Amor sem amor

Tears (should) stream
Down your face
When you lose something you cannot replace

Então, lá estavam eles. Ela estava nervosa. Ele era um exibicionista. Ela não fazia questão nenhuma de fazer grandes reflexões do porquê se encontravam lá naquele dia, naquela noite. Em resumo, eles estiveram juntos por algum tempo. Se amaram — pelo menos ela o amou. A vida os separou, mas não completamente. Nada fora superado. Ela tratou de lidar com as lembranças da maneira mais rápida e dolorosa possível. Como se tivesse ido a um parque e lá tivesse enterrado todos os bons momentos — e não foram poucos — na areia. Mas certos dias aquelas memórias se enchiam de tanto brilho e luz que ultrapassavam a areia rude que outrora as ofuscou. Iluminavam o parque inteiro mesmo que fosse de noite. E ela chorava. Mas por dentro, nunca por fora. Cascatas jorravam do seu coração, mas seus olhos eram mais fortes que os diques holandeses. Não deixavam escapar uma gota d’água. O que era para ser um resumo foi uma grande reflexão na cabeça de Valéria, que estava sendo interrompida.

- Você não vai tirar a roupa? – indagou Pierre.

- Tire você primeiro.

Foi tudo casual. Mas era a única chance de ter Pierre de volta — nem que fosse por alguns instantes.

- Quero ser sua esta noite.

- Só esta noite?

- Se dependesse de mim, seria para sempre. Você sabe – retrucou Valéria.

Silêncio. Ele tirou a blusa e eles começaram. Não estava sendo tão maravilhoso quanto esperara. Na verdade, ela não estava conseguindo nem ficar excitada. Mas o que a gente não faz por quem a gente ama? Mesmo por quem um dia já nos deixou.

As coisas estavam indo bem. Até que Valéria cometeu mais uma das suas várias burrices.

- Eu te amo.

As três palavras ecoaram por todos os objetos do quarto do motel. Criado-mudo, abajur, telefone, paredes, televisão, portas, tapetes e até na cara do Pierre, que respondeu sem jeito.

- Eu também.

Depois de uns 30 segundos, Pierre acendeu as luzes.

- Te enxergo melhor assim.

E eles continuaram fazendo amor sem amor. Até que toca o celular dele.

- Um minuto, ok?

Passaram-se vinte. E ele entrou no banheiro para falar em particular. Valéria se sentiu a pessoa mais burra, insossa e sem valor do mundo. “Nem com os caras que eu conheço há uma semana isso acontece”, pensou. “Eles nem atenderiam o celular.” Valéria foi mais burra ainda e escreveu um bilhete. “Vou dormir em casa. Beijos.” E foi embora. E, igual a todos os dias que passam, nutriu um ódio ainda maior pelo amor que sentia por quem já amou sem culpa. Foi dormir em casa, mas não conseguiu dormir. Olhou para o seu celular e não recebera nenhuma mensagem de “desculpa”. Fechou os olhos e tentou dormir de novo. Conseguiu — mas acordou cheirando a Pierre. E, de novo, não conseguiu chorar.

Valéria Legat: é difícil esquecer o que a gente nunca quis olvidar

Valéria Legat: é difícil se esquecer do que a gente nunca quis se olvidar

Fabrício Bernardes

Valéria Legat final

- Eu finalmente havia encontrado o que procurava. Foi a prova real mais dolorosa que já realizei. Foi como levar 5 socos na boca ou ficar 5 minutos debaixo d’água sem ter como respirar. Tive tonturas, mal consegui sair do quarto para pegar um copo de água. Pensei comigo: Até quando?

Valéria estava visivelmente cansada. Contar tudo isso foi extremamente desgastante, mas ela queria falar mais:

- O pior de tudo é ter que fingir que está tudo bem. Ter que mentir a uma das minhas melhores amigas, a Paula, que conheceu Klaus, dizendo que fora uma pena ele estar namorando. Nada mais do que isso. Porque, afinal, quem se apaixona em duas noites? Quem sou eu, senão uma louca, para ainda lembrar desses momentos de felicidade como se fosse ontem? Por que eu ainda não consegui superar isso? Deve ser porque eu tinha tudo em minhas mãos naqueles momentos. Uma boa amiga, um bom companheiro, num bom lugar, com uns bons drink. Desculpe a piada infame.

