Eu quase perdi este blog

Fiquei muito tempo sem escrever. Foi tanto tempo que perdi o domínio deste blog durante meses. Também perdi o domínio de uma série de outras coisas na minha vida neste entremeio. A verdade é que não sei mais a diferença entre viver dez ou 1 000 dias. Pode ser que nunca soubesse. Mas isso começou a me incomodar só agora. O tempo passou tão rapidamente que ficou realmente difícil de contabilizá-lo. Engraçado que, ao mesmo tempo, sentia o peso de cada dia que passava em que não tinha vontade ou inspiração alguma para escrever — no blog ou em qualquer lugar. Estava me sentindo como uma bexiga cheia de ar, prestes a explodir.

Se alguém um dia alguém disser que as pessoas escrevem por uma razão que não seja egoísta, não acredite. Os bons escritores são extremamente egoístas — e presunçosos. Eles podem até inventar histórias que, à primeira vista, parecem não ter nada a ver com suas vidas. Mas, na verdade, apenas querem esvaziar uma avalanche de emoções que existe dentro deles. No final das contas, estarão escrevendo sobre eles.

Veja o exemplo de uma obra chamada “Memórias de Adriano”, da escritora belga Marguerite Yourcenar (vou usar essa obra como exemplo, mas poderia ser qualquer outra). O romance mistura realidade com ficção num fluxo de consciência de Adriano, um dos mais célebres imperadores romanos, contado em primeira pessoa pelo próprio Adriano — ou pela própria Yourcenar. A autora teve tamanha sagacidade ao escolher as frases que iriam rechear o livro que, por vários momentos, é normal se esquecer de que não é propriamente Adriano quem escreveu o livro. “Foi dessa maneira, com uma mistura de prudência e audácia, de submissão e revolta cuidadosamente calculadas, de extrema exigência e prudentes concessões, que acabei finalmente por aceitar-me a mim mesmo”, diz Adriano — ou Yourcenar — numa parte da obra. A autora se conectou tão bem com a vida do imperador que ficou realmente difícil separar um do outro. Ela estava se pronunciando por meio dele. Se apropriou dele para jogar todo o seu egoísmo — seus sentimentos, pontos de vista, angústias, frustrações — no mundo. Mas de uma maneira formidável, convenhamos. Afinal, Yourcenar foi uma das maiores escritoras do século passado. Foi a primeira mulher nomeada à Academia Francesa de Letras.

Pois bem. De volta ao mundo dos mortais, aqui estou eu, humildemente tentando fazer algo parecido com o que Yourcenar fez — usar outras pessoas, fatos, histórias para justificar meu egoísmo. Engraçado. Quando eu trabalhava em redação de revista, sempre chegava um momento em que eu ia ter de escrever minha reportagem para entregá-la ao meu editor — quer me sentisse preparado, quer não. E era sempre nessas horas que empacava. Me dava branco, achava que tudo estava uma merda, que não ia dar tempo, que faltavam informações. Toda vez que me encontrava nesta situação, pensava em quão fácil era escrever neste blog. E pensava em como queria que os textos das matérias saíssem tão espontaneamente quanto saíam os deste blog.

O problema é que, ultimamente, escrever aqui tem sido o mesmo parto que era escrever nas revistas. Não foi fácil fazer este post. Comecei a escrevê-lo bêbado um dia, depois de chegar da balada — mas não consegui finalizá-lo. Só na terceira vez que voltei aqui, consegui desenvolver algo com começo, meio e fim (naquelas, né). Não sei se tem a ver com o fato de eu não trabalhar mais em redação — pode até que, em parte, seja por causa disso. Mas, na verdade, acho que o maior problema é aquele diacho do egoísmo mesmo. Só quero escrever para falar de mim, eu, eu, eu. Como fazer este texto ser interessante para os outros também? Como representar outras pessoas? “Tente falar de amor”, digo a mim mesmo. “Tente falar de algo genérico da sua geração, a Y, estilo aqueles que bombam toda semana no Facebook”, digo a mim mesmo. Não sai nada, nadica de nada.

