Eu quase perdi este blog

Fiquei muito tempo sem escrever. Foi tanto tempo que perdi o domínio deste blog durante meses. Também perdi o domínio de uma série de outras coisas na minha vida neste entremeio. A verdade é que não sei mais a diferença entre viver dez ou 1 000 dias. Pode ser que nunca soubesse. Mas isso começou a me incomodar só agora. O tempo passou tão rapidamente que ficou realmente difícil de contabilizá-lo. Engraçado que, ao mesmo tempo, sentia o peso de cada dia que passava em que não tinha vontade ou inspiração alguma para escrever — no blog ou em qualquer lugar. Estava me sentindo como uma bexiga cheia de ar, prestes a explodir.

Se alguém um dia alguém disser que as pessoas escrevem por uma razão que não seja egoísta, não acredite. Os bons escritores são extremamente egoístas — e presunçosos. Eles podem até inventar histórias que, à primeira vista, parecem não ter nada a ver com suas vidas. Mas, na verdade, apenas querem esvaziar uma avalanche de emoções que existe dentro deles. No final das contas, estarão escrevendo sobre eles.

Veja o exemplo de uma obra chamada “Memórias de Adriano”, da escritora belga Marguerite Yourcenar (vou usar essa obra como exemplo, mas poderia ser qualquer outra). O romance mistura realidade com ficção num fluxo de consciência de Adriano, um dos mais célebres imperadores romanos, contado em primeira pessoa pelo próprio Adriano — ou pela própria Yourcenar. A autora teve tamanha sagacidade ao escolher as frases que iriam rechear o livro que, por vários momentos, é normal se esquecer de que não é propriamente Adriano quem escreveu o livro. “Foi dessa maneira, com uma mistura de prudência e audácia, de submissão e revolta cuidadosamente calculadas, de extrema exigência e prudentes concessões, que acabei finalmente por aceitar-me a mim mesmo”, diz Adriano — ou Yourcenar — numa parte da obra. A autora se conectou tão bem com a vida do imperador que ficou realmente difícil separar um do outro. Ela estava se pronunciando por meio dele. Se apropriou dele para jogar todo o seu egoísmo — seus sentimentos, pontos de vista, angústias, frustrações — no mundo. Mas de uma maneira formidável, convenhamos. Afinal, Yourcenar foi uma das maiores escritoras do século passado. Foi a primeira mulher nomeada à Academia Francesa de Letras.

Pois bem. De volta ao mundo dos mortais, aqui estou eu, humildemente tentando fazer algo parecido com o que Yourcenar fez — usar outras pessoas, fatos, histórias para justificar meu egoísmo. Engraçado. Quando eu trabalhava em redação de revista, sempre chegava um momento em que eu ia ter de escrever minha reportagem para entregá-la ao meu editor — quer me sentisse preparado, quer não. E era sempre nessas horas que empacava. Me dava branco, achava que tudo estava uma merda, que não ia dar tempo, que faltavam informações. Toda vez que me encontrava nesta situação, pensava em quão fácil era escrever neste blog. E pensava em como queria que os textos das matérias saíssem tão espontaneamente quanto saíam os deste blog.

O problema é que, ultimamente, escrever aqui tem sido o mesmo parto que era escrever nas revistas. Não foi fácil fazer este post. Comecei a escrevê-lo bêbado um dia, depois de chegar da balada — mas não consegui finalizá-lo. Só na terceira vez que voltei aqui, consegui desenvolver algo com começo, meio e fim (naquelas, né). Não sei se tem a ver com o fato de eu não trabalhar mais em redação — pode até que, em parte, seja por causa disso. Mas, na verdade, acho que o maior problema é aquele diacho do egoísmo mesmo. Só quero escrever para falar de mim, eu, eu, eu. Como fazer este texto ser interessante para os outros também? Como representar outras pessoas? “Tente falar de amor”, digo a mim mesmo. “Tente falar de algo genérico da sua geração, a Y, estilo aqueles que bombam toda semana no Facebook”, digo a mim mesmo. Não sai nada, nadica de nada.