A moça, arrasada pelas palavras que proferira, simplesmente abaixou os olhos cansados, como se tivesse perdido uma luta de boxe. Estava sangrando, com hematomas por dentro e, ao seu lado, o juiz estava levantando o braço da solidão, que, invicta, ganhara mais uma batalha contra Valéria. Luís, incomodado pela estranheza do momento, achou válido se pronunciar.

- Valéria, escute… Existem algumas coisas que você precisa entender. Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para dar conselhos, mas me sinto na obrigação de dizer algumas coisas. Como você sabe, eu sou um garoto de programa. Portanto, tenho que me adaptar às mais diversas situações — e o que eu faço não é nada difícil. Quantas vezes você já não foi quem não era uma noite? Por um dia? Por uma semana? Como você pode ter certeza de que esse tal de Klaus era a pessoa certa se você apenas o conheceu por horas? E se ele estava fingindo ser o que não é naquela noite? Eu faço isso durante todo meu “expediente”. Garanto a você que não é tão difícil. Por uma noite, não. Difícil mesmo é esconder quem você é por uma vida. Além disso, seu problema não é o Klaus, nem seu ex-namorado, nem qualquer outro caso. O problema está em você mesmo. Sabe por que você não consegue achar o que quer? Porque você está procurando. Você está vivendo para se apaixonar, você está transformando o amor em um objetivo de vida, você está fazendo planos em cima dele. Consequentemente, você idealiza uma figura perfeita, como um príncipe que vai chegar vestindo branco e montado em um cavalo para lhe buscar. E, sinceramente, em todos os anos que você viveu, você achou esse príncipe? Não. Ele é ideal, só existe no plano das ideias. Você está personalizando e projetando a sua felicidade em um homem que não existe. Por outro lado, e isso eu mesmo pude comprovar, a tendência é encontrar amores (e amizades também) verdadeiras e duradouras no momento em que você estiver no ápice da felicidade e realização consigo própria. Correndo atrás dos seus objetivos e desenvolvendo-se como um ser humano. E então, nesta jornada para se sentir completa e satisfeita com você mesma, você acabará encontrando pessoas com as mesmas aspirações. Valéria, acorde! Você não pode ficar parada na estrada com uma placa de papelão apontada para os carros que passam dizendo “PRECISO DE UM NAMORADO”. Você pararia para dar carona a esta pessoa? Acho que não. Só pessoas vazias como esse Klaus que, provavelmente, no dia seguinte, colocariam-lhe para fora do carro como ele fez. Você precisa percorrer seu próprio caminho. Quem sabe na estrada você não conhece alguém que realmente lhe mereça?

Valéria, que estava com os olhos murchos, agora os tinha arregalados. Ela havia totalmente subestimado Luís, que tinha uma sabedoria completamente diferente da garota. O garoto havia lido os sinais da vida há muito tempo, sem precisar ter estudado nas melhores escolas nem faculdades, como Valéria.

- Nossa, Luís, muito sábio o que você disse. Realmente vou levar para frente. Devo a você meu mais sincero obrigado.

Valéria desligou o gravador, deu um abraço amigável em Luís e tentou, de todas as formas, pagar pelas horas que ele havia ficado com ela escutando sua história. Mas ele se recusou. A jovem pressentiu que, seguindo sua estrada, sem procurar, nem criar expectativas, havia encontrado um grande amigo; exatamente como descrevera Luís. E sob aquela noite fresca e quieta de quarta-feira, pois já havia passado da meia-noite, uma grande amizade foi selada, debaixo da maior proteção que qualquer relacionamento poderia ter: o (bom) acaso.

Fabrício Bernardes

Valéria Legat parte IV

Valéria deu uma pausa na história. Percebeu que havia contado uma noite inteira em dois blocos imensos de fala. Precisou respirar um pouco. Olhou seu gravador, mirou nos olhos de Luís, que escutava tudo com atenção e curiosidade, esperando saber o que aconteceria no final. Embora soubesse que a história não deveria acabar bem devido a todas as circunstâncias na qual Valéria se encontrava.