Talvez seja fase, mas está difícil me conectar com os outros. Está difícil traduzir sentimentos em palavras. Desculpe, leitor, se você veio aqui procurando algo mais interessante. Mas isto é o máximo que posso oferecer. Se serve de lição, seja egoísta às vezes. Faça os outros perderem tempo com você (assim como você perdeu o seu lendo isto aqui). Tudo o que é grandioso, homérico, digno de imperadores, começou com um simples ato de egoísmo. Ou você acha que Adriano se tornou imperador à toa? Eu já estou me sentindo bem melhor agora. Terminei o texto sem roer uma unha.

Adriano, o Imperador, e Marguerite Yourcenar:

Adriano, o Imperador, e Marguerite Yourcenar: as boas — e magnânimas — decisões começam no nosso íntimo, no nosso espaço mais egoísta

Fabrício Bernardes

Pílulas de eternidade

A vida é feita de longas épocas sofridas e de pequenos momentos deliciosos. Nossos dias têm 24 horas. Nossos meses têm em média 30 dias. Nossos anos têm 365 dias. Nossos séculos têm 100 anos. Mas nossa memória deixa de lado toda essa numeralha e só guarda o que é especial. O que realmente nos marca — seja para o bem ou para o mal. O engraçado é que podem ser momentos extremamente intrínsecos e restritos. Ou histórias de terceiros que você escutou. Ou mesmo coisas simples pelas quais passou, mas que só você tem o poder de enxergar complexidade nelas. Chamo esses momentos de pílulas de eternidade. Pois o que pode não se repetir ficará guardado para sempre em nosso inconsciente. É quando a eternidade não passa de um momento e os momentos são eternos. E tudo isso regado aos melhores molhos para acompanhar a perpetuidade: o do acaso e o da simplicidade. Posso enumerar três desses instantes.

 

Imagem retirada do site www.tattodonkey.com

Laços infindáveis: a eternidade de um instante

 

1- Um dia, no começo do ano passado, estava atravessando a porta de vidro do meu andar na redação para ir pegar um café no térreo. Estava preocupado, com sono e mal-humorado. A faxineira, que estava passando por perto, me disse algo muito importante. “Sorria, menino. Você é muito mais bonito sorrindo.” Em seguida, foi embora, abrindo a mesma porta de vidro pela qual passei e continuou fazendo seu trabalho. Eu  não me lembro mais da feição da mulher, mas nunca vou me esquecer dessas palavras. Tenho certeza de que era um anjo disfarçado. E eu nunca tive a chance de agradecê-la — nem de sorrir para ela.

2- Em junho do ano passado, estava sentado em um ginásio de esportes de uma cidade no interior de São Paulo chamada Jacareí conversando com uma amiga. Estávamos nos Jogos Universitários de Comunicação e Artes, também conhecido como JUCA, do qual a Cásper Líbero participa. Ela disse que sentia muita falta do ex-namorado. E disse que só fumava — e somente aquele cigarro — para ficar com o cheiro do ex nas pontas do dedo. Fiquei tão tocado com a história que não consegui nem responder minha colega.

3- No ano passado, me formei em jornalismo pela Cásper Líbero. A festa de formatura aconteceu neste mês, em fevereiro. Queria muito passar o tempo com minhas duas melhores amigas. Mas não as encontrava de jeito nenhum. No entanto, encontrei familiares de uma delas. Eles fizeram uma roda em mim e pularam, dançaram e gritaram meu nome enquanto eu estava no meio deles. Nunca me senti tão querido numa noite.

Fabrício Bernardes

Clepsidra

Em meados de 2008, o garoto estava sentado em sua carteira, em seu colégio, tendo a primeira aula de Simbolismo português da sua vida. A professora, já conhecida há mais de um ano pelo aluno, hipnotizava-o com suas palavras. Em meio às cobranças do vestibular, das provas que estavam chegando e de qualquer outra preocupação que poderia atingir o menino, a aula de literatura, ensinada por uma educadora querida, era uma das poucas horas em que podia se esquecer das suas frustrações. Não que sua vida fosse ruim, longe disso. Talvez, a pequenez de ser um estudante de Ensino Médio fosse o que mais lhe afligisse. Também por isso, a cada aula de literatura que tinha, saía mais leve e realizado. Pois estava aprendendo sobre outras maneiras de viver e encarar a vida, desviando-se da pequenez de viver em um bairro do qual saiu pouquíssimas vezes antes de entrar na faculdade. Era como se as aulas de literatura fossem a única maneira de abrir portas, de diminuir sua insignificância. Enquanto que, nos outros momentos, era dominado por preocupações menores, porém válidas para aquela época.

