De noite, com a minha idade

Neste momento, me sinto como alguém que ainda tem idade para chorar. Não tenho?

Porque o que você disse, o que você escreveu, o que você fez pode fazer mal. Mas o que você deixou de fazer pode matar severamente.

Sou um grande falso quando finjo alegria. Quando finjo simpatia. Quando finjo um sorriso.

Ver você indo embora no aeroporto sem saber se ia voltar algum dia e ter de fingir que estava tudo bem… fui um grande mentiroso.

A verdade é que eu cansei das minhas muralhas. Elas protegem mas também demandam uma manutenção absurda, às custas da minha alma. Além do mais, basta você me atacar com sua retórica sofista para me destruir completamente.

Com o argumento de que ninguém pode estar 100% correto — nem eu, nem você.

Então, eu nunca vou ganhar.

Então, me resta chorar.

Chorar se decidir te perdoar. Chorar se decidir não te perdoar. Porque minha mãe me sugeriu que eu devo perdoar as pessoas. Mas seria justo perdoar da boca para fora? Seria justo pensar que você precisa de perdão por deixar de me amar?

Um dia, você me trancou no quarto e me convenceu de que estava cuidando de mim. Nesse par de horas pensei no quanto te odiava por deixar eu te amar tanto.

Mas, aos poucos, este amor que você outrora sentiu por mim foi se esvaindo como um perfume na pele depois de um tempo. Até o momento em que você não sentia mais nenhum aroma. Até que o que restasse fosse apenas uma memória olfativa.

Você, por outro lado, deixou uma tatuagem em mim. Algo permanente. Que demora décadas e décadas para perder sequer um pouco de brilho. Também algo que dói muito para retirar da pele. Então, seria justo comigo mesmo te perdoar?

Você diz que tem que viver sua vida e eu até acredito que o esteja fazendo. Mas nada vai tirar da minha cabeça o pensamento de que, juntos, poderíamos conquistar o mundo. Eu tenho certeza disso porque, aos 16 anos, passei na frente do seu liceu e tirei uma foto na frente dele sem nem imaginar que você existia. Porque, quando estava lá, uns locais vieram falar comigo no elevador, sendo extremamente simpáticos, mas eu praticamente não entendi nada. Porque eu sabia que estava ligado àquele lugar por uma força inexplicável. Porque, mesmo após mais de 10 anos, eu ainda me lembro de detalhes como o cheiro das plantas do parque que visitei. O que a moça do McDonald’s disse para mim quando falei com ela em inglês. A cor do cinza que pintava o céu naqueles dias. O que eu respondi, exatamente, para aqueles locais no elevador. E assim vai. Tu comprends ce que je te dis ?

E se não está certo para mim, não é possível que esteja 100% certo para você também. Não foi isso que você me disse sobre ter razão? Por acaso você ficou cego? Perdeu sua razão em relação às suas emoções? Ninguém vai amar você tão brutalmente. Tu seras toujours mon champion.

Um dia, quero ser um campeão como você. Quero ter alguém que me dê de tudo — amor, alegria, tristeza e verdade. Mas alguém que também me olhe como o campeão que eu via em você. Porque toda esta alegria perdida, todo este tesão ignorado, toda esta saudade enterrada; tudo isso que você me causou, não há de ser eterno. Correto?

No prefácio do breu da noite, no frio do inverno, gritando mentalmente para que todos os anjos possam me escutar, involucrado pelo meu pesar, me resta chorar. Como uma criança, como um adolescente, como um adulto. Tanto faz. Chorar, em qualquer idade na qual eu me encontre.

Complimenti per la vita da campione. Insulti per l’errore di un rigore.

Tiziano Ferro

FABRÍCIO BERNARDES