Era visível o alívio de Valéria ao ter terminado a parte mais emblemática de sua história. Os momentos mais felizes com Klaus foram, justamente, os que mais teve dificuldade para contar e dos que menos se lembrava. A moça não sabia exatamente se era por que estava embriagada naquela noite, ou se a felicidade foi tanta que, com a decepção, ela foi aos poucos se esquecendo do que acontecera; ou se a felicidade, e não seus detalhes mais sórdidos, fosse tudo e apenas o que ficou marcado em seu peito.

- Pois é. Eu cheguei em casa e fui dormir. Esperando, pelo amor de Deus, que ele se manifestasse dando continuidade a tudo aquilo. Quando acordei, vi uma mensagem de Klaus! “Me diverti muito ontem à noite. Obrigado!”. Mais uma vez, pensei: “não foi um poema, nem a coisa mais bonita que já li, tampouco uma declaração de amor. Mas foi a continuidade do que eu queria que continuasse.” Não foi a mais bonita, mas foi a mensagem, o que eu queria e precisava naquele momento. Àquela mensagem, respondi que também tinha me divertido muito e comecei uma conversa. Estava tudo dando certo! Em seguida, ele me perguntou como me achava no Facebook. Respondi-lhe: “procure por Valéria Legat”. E não obtive mais resposta. Achei estranho. Mas ignorei. Segundo o que Klaus havia dito na conversa, ele iria sair com seus amigos. Pensei que não pôde responder porque devia estar fora de casa, algo assim. O problema é que o dia seguinte amanheceu, fui ao trabalho, depois ao francês, e nada de resposta. Mandei-o uma outra mensagem e ele respondeu que estava numa “correria louca”. Hum.

- Ixi, moça, não me está cheirando bem isso – pronunciou-se Luís depois de muito tempo quieto.

- Espere, depois você faz comentários, por favor. Neste domingo esperando a resposta de Klaus, também me dei conta de que havia perdido minha Carteira de Habilitação. Mais uma vez, tentei falar com ele, perguntando-lhe o que ele iria fazer naquele dia — era uma quarta-feira. Ele não respondeu a minha pergunta, mas manifestou-se dizendo que encontrara minha CNH ao fazer uma limpeza no interior de seu carro. Pensei que era a oportunidade para nos resolvermos, ou então marcarmos outro dia para nos vermos. Ou, pelo menos, para poder vê-lo novamente, nem que fosse a última vez. Então, marcamos numa sexta-feira, ao meio-dia, no Conjunto Nacional, onde eu ainda trabalho, para que ele pudesse me devolver o documento. Ele estava, como sempre, lindo. Porém, muito diferente. Não tinha mais cara de jovem e eu estava parecendo uma criança perto dele. Sua altura já não era mais ideal, ele era grande demais. Seu cabelo não estava mais jogado para a frente da sua testa, ele estava posto para trás com gel. Ele estava de terno e era de dia. Parecia que, daquela noite, só ele havia crescido. Eu, pelo contrário, era ainda aquela garota da Sarajevo, da balada, de sábado à noite. Ele, não. Ele disse que encontrara um emprego novo, que era chefe. Enquanto que eu estava (e estou) longe disso. Tentei conversar, ser legal, alongar o momento pedindo-lhe para que fosse à Livraria Cultura comigo, mesmo que não tivesse nada demais para comprar. Ele acatou o pedido, mesmo parecendo um pouco contrariado. Até o momento em que ele disse: “você entra ao meio-dia no trabalho, não é? São 12:10, está na hora de entrar. Você está atrasada”. Então, embora houvesse escutado Lucky Man do The Verve o caminho inteiro do metrô até chegar à Avenida Paulista, aquele não era meu dia de sorte. O encontro com Klaus fora um fiasco e eu estava arrasada. Mesmo assim, quando cheguei em casa depois de um dia maçante de trabalho, resolvi tirar a prova real. Mandei mais uma mensagem para Klaus perguntando-lhe se não podíamos nos ver novamente. Ele contestou: “é que eu estou namorando. Desculpe”. (continua)

Fabrício Bernardes

Valéria Legat parte III

Não era à toa que Valéria estava gravando tudo o que dizia. Só de contar aquilo, já estava se sentindo mal. E sabia que, provavelmente, nunca mais proferiria tais palavras com tamanha riqueza de detalhes. Seu coração batia mais forte, seus músculos se enrijeciam e ela começava a ter ânsia de vômito. Mas estava decidida a ir até o final.

