar alguém(“alguéins”). Deve-se consagrar, portanto, quem teve a iniciativa de registrar isso em forma de um filme. Sabe qual é o caminho para a imortalidade? A arte. Ulisses é imortal até hoje devido aos aedos que contaram suas aventuras. Está imortalizado pela literatura. Assim como este episódio pelo cinema.

A sétima arte tem uma abordagem diferenciada. Todos sabemos. Ao ler sobre o que é, de fato, um ensaio, encontrei a seguinte definição: “Escreve ensaisticamente aquele que compõe experimentando; quem, portanto, vira e revira seu objeto, quem o questiona, apalpa, prova, reflete; quem o ataca de diversos lados e reúne em seu olhar espiritual aquilo que ele vê e põe em palavras.” De George Lukács. Há um diálogo interessante entre essa explicação e a própria forma como o filme foi feito. Bem, o filme se chama Elefante devido a uma parábola budista. Na qual vários cegos tocam um elefante e o descrevem de acordo com a parte que a que tiveram contato. A pata, a cauda, a orelha, a tromba. No entanto, ninguém pode imaginar como é o animal em sua totalidade. No filme, mostra-se a visão de todos os cegos da história. Assim, é possível tirar as próprias conclusões e entender melhor o elefante. Ora, o que é um ensaio, se não isso? Vira, revira, apalpa, ataca de diversos lados e reúne no olhar espiritual na forma de um filme. Ele mostra todos os lados, todas as possibilidades, todas as rotinas daqueles que estavam envolvidos no massacre. Assim como um ensaio tende a esgotar todos os pensamentos sobre certo assunto. Bem como explorar todas as visões sobre o mesmo.

Tenho em mente que essas atitudes, depois de ver tal filme, sejam repudiadas logo em seguida. Mas o problema é que, no fundo, todos sabemos que já praticamos certo tipo de bullying. Seja em maior ou menor escala. E ainda nos justificamos da seguinte maneira: “Ele/ela mereceu.” Talvez até os dois garotos do massacre também já tenham agido preconceituosamente. É normal, somos todos inconsequentes. E, mais uma vez, um texto é acabado com a mesma conclusão: somos todos iguais. Então, sejamos diferentes. Pois nunca se sabe o que lhe espera depois que você sai da cama.

Fabrício Bernardes

Entre a Cruz e o Arco-íris

A corrida presidencial está cada vez mais próxima do fim. É normal que, em razão disso, temas polêmicos sejam discutidos. O candidato à Presidência José Serra trouxe a questão da Lei da Homofobia à tona essa terça-feira(26). Em visita a Foz do Iguaçu(PR), Serra prometeu vetar a lei, caso ela seja aprovada pelo Congresso.

O tucano está apostando nos votos dos evangélicos, já que assegurou o veto da lei na 50ª Convenção Anual das Igrejas Assembleias de Deus no Paraná. “Uma coisa é grupos de extermínio, praticando violência contra homossexuais, como já ocorreu em São Paulo. Outra coisa é o projeto como está, que passa a perseguir as igrejas que combatem a prática homossexual”, afirmou.

Vetar uma lei desta é um retrocesso. A Lei da Homofobia criminaliza atos discriminatórios e violentos contra a honra e integridade homossexual. É um erro achar que ela agride a liberdade de expressão religiosa. Pois as Igrejas ainda poderão considerar o homossexualismo um ato profano. A Lei garante que a Igreja possa se expressar de acordo com a lógica da bíblia ou seja lá qual livro sagrado. Na verdade, quem não sabe o que é uma coisa e o que é outra é Serra. Uma coisa é dizer que ser homossexual não é aceito pela bíblia. Outra coisa bem diferente é dizer que isso é uma doença, desvio psicológico ou errado. E é desse tipo de ato que nossa sociedade está infestada. De preconceito.

Barrar a Lei da Homofobia é não considerar o preconceito um crime. Se essa atitude não é considerada como ilegal, o presidente estará abrindo espaço para que haja mais ódio entre as partes. Porque se não é crime desmoralizar um gay, não há porque deixar de fazer isso. Sabe-se que o ser humano é discriminatório por natureza. É olharmos o diferente com desprezo e insegurança. No entanto, o homossexualismo é algo que está presente desde sempre. Não é algo novo. Nós todos sabemos que existe. E, mesmo assim, insistimos em marginalizá-los. Além do mais, foi comprovado cientificamente que não é uma doença. Insultar alguém pela sua escolha sexual é tão baixo quanto fazê-lo pela sua classe social, cor, idade, raça.