Talvez seja fase, mas está difícil me conectar com os outros. Está difícil traduzir sentimentos em palavras. Desculpe, leitor, se você veio aqui procurando algo mais interessante. Mas isto é o máximo que posso oferecer. Se serve de lição, seja egoísta às vezes. Faça os outros perderem tempo com você (assim como você perdeu o seu lendo isto aqui). Tudo o que é grandioso, homérico, digno de imperadores, começou com um simples ato de egoísmo. Ou você acha que Adriano se tornou imperador à toa? Eu já estou me sentindo bem melhor agora. Terminei o texto sem roer uma unha.

Adriano, o Imperador, e Marguerite Yourcenar:

Adriano, o Imperador, e Marguerite Yourcenar: as boas — e magnânimas — decisões começam no nosso íntimo, no nosso espaço mais egoísta

Fabrício Bernardes

Amores Risíveis

I – a rejeição do inexistente

Não existe momento mais solitário do que aquele que antecede a farra
Para te conquistar, basta ser tudo — menos uma boa pessoa
Então, faz frio
Eu vejo lágrimas escorrendo do seu rosto
Você diz que é por causa do frio
Eu digo que nunca tive a intenção de colocar uma aliança no seu dedo
E você diz: quero ser seu, sua cachorra, sua esposa.
Não digo nada
Você diz: era para estarmos juntos, eu te amo.

Eu conheço o risco do amor, mas o amor é sempre risível. É um sem-fim cíclico de expectativa, sedução e desilusão que não leva a lugar nenhum. É como andar em círculos — suas pernas não aguentam mais caminhar. E, mesmo assim, você praticamente não saiu do lugar. O amor é estático, imóvel. Nunca leva a lugar nenhum. É uma felicidade infinita com hora marcada para acabar.

II – a valorização do medíocre

Eu estou no metrô com você
Voltando da festa
Te conto da minha infância
Abro meu coração
Conto como brincava de bonecos e de ser super heróis
Faço o máximo para ser um humano
Mostro minhas fraquezas, minhas inseguranças
Tiro minha armadura
Mas você é uma pedra, bonita, mas uma pedra
Como aquelas que me fascinavam quando eu era criança
Lindas, porém medíocres

Eu juro que já tentei de tudo para acabar com minha solidão. Das maneiras mais diversas possíveis. Mostrei meus aspectos mais lindos, tão bonitos como flores. Mostrei minhas características mais sórdidas. Mostrei meu eu mais egoísta. E já fui a pessoa mais altruísta que alguém já conheceu. Mas percebi que, nessa caminhada, não conheci ninguém diferente. Caricato.

III – a satisfação do grotesco

Estamos voltando para casa
Você está ao meu lado, no carro
Deu tudo certo — conheci todos os seus amigos
Eles me adoraram
Causei boas impressões
Com você e com eles
Minutos depois, xingo você sem parar
E mais tarde não me lembro de tê-lo feito
Estraguei tudo

Já te chamei de senhora, sem te conhecer. Porque você poderia ser qualquer uma, num mundo povoado por bilhões de pessoas. Será que o mistério está em você ou em mim? Se fosse possível obter a resposta correta para o enigma mais intrigante da minha vida. Perguntaria para mim ou para você? O que é a nossa história? É minha ou é sua? É nossa? Afinal, quando dois corações se unem, é certo falar em nós? Gosto de criar histórias nas quais não existe apenas eu. Alguém tem de estar junto. E toda vez que eu me uno, já não sou mais eu mesmo. Então, de quem é a culpa? Quem estragou tudo? Eu, porque fui um bom homem? Ou você, que foi uma pessoa ruim? Eu, porque fui uma pessoa malvada? Ou você, que foi uma mulher bondosa? Uma vez dessas, foi diferente. Eu fui eu mesmo — com qualidades e defeitos. E você foi você mesma. Mais ninguém importava e o mundo era só eu e você. Tinha dado certo.