- Depois disso, voltei para casa. Tinha tudo até que dado certo. Dormi. Então, a partir daí, tudo começou a dar realmente certo. Tão certo que eu comecei a desconfiar. Por isso, comecei a enganar eu mesma afirmando ao meu subconsciente que não me importava. Ele me mandou uma mensagem. Foi uma coisa idiota. Totalmente fática, só para iniciar uma conversa. Mas, afinal, eu não precisava de mais do que aquilo. E nem esperava, de qualquer forma, um poema de amor. O fato é que ele veio falar comigo. Perguntei-lhe se ele ia fazer algo naquele dia. Ele disse que não. Sugeri de irmos à balada Sarajevo, na rua Augusta. Ele aceitou. Por precaução, levei minha amiga. Não queria correr o risco de perder uma noite de final de semana caso ele não aparecesse. Entramos praticamente ao mesmo tempo. Avistei-o pegando a comanda no caixa. Cumprimentei-o com um beijo no rosto e um abraço. Em seguida, apresentei-o à minha amiga Paula. Pareceu que eles se entenderam bem logo de primeira. Fiquei aliviada. Embora ela tenha ficado brava no começo dizendo que não havia cabimento ela vir junto comigo para um encontro a dois, Paula se divertiu bastante aquela noite. Assim como eu.

Ao pronunciar essas três palavras finais, Valéria estremeceu em um calafrio e Luís se assustou.

- Está tudo bem?

- Sim. Continuemos. Fomos os três ao bar e pedimos uma cerveja. Minha amiga, Paula, não bebe cerveja, por isso pediu algum destilado do qual não me lembro mais. Eu e Klaus estávamos abraçados e conversando com ela. Foi quando descobri que ele tinha 28 anos. Ele estava, novamente, lindo. Uma camiseta branca, debaixo de uma camisa verde e calça bege. Novamente não me lembro de seus calçados. Seu cabelo, com a franja para frente, contrastava com sua feição de um homem de quase 30 anos e me fazia pensar em como Klaus era atraente e, naquela noite, ele era meu. E eu dele. Além disso, o alemão se mostrou uma pessoa extremamente divertida, estudada e liberal. Requisitos para mim. Estava começando a pensar que era impossível ter encontrado alguém tão formidável em uma saída despretensiosa de sexta-feira. Começamos a beber e ficamos mais felizes ainda. Dançamos música brasileira remixada na pista de cima da Sarajevo, bebemos tequila, cerveja, rimos, sorrimos. Minha sobriedade ia embora, mesmo que estivesse exalando felicidade. Em um momento, fiquei olhando para a face do Klaus e refletindo em como tudo, bizarramente, se encaixava. Eu era francesa, ele era alemão. Eu sou paulistana e ele carioca. Eu estou na segunda faculdade e ele é formado. Ele é mais alto. Depois, me disse que nunca sentia frio e gostava de Florence and the Machine. Depois, ele me abraçava e eu sentia seus braços fortes rodeando-me. Depois, ele estava fazendo até minha amiga se apaixonar por ele (num bom sentido, é claro). Depois, não tinha como negar que o Klaus era perfeito. Nem que somente para mim, somente naquele momento e naquelas circunstâncias. Então, minha memória foi ficando prejudicada pelas tequilas que havíamos tomado e, por isso, só lembro que estávamos no fumódromo e decidimos ir embora. Fomos ao carro dele e lá ficamos por um tempo para nos proteger da chuva enquanto Paula ficava com o moço que conhecera na balada. Aproximadamente uma hora depois, saímos de lá e fomos buscar minha amiga. Chovia. Por isso, fomos de carro, mesmo que ela estivesse a metros de nós. Klaus parou o carro na esquina da Bela Cintra com a Paulista e me esperou lá. Fui correndo e encontrei Paula. Ela estava com um garoto um pouco estranho. Como estava alterada pela bebida, tirei sarro dele e até minha amiga que estava com ele deu risada. Tudo estava engraçado demais. Até que o Klaus chegou, porque eu estava demorando muito. E então, ele também começou a zombar do garoto da Paula e estávamos todos rindo – menos ele, claro. Quinze minutos depois, Klaus se lembrou de que havia deixado seu carro no meio da rua e aberto. Fomos os três rindo de preocupação até o veículo e nada havia acontecido com ele. É a sorte dos bêbados e apaixonados. É também apenas mais uma das várias evidências de que nada poderia estragar aquele momento entre mim, Klaus e Paula. Estávamos com fome. Por isso, fomos comer na Bella Paulista, uma padaria deliciosa na rua Haddock Lobo.  E então, novamente, Klaus foi engraçado e encantador. Comi um lanche imenso porque também estava com fome e queria prolongar ao máximo aquele momento, embora estivesse com um sono voraz. Paula também comeu um grande lanche, se eu não engano, era o Mooca. Quando fomos pagar a conta, Klaus não teve que pagar porque o garçom esquecera de anotar seu café da manhã em sua comanda. Então, ele nos levou de carro até a rua Augusta, onde estava estacionado meu carro. Paula saiu do veículo, para que pudéssemos nos despedir melhor. Não trocamos uma palavra. Foi só um longo beijo de despedida, com muito afeto e um monte de outras frases não ditas, embora ansiasse muito dizê-las: “me ligue, pelo amor de Deus”, “não deixe de falar comigo, pelo amor de Deus”, “vamos nos ver de novo, pelo amor de Deus”, “seja meu namorado, pelo amor de Deus”. E, pelo amor de Deus, deixei o carro sem dizer nada, depois do beijo mais enigmático da minha vida, esperando ter dito tudo o que eu queria ter dito com essa demonstração de afeto realizada pelos meus lábios secos devido a tudo o que tinha bebido naquela noite. Ao entrar no carro, Paula falou o caminho inteiro sobre como gostou do Klaus e como ele era incrivelmente engraçado, culto, bonito, charmoso, encantador. Meu único medo, àquela altura pavor, era de que ele não se manifestasse mais e encarasse aquilo como nada mais do que uma noite divertida, com alguém divertido e, consequentemente, uma recordação divertida, porém efêmera, para sua vida. (continua)