Um momento icônico de sua vida, por mais estático que tenha sido – uma aula de uma hora e meia sobre Simbolismo em Portugal -, foi quando aprendeu sobre Camilo Pessanha. Ele estava maravilhado com o trabalho e a experiência de vida do poeta. Como o escritor vivera em Macau, aprendeu chinês e, por consequência, teve uma poesia rica em símbolos, representações, alegorias e alusões como nenhum outro. Pessanha teve apenas uma obra publicada: Clepsidra.

Cinco anos depois, o mesmo garoto viu-se esperando uma amiga no Shopping Iguatemi para, em seguida, irem jantar. Subiu a rampa de um dos centros comerciais mais chiques de São Paulo e se espantou ao presenciar uma antiga figura querida em sua mente. Ele estava diante de um relógio d’água. E, então, o rapaz se transportou para o seu quarto, de novo em 2008, no momento exato em que estava fazendo sua lição de casa e encontrou uma foto de uma clepsidra em seu livro de literatura. Ele era exatamente o mesmo garoto que estava sentado estudando há cinco anos. Mas tudo estava estranhamente diferente e, bizarramente, encaixado numa harmonia estrondosa.

O tempo.

Clepsidra é uma palavra grega, que significa “relógio d’água”. Serve para medir o tempo, como uma ampulheta. Usar água para medir o tempo é uma ironia dos gregos, convenhamos. Parece que eles estavam rindo e nos dizendo que o tempo é líquido, ele se vai por nossas mãos e, uma vez que escapa de nós, ele não volta; é irreversível. Além disso, Hidra é uma serpente gigantesca, com inúmeras cabeças, que, à medida que são cortadas, nascem e se desenvolvem novamente. Somos impotentes, frágeis e toscos diante de Cronos, deus do tempo.

Camilo Pessanha fez uma escolha formidável de título à sua única obra publicada. Ele realmente sabia mexer com simbologia. E o garoto, no meio de toda esta grandeza – do tempo, dos deuses gregos, dos poetas portugueses -, não tinha mais vergonha de ser pequeno. Pois, como uma vez disse Dalai Lama, “se você acha que é pequeno demais para fazer a diferença, tente dormir com um mosquito”. Afinal, tudo estava encaixado quase que divinamente. Cada vez mais, o garoto tinha convicção de que nada era por acaso e de que tudo o que passou na sua vida tinha um sentido.

Então, ao encarar o relógio d’água do Iguatemi, sabia que era o mesmo. Que nada mudara. Que ainda “vivia como seus pais” e que era profundamente agradecido por tudo. Pois, só chegara onde chegou porque era, justamente, o mesmo de cinco anos atrás. Porque teve uma professora de literatura extraordinária, que lhe mostrou inúmeros pontos de vista, que o fez ser apaixonado pela literatura portuguesa, que o “apresentou” a poetas notáveis, como Antero de Quental, Camilo Pessanha, Mario de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa. E depois desses dois anos com essa mesma professora, estava sentado novamente numa carteira, porém, numa ocasião diferente. Estava prestando o vestibular da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero e, na redação da prova, citou Mário de Sá-Carneiro e, semanas depois, soube que foi aprovado. E foi nessa instituição de ensino que conheceu pessoas maravilhosas, professores incríveis, ensinamentos singulares, que lhe proporcionaram um estágio em uma grande revista e… Ali estava o garoto. Diante da inevitabilidade e onisciência do tempo. Encarando um dos mais belos símbolos da humanidade. Em uma cidade frenética de 10 milhões de habitantes. Em um país símbolo de mudança. Em um continente apelidado de Novo Mundo. Em um planeta com seres humanos. O garoto não tinha motivo algum para se sentir pequeno. E o recado dado – seja lá por quem – nesta conexão de cinco anos, era claro. Somos ilimitados e únicos. Qualquer momento em nossa vida pode ser o último. Nada é por acaso. Sentimos dor porque estamos vivos. É necessário desconforto para estar confortável. Tudo tende ao equilíbrio. E, dessa nossa condição, até os deuses nos invejam.

Fabrício Bernardes