IV – o êxito dos astros

Há pouquíssimos homens sinceros no mundo
E Deus sabe disso.
Mas a nossa história é um tesouro
Guardado nas estrelas e selado pelos planetas
Um símbolo de esperança desenhado pelas constelações
Duas almas tão complementares
Quanto dois espelhos em face um do outro, refletindo a eternidade
Mas você está longe, tão quanto está a Terra de Júpiter
Eu me desfaço à medida que meus pés se encontram em duas placas tectônicas distintas
Quando você partiu, o céu escureceu para sempre e passou a me iluminar com escuridão
O firmamento chorou e a depressão choveu em mim
Eu vivo esperando o seu retorno
Eu aguardo o êxito dos astros

Agora eu sou uma estrela cadente. Deixo todos comendo poeira e apontando para mim. Sinto um mal-estar na minha Via Láctea crescer de maneira exponencial. Tudo me parece sem gravidade. O amor voltou, afinal, ele nunca tinha ido embora. Eu espero o encontro dos astros. Eu aguardo um desastre. Os amores que não deram certo são absurdos. São como rejeitar o inexistente. São como dar valor ao medíocre. São como se sentir satisfeito com o grotesco. Os amores de verdade são como o alinhamento dos astros. Acontece apenas uma vez na vida. É a eternidade.

“J’attends la réussite des astres/désastre” — Nekfeu

Amores Risíveis (Risibles Amours)

Amores Risíveis (Risibles Amours): é uma canção do rapper francês Nekfeu, baseada no livro homônimo, do escritor Milan Kundera

Fabrício Bernardes

Noites de insônia

Noites de insônia são assustadoras. E elas não acontecem à toa. Normalmente, uma pessoa não consegue dormir quando está muito preocupada. Ou incomodada com algo. Às vezes, está triste. O meu caso deve ser uma mistura de tudo isso. Estou preocupado, sim. Com o trabalho. Mas veja se pode. Até parece que não sei que trabalho vai e vem. Um dia se está aqui, outro dia se está ali. Ainda mais eu, que sou jornalista, profissional acostumado com as reviravoltas da vida de laboro — na qual é normal ver 30, 40 colegas serem despedidos num só dia. Me dá agonia só de repensar nas vezes em que encontrei amigos no banheiro ou no elevador chorando porque haviam sido demitidos sem alguma justificativa plausível, que não fosse simples corte de custos.

Além de preocupado, também estou incomodado. Há tempo sinto que me curvei diante das amarras e obrigações da vida adulta. Juro, se eu me visse com 15 anos na posição em que estou atualmente, com certeza não me reconheceria. Não só não me reconheceria, como teceria uma infinidade de críticas a mim mesmo. Sério, estou há cinco anos sem férias. Ainda sonho com as curvas ladrilhadas de Barcelona. Ou com as paisagens rochosas da Bretanha. Ou com as folhas alaranjadas que caem nos outonos de Montreal. Ainda sonho com vidas diferentes. Em ser alguém diferente a cada dia do ano. Em conhecer pessoas novas. Em carpe diem… Então, você me pergunta. Por que não vai viver essas vidas? Também não sei. Do que tenho medo? De desapontar. Mas desapontar a quem? Minha família. Mas por que eles haveriam de ficar desapontados com as suas novas resoluções de vida? Não sei. Então o que lhe prende aqui? Não sei.

Também estou triste. Estou envelhecendo e a perspectiva de encontrar aquela pessoa que vai me amar pelos meus defeitos e não pelas minhas qualidades está cada vez mais dubitável. Até encontrei pessoas assim. Mas estraguei tudo. O que posso fazer? Não sou perfeito. Mas daí tem aquelas que você pensou que seriam aquelas pessoas. Mas não foram. Malditas! A vontade que tenho é de voltar no tempo e… Não sei. Não tenho coragem de fazer mal a ninguém. Acho que não mudaria nada. Mas como é difícil ser rejeitado. Eu fico imaginando um monte de hipóteses sobre por que fui largado. E nenhuma, nenhuma mesmo, é plausível. Então, transfiro a culpa ao outro. “Eu era bom demais. Ela que saiu perdendo”, penso. Bobagem. No fundo, sei que o problema mesmo era eu. Em seguida, penso que devo me cuidar mais. Prestar mais atenção no que me faz ser uma pessoa boa. Sabe, cuidar mais de mim — ler um bom livro, comer menos chocolate, ir ao taekwondo com mais frequência, assistir a um bom filme. Enfim, criar hábitos mais saudáveis.