Fabrício Bernardes

Valéria Legat parte II

- Tudo começou no dia 7 de julho de 2012. Eu havia saído com mais duas amigas e fomos a uma balada na rua Augusta. Eu não me lembro muito bem do que fiz antes de entrar na casa noturna e isso nem tem muita importância. O fato é que aquela noite ficou marcada pelo tombo que levei. Na verdade, agora me recordo melhor. Fiquei um pouco no fumódromo e lá encontrei alguns franceses – para (não) variar, porque eu sempre encontro franceses nas saídas que dou, principalmente quando vou à Augusta. Falei bastante a língua de Victor Hugo com os estrangeiros e estava feliz porque tinha sido elogiada por eles pela minha fluência no idioma. Em seguida, desci para a pista de dança e dancei. Dancei como se não houvesse amanhã. Embora tenha parecido que estava lá há apenas meia hora, devo ter pulado e me divertido com meus amigos, no mínimo, durante duas horas. Em um desses movimentos, meu cérebro, animado e despreocupado, exigiu mais das minhas pernas, cansadas e judiadas por uma noite de balada, do que elas podiam aguentar e eu caí. Para ser honesta, levei um grande tombo. Caí com as duas pernas em direções opostas. Entretanto, com a mesma rapidez com que falhei, me recuperei. Levantei muito rapidamente e todos riram e se surpreenderam com a minha rapidez. Devia haver como uma dúzia de pessoas na pista, visto que já eram mais de cinco horas da manhã. Então, levando em consideração a vergonha que tinha passado, o cansaço que estava batendo e o horário, decidi dizer às minhas amigas que estava com vontade de ir embora. Elas também estavam e, por isso, dirigimo-nos à fila do caixa, que deve ter demorado uns trinta minutos. Foi lá onde eu o avistei.

Valéria estava totalmente compenetrada em sua história. Seu medo de não se lembrar direito dos acontecimentos logo se esvairiu ao começar a enumerar os fatos e, em uma marcha moderada, contava suas histórias: em um ritmo nem muito rápido, nem muito devagar, como se tivesse praticado o que estava fazendo há meses. Em um sopetão, ela mesma se interrompeu:

- Você quer beber alguma coisa? Até esqueci de perguntar…

- Pode ser, senhora.

