Valéria Legat final

- Eu finalmente havia encontrado o que procurava. Foi a prova real mais dolorosa que já realizei. Foi como levar 5 socos na boca ou ficar 5 minutos debaixo d’água sem ter como respirar. Tive tonturas, mal consegui sair do quarto para pegar um copo de água. Pensei comigo: Até quando?

Valéria estava visivelmente cansada. Contar tudo isso foi extremamente desgastante, mas ela queria falar mais:

- O pior de tudo é ter que fingir que está tudo bem. Ter que mentir a uma das minhas melhores amigas, a Paula, que conheceu Klaus, dizendo que fora uma pena ele estar namorando. Nada mais do que isso. Porque, afinal, quem se apaixona em duas noites? Quem sou eu, senão uma louca, para ainda lembrar desses momentos de felicidade como se fosse ontem? Por que eu ainda não consegui superar isso? Deve ser porque eu tinha tudo em minhas mãos naqueles momentos. Uma boa amiga, um bom companheiro, num bom lugar, com uns bons drink. Desculpe a piada infame.

A moça, arrasada pelas palavras que proferira, simplesmente abaixou os olhos cansados, como se tivesse perdido uma luta de boxe. Estava sangrando, com hematomas por dentro e, ao seu lado, o juiz estava levantando o braço da solidão, que, invicta, ganhara mais uma batalha contra Valéria. Luís, incomodado pela estranheza do momento, achou válido se pronunciar.

- Valéria, escute… Existem algumas coisas que você precisa entender. Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para dar conselhos, mas me sinto na obrigação de dizer algumas coisas. Como você sabe, eu sou um garoto de programa. Portanto, tenho que me adaptar às mais diversas situações — e o que eu faço não é nada difícil. Quantas vezes você já não foi quem não era uma noite? Por um dia? Por uma semana? Como você pode ter certeza de que esse tal de Klaus era a pessoa certa se você apenas o conheceu por horas? E se ele estava fingindo ser o que não é naquela noite? Eu faço isso durante todo meu “expediente”. Garanto a você que não é tão difícil. Por uma noite, não. Difícil mesmo é esconder quem você é por uma vida. Além disso, seu problema não é o Klaus, nem seu ex-namorado, nem qualquer outro caso. O problema está em você mesmo. Sabe por que você não consegue achar o que quer? Porque você está procurando. Você está vivendo para se apaixonar, você está transformando o amor em um objetivo de vida, você está fazendo planos em cima dele. Consequentemente, você idealiza uma figura perfeita, como um príncipe que vai chegar vestindo branco e montado em um cavalo para lhe buscar. E, sinceramente, em todos os anos que você viveu, você achou esse príncipe? Não. Ele é ideal, só existe no plano das ideias. Você está personalizando e projetando a sua felicidade em um homem que não existe. Por outro lado, e isso eu mesmo pude comprovar, a tendência é encontrar amores (e amizades também) verdadeiras e duradouras no momento em que você estiver no ápice da felicidade e realização consigo própria. Correndo atrás dos seus objetivos e desenvolvendo-se como um ser humano. E então, nesta jornada para se sentir completa e satisfeita com você mesma, você acabará encontrando pessoas com as mesmas aspirações. Valéria, acorde! Você não pode ficar parada na estrada com uma placa de papelão apontada para os carros que passam dizendo “PRECISO DE UM NAMORADO”. Você pararia para dar carona a esta pessoa? Acho que não. Só pessoas vazias como esse Klaus que, provavelmente, no dia seguinte, colocariam-lhe para fora do carro como ele fez. Você precisa percorrer seu próprio caminho. Quem sabe na estrada você não conhece alguém que realmente lhe mereça?

Valéria, que estava com os olhos murchos, agora os tinha arregalados. Ela havia totalmente subestimado Luís, que tinha uma sabedoria completamente diferente da garota. O garoto havia lido os sinais da vida há muito tempo, sem precisar ter estudado nas melhores escolas nem faculdades, como Valéria.

- Nossa, Luís, muito sábio o que você disse. Realmente vou levar para frente. Devo a você meu mais sincero obrigado.

Valéria desligou o gravador, deu um abraço amigável em Luís e tentou, de todas as formas, pagar pelas horas que ele havia ficado com ela escutando sua história. Mas ele se recusou. A jovem pressentiu que, seguindo sua estrada, sem procurar, nem criar expectativas, havia encontrado um grande amigo; exatamente como descrevera Luís. E sob aquela noite fresca e quieta de quarta-feira, pois já havia passado da meia-noite, uma grande amizade foi selada, debaixo da maior proteção que qualquer relacionamento poderia ter: o (bom) acaso.

Fabrício Bernardes

Até quando?

Esse é o canto, o grito, o texto de alguém que sofre. Alguém que muda e desmuda. Alguém que está sozinho. Alguém que gostaria de até estar escrevendo o texto sobre outro alguém, se este alguém já não tivesse deixado você há tanto tempo que agora a única coisa que lhe resta é lutar contra sua própria solidão.

Gostaria que você fosse o culpado pela minha solidão. Por essa dificuldade de estar só comigo mesmo. Por essa vontade de ouvir músicas tristes no meu iTunes. Por essa compulsão por experimentar sentimentos nas músicas, já que o único momento em que posso me sentir pleno comigo mesmo é escutando canções, que nada mais são do que experiências dos outros.

Eu até queria ter alguém para xingar, bater, brigar, odiar. Mas a única coisa que odeio é essa solidão que vive em meu peito. Eu até queria achar um culpado. Mas quanto mais penso, mais chego à conclusão de que o culpado sou eu mesmo. Por isso, estou escrevendo sobre amor; mas não existe outra pessoa. Pode até ser que ela(s) exista(m), mas o fato é que não tem por que pensar em e nem culpar você. Porque você já me deixou há tempo e eu não vivo mais com você, nem por você, nem nada. Mas pela minha solidão. Que me dilacera, machuca, prende pedras de 100 kilos em cada um dos meus calcanhares toda a vez que eu tenho que andar para pegar o metrô para ir trabalhar e sei que eu não vou ter ninguém me esperando na hora que eu sair da redação.

E o pior é que eu só preciso de um diário (ou um blog), dedos, uma música triste de fundo e saber ler e escrever para poder jogar tudo isso aqui como se eu fosse Fernando Pessoa naquela história mirabolante inventada por ele mesmo de escrever inúmeros versos por meio de uma inspiração randômica, não se lembrar direito e só retomar a consciência depois com tudo escrito. Na verdade, não tem nenhuma função cognitiva cerebral nestas palavras, a não ser os moldes gramaticais. O pior é que eu não faço nem ideia do que eu falei no começo deste texto e, se eu pudesse, escreveria, escreveria, escreveria, escreveria, escreveria até meus dedos sangrarem se soubesse que, desta maneira, poderia tirar, ao menos um pouco, este vazio que me preenche. Se, pelo menos, uma ilusão infantil pudesse tirar esse peso das minhas costas por pelo menos alguns dias.

Tamanha é minha dor.
Dá até vergonha de compartilhar.
Solidão, até quando?

Fabrício Bernardes