À vista disso, penso em como seria bom se conseguisse fazer tudo isso que propus a mim mesmo acima. Talvez só assim eu desencalhasse e conseguisse ser uma pessoa feliz. Então, penso em como seria incrível se tivesse tempo para fazer tudo isso. Mas, claro, não dá tempo! Não dá tempo de fazer tudo aquilo e ainda… Dormir. Pois é, preciso dormir.

A verdade é que as noites de sono escondem muita dor. Noites de sono são anestésicas. A insônia vem quando está tudo tão fora de ordem que o sono não consegue vencer a batalha travada diariamente contra nossas agonias. Quando a insônia reina, a revolução deve ser feita internamente. Logo eu, que sempre fui um entusiasta de revoluções e da justiça social, estou aqui — tentando travar a batalha mais intimista de todos os tempos. Nunca pensei que seria tão egoísta.

Ser sonhador é bonito até a primeira vírgula. É bonito quando sua mãe fala, cheia de orgulho, para os outros que você é uma maquininha de ideias, que nunca está parado e que tem uma sensibilidade fodida. Parece bacana quando o seu psicólogo diz naqueles testes vocacionais: “Fabrício, você é um sonhador, gosta de viajar, de ajudar as pessoas e tem talento para profissões com contato humano.”

Agora, vá tentar encaixar essa caralhada de sonhos na sua vida e veja se consegue realizar, ao menos, 15% deles. Não é bonito querer tudo. E ser “sonhador”, “romântico”, “utópico”, “lírico” é que nem ser palhaço. Só é engraçado quando é o outro. Se for você o palhaço, tem alguma coisa errada. Ou alguma vez na vida, quando lhe chamaram de palhaço, você achou que aquilo era um elogio?

Niilismo, revolta, inquietação, desumanização, cansaço. Eis como começa um dos poemas mais importantes de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, escrito em 1928, chamado Tabacaria.

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

O homem que tinha todos os sonhos do mundo precisou criar 127 heterônimos para “neutralizar” sua “loucura”. Uma das personas de Pessoa era brasileiro(!!!). Será que Pessoa tinha insônias também? Tinha. É só colocar no Google.

Pessoas

Álvaro de Campos: “Quando olho para mim, não me percebo.”

Fabrício Bernardes

Barreiras

A moça, morena e de cabelos ondulados, se encontrava presa em mais um dos rituais provenientes do que se diz sobre ser uma boa mãe. Ela tinha que levar a filha ao aeroporto para se despedir de seu pai Johann — um holandês com quem esteve durante menos de uma noite, há muitos anos.

Juliana se via presa de várias maneiras. Algemada numa relação de estranhamento com o homem com quem teve sua filha, no que a sociedade e sua família julgam sobre deveres maternais, na culpa que sente pelo fato de Johann ser distante da  filha — e naquele aeroporto cheio de gente apressada. Isso porque era domingo.

- Mãe, o papai está chegando – sua filha Mariana havia interrompido seus pensamentos.

- Oi, Johann, tudo bem? – perguntou Juliana.

Ele respondeu que “sim, tudo ótimo” em inglês e deu um forte abraço na filha. Levantou-a no colo. Já estava cada vez mais difícil brincar com ela assim — afinal, ela já tem mais de seis anos e está ficando pesada. O tempo passa. Ainda mais para ele que via sua filha tão raramente. Ele estava indo para mais uma missão internacional. Desta vez, ia à África e só Deus sabe quando voltaria. Há seis anos, os cabelos encaracolados e dourados de Johann eram bem mais chamativos. Juliana nunca vai se esquecer do dia em que viu os olhos de Johann mais azuis do que em qualquer ocasião. Como se fossem rios provenientes de uma complexa bacia hidrográfica, seus vasos sanguíneos avermelhavam o entorno de sua íris, deixando-a reluzente como uma enseada caribenha. Ele estava chorando — sua filha nascera de sete