Indo um pouco mais a fundo. Caminhando pelo terreno da psicologia e sociologia. Há diversos estudos os quais explicam que ofender alguém porque ela é diferente não passa de medo. E é uma forma da sociedade controlar essas “anomalias”. Fazendo com que os diferentes se escondam e se sintam mal por assim serem. É uma forma simples e racional de controle. Uma vez entendido isso, a homofobia passa a perder seu sentido. Sustentamos preconceito e os desmoralizamos por medo. Mas, quem, de fato, deveria estar com medo? Nós ou eles? Creio que sejam eles. São eles que sofrem por serem diferentes todo dia. O que o governo precisa é conscientizar a população de que o preconceito é algo sem sentido e bruto. Uma atitude que tem arruinado vidas desde sempre. Vetar uma lei dessas é jogar mais obscuridade em cima de um tema que, na verdade, deveria ser tratado com muita sensatez. Einstein já dizia: “é mais fácil romper um átomo do que um preconceito.” É preocupante que um candidato à presidência trate um assunto deste porte dessa maneira. Porque, de fato, é muito mais fácil construir escolas, avenidas e hospitais do que livrar uma sociedade de pensamentos antiquados e preconceituosos.

Fabrício Bernardes

Les Nouveaux Riches

Quando me propus a escrever sobre o bairro paulistano Jardim Anália Franco, já sabia que não seria algo fácil. Os orgulhosos moradores do Anália normalmente, quando dizem onde moram, estufam o peito e dizem: “Na ZL… Quer dizer, no Jardim Anália Franco”. É difícil escutar essas duas informações disjuntas. Dizer Anália Franco no final da frase, para os habitantes desta região, é como uma desculpa para morar na Zona Leste.

A palavra que mais se escuta quando pedimos para descreverem a região é “bairro nobre”. E logo em seguida, “os apartamentos aqui passam de um milhão”. A história do Jardim Anália Franco é uma receita de bolo para os outros bairros que um dia sonham em ser nobres. Junte muitas casas de classe média e as derrube para construir vários prédios, construa um parque com restos de Mata Atlântica, faça uma lavagem cerebral nesses moradores e os faça crer que são os novos ricos da cidade, inflacione o bairro o máximo que puder; a cereja do bolo é o Shopping Anália Franco.

Nada melhor, portanto, do que começar com o centro comercial do bairro, a cereja do bolo. Em tons de cinza-pastelado, o shopping mais parece uma murada do que propriamente o abrigo de uma série de lojas. Na sua entrada principal, podemos ver um jardim conservado, grama bem cuidada, do naipe dos campos de futebol que vemos por aí. A calçada que leva à entrada do shopping claramente se destaca comparada à calçada normal da rua. Não é de se espantar que os moradores da extrema Zona Leste (piores inimigos dos habitantes do nosso querido jardim), quando desçam do ônibus, se maravilhem com a calçada, a grama, a arquitetura. É deduzível o pensamento deles: “Isso aqui é ZL mesmo?”. Avançando à entrada, o clima é de ostentação. O cheiro agradável tranquiliza o olfato, acostumado a vários estímulos não muito agradáveis no lado de fora. O nariz relaxa, o cheiro de lavanda entra e você tem uma grande vontade de que sua casa cheirasse igual. A sensação térmica é outra também. O ar-condicionado. Parece que o shopping é o paraíso na Terra. Mulheres bem vestidas com a coleção passada da Zona Sul, o cheiro de lavanda que corteja seu nariz, o clima agradável. A turbulência só ocorre quando chegam os forasteiros de Itaquera. Daí é salve-se quem puder.

Já que os estrangeiros chegaram, é melhor sair do shopping, ele está muito mal frequentado. Um passeio pelo parque do bairro parece uma boa pedida. O único problema é que não sabemos ainda o nome dele. Antes, se chamava Parque Esportivo dos Trabalhadores, depois virou Ceret. No entanto, soa mais luxuoso batizar o parque com o próprio nome do bairro, portanto, o nome foi mudado novamente e agora se chama Parque Anália Franco. Entre os quero-quero e periquitos-ricos que lá podemos encontrar e as longas pistas próprias para caminhada e atletismo, nos sentimos dentro de uma cúpula verde. Dentre as anciãs árvores que embelezam o parque, destacam-se aquelas que deixam cair suas lindas flores rosas claras no chão. Fazendo com que as madames que lá vão se exercitar, sintam-se como entrando no altar do casamento novamente. É puro luxo, digno dos luxuosos e ostentadores moradores do Anália Franco, Les Nouveaux Riches.

Já que o assunto é vanglória, agora me dedico a descrever os famosos prédios milionários. Descobri que nesse bairro, prédios brotam, não são construídos. E a tendência é só aumentar. Sacadas espaçosas, fachadas coloridas e formosas, arquitetura moderna, traços finos e leves. Em frente às fachadas, arvorezinhas cortadas no estilo francês em contraste com o ultraje de ruas esburacadas e mal asfaltadas em um bairro tão nobre. Fora dos prédios, vemos madames alcançando seus carros desengonçadas. É o mesmo pitoresco da alta sociedade paulista no século passado andando com roupas apertadas e quentes em calçadas desniveladas e em um calor infernal. Gozado é ver a mesma fidalga olhando com desprezo a doméstica que passa ao seu lado. Já que quando a madame encontra-se na Zona Sul, se sente acuada igual.

Ah, Les Nouveaux Riches, vocês são luxo, glamour e ostentação. Diria que o último se destaca mais dentre os três. Nenhum outro lugar melhor para abrigar tais figuras que o Jardim Anália Franco. A pedra rara da Zona Leste. Cordialmente, deixo meus sinceros votos que o resto da Zona Leste não os venha incomodar enquanto vocês se divirtam. E vida longa ao Anália Franco! Até quando o metrô chegar lá…

Fabrício Bernardes

Só os Loucos Sabem

‘Já que estava ali só para observar e aprender um pouco sobre percepção’

Caro leitor, poupemo-nos. Poupemo-nos da hipocrisia. Qualquer um, hoje em dia, sabe que vivemos em um mundo louco. Viver é a prova real de que o mundo equivale à loucura. Viver é uma loucura. Dá para acreditar que tem gente que tira vida de outro por 5 reais? Dá para acreditar que tem gente ganhando dinheiro em cima da mais pura desgraça que é ter um filho viciado? Dá para acreditar que pessoas se matam por RELIGIÃO?

Se você que está lendo nunca teve essa reflexão, você não é louco. Você é insano. Entrou em um estado de inércia existencial, coma neurológico. Você provavelmente precisa de um processo de reanimação axonial. Ler é um bom remédio para este tipo de doença.

Considerando que todos somos doentes porque vivemos no estado de e convivemos com a loucura, quem somos nós para julgar o outro? Quem sou eu para julgar seu jeito de viver a vida? Queridíssimo leitor, isso não é óbvio, ou eu estou ficando louco? Sabe qual é a coisa mais valiosa que carregamos junto com nossa existência?

Se você respondeu alma, ao meu ver, está errado. É a liberdade. Ora, de que adianta sermos animados por algo tão maravilhoso se não formos livres para fazer o que queremos? Preferiria não existir. Acontece que, para sermos livres, às vezes, temos que desapontar quem amamos. E, portanto, estamos sempre em um dilema existencial. Mas… Por quê? Por que querer ser livre, algo tão bonito, poderia desapontar alguém? Por que chegamos ao século XXI com um problema desse porte ainda para ser resolvido? Bom, pergunte para aqueles que simpatizam com o Espiritismo mas nasceram em uma família católica. Pergunte para quem nasceu homossexual numa família machista. Pergunte para quem nasceu negro em um país preconceituoso. Pergunte para quem é filho de latinos e mora na Espanha. Pergunte para quem é filho de brasileiros e mora em Portugal. Pergunte para quem é filho de argelianos e nasceu na França.

Caro leitor, pergunto-lhe de novo com toda a força da minha alma. Quem somos nós para julgar os outros?

Sabe o pior de tudo? É que só os loucos sabem disso.

Fabrício Bernardes