Valéria trouxe dois copos de suco de laranja industrializado. Um para ele e um para ela. E, regado ao gosto agridoce da laranja açucarada dos sucos de caixinha, a história seguiu seu rumo.

- Ele era belo. Sim, muito bonito. Do que se podia ver naquele meio escuro da balada, tratava-se de um rapaz novo, por volta dos 22 anos. Loiro, cabelo liso, jogado para a frente da sua testa, nariz reto, traços europeus, olhos escuros, boca de tamanho mediano, alto, 1 metro e 95 centímetros. Camiseta azul escuro, de manga comprida, calça jeans azul puxado para o preto e tênis que combinavam, porém dos quais não me lembro mais. Olhar de criança, de jovem, despreocupado, “desencanado”, cara de classe média alta, de inconsequente, porém, apaixonante. Belo e solto. Mas ele nem me olhava. E, sinceramente, jamais achei que teria alguma chance com ele. Por isso, dei-lhe algumas três olhadelas, porém bem discretas. Daquelas que ele só perceberia se estivesse realmente compenetrado em prestar atenção em mim. E ele não estava. Por isso, decidi agir como o jovem e também “desencanei”. Saí da balada e, não me recordo bem por quê, uma das minhas amigas começou a falar com um dos amigos dele na saída da casa. E eu, com dor no joelho devido à queda, encostei num carro e fiquei a alguns palmos da roda de conversa na qual minha colega se encontrava. Eis que ele se colocou do meu lado e uma conversa banal aconteceu. Só agora me lembrei que, na queda, também quebrei o feixe do meu relógio. Aliás, não tenho relógio até hoje, desde aquele dia. De qualquer forma, pedi-lhe para tentar consertá-lo. Ele não conseguiu. Ele perguntou como o quebrei. Eu o respondi, rindo, que caíra dançando. Ele riu também. Contei-lhe que sentia dor no joelho direito por causa da queda, logo engatei a história do problema que tivera na articulação e, sem perceber, estávamos numa conversa saudável e produtiva. Afastei-me por alguns instantes dele porque minha amiga havia me chamado para perguntar se eu estava segurando o cigarro dela. Então, o Klaus se aproximou de mim novamente e voltamos a conversar. Contou-me que era alemão. Que nascera lá, mas veio ao Rio de Janeiro quando criança e tinha se mudado há pouco para São Paulo. Foi amor à segunda vista. Pelo menos da minha parte. Depois de  ter contado esses detalhes, ele me olhou nos olhos. Eu o olhei de volta, com as pupilas para cima porque ele era mais alto. Ele sorriu, eu me mantive inerte. Ele me beijou. É claro que não foi o melhor beijo do mundo, nem o mais apaixonante, nem o mais romântico, nem nada. Mas, naquele momento, naquele instante, naquele dia, naquele final de noite, era o beijo. O único. E eu o aproveitei. Segurei sua mão e, com este ato, mostrei-lhe muito de quem sou. Seu amigo queria ir embora e o estava chamando. Ele me disse: “não posso mais ficar, mas dê-me seu número do celular”. Ele anotou. Despediu-se com um último beijo em meus lábios e se foi.

- Acabou, moça?

- Lógico que não. Só se eu fosse louca para chamar-lhe aqui e não ter mais nada para contar do que isso.

Luís, toda vez que escuta a palavra “louca”, refletia sobre a situação e a atitude de Valéria, no mínimo controversa, de fazer tudo o que está fazendo e ainda ter a audácia de dizer que não é louca. Mas, como bem sabe, por meio dos incontáveis clientes que já teve, que loucura é algo comum em sua profissão, espantou esses pensamentos da cabeça para prestar atenção na jovem, pois ela já tinha voltado a contar sua história. (continua)

Fabrício Bernardes

Valéria Legat parte I

Ela havia pensado em todas as formas possíveis para eternizar aquele momento que, ao mesmo tempo que a assombrava, deixava-a mais viva. Embora já fizesse alguns bons meses desde que aquilo tinha acontecido, nunca poderia esquecê-lo. Mesmo sabendo que não poderia olvidá-lo, decidiu transcrevê-lo. Porém, de uma maneira bem inusitada. Ela queria contar para alguém como tudo aconteceu. Sem nenhuma ressalva, mudança ou omissões. Mas, para tal, teria que proferi-lo a alguém que não conhecesse. Que nunca tivesse visto em sua vida. Também para, após a história, poder perguntar: “eu fiz algo de errado?”, “eu sou louca?”; e receber respostas honestas.

Ela sabia que estava tão dominada por aquele momento que estava disposta a ir até as últimas consequências por ele. Bem como até fazer algumas loucuras para eternizá-lo. Foi quando, numa terça-feira cinza de São Paulo, saiu do seu trabalho por volta das nove e meia da noite e dirigiu-se à rua Bela Cintra. Ela não era, de forma alguma, uma mulher feia. Muito pelo contrário, seus cabelos dourados e semi-encaracolados, seus olhos esverdeados, sua feição exótica e seu quadril avantajado denunciavam uma bela mulher. Entretanto, foram tantas decepções e histórias como esta que a fé em sua própria beleza falhava, embora, em todo o lugar que fosse, sabia que era desejada por pelo menos um no recinto. Sem contar as cantadas de pedreiros, motoqueiros, entregadores e atendentes que recebia frequentemente.

Naquela hora da noite, a Bela Cintra fica tomada por michês. E era exatamente isso que estava procurando. Sabia que, ao chegar lá, seria abordada de maneira diferente e que, inevitavelmente, chamaria atenção. Afinal das contas, era uma madame. Jovem e “bonita”. Pois bem, chegou lá e não teve que esperar 30 segundos para um garoto andar em sua direção e abordá-la.

- Oi gata. Tudo bem?

- Eu quero fazer um programa com você. Mas comigo será algo diferente. Você aceita passar a noite comigo?

- Lógico, moça, o tempo que você precisar – respondeu Luís com um sorriso pícaro.

- Ótimo. Vamos ao metrô então.

Eles demoraram 15 minutos para chegar à casa de Valéria. A moça, de 24 anos, estava formada há dois anos e já podia pagar por uma kitnet ao lado da estação de metrô Alto do Ipiranga.

- Tire seus sapatos, fique à vontade.

- Claro, patroa, nunca estive melhor.

- Mas não se sinta tão à vontade assim. Você vai me prestar um serviço e será pago por hora, assim como funciona com seus outros clientes. Mas não vamos exatamente fazer sexo. Na verdade, nada de exatamente. Não vamos fazer sexo. E ponto.

O garoto, que também tinha 24 anos, achou estranho, mas pensou consigo mesmo que ia ser pago de qualquer maneira. Então aquela bizarrice estava valendo. Por isso, fez que “sim” com a cabeça.

- Você já ouviu falar de Ulisses, o grande guerreiro grego?

- Não, senhora. Eu não estou aqui pra aprender história, linda.

- Eu sei. Então, suas histórias são grandiosas. Ele foi um guerreiro astuto, corajoso, inteligente e belo. Mas você já parou para pensar em como eu fiquei sabendo disso? Suas histórias foram imortalizadas porque alguém decidiu contá-las. Os aedos imortalizaram Ulisses. Tudo o que está escrito e guardado, mesmo que não tenha fama, é praticamente imortal. Não espero de forma alguma ter fama a partir da história que vou lhe contar. Mas quero registrá-la. E, em seguida, quero a sua opinião. A visão de um terceiro. Alguém que não faz ideia de quem eu seja.

- Está bem, moça. Vamos logo com essa loucura – disse rindo.

- Não sou louca! E não gosto quando falam assim comigo.

Um silêncio pairou no ar. Luís desejou que ela estivesse brincando, mas não estava. Então olhou-a com uma feição de interrogação, o que fez com que Valéria assumisse as rédeas e começasse a contar sua história, que deveria se eternizar naqueles momentos futuros. Para isso, pegou um gravador e apertou o “play”. Estava disposta a falar o que deixara guardado em seu peito por meses com toda a emoção à qual a sua trama tinha direito. Tinha a consciência de que deixaria sair tudo, exatamente tudo o que guardara. Por isso, gravaria suas palavras, para nunca mais ter de repeti-las.

- Tudo começou no dia 7 de julho de 2012…(continua)

Fabrício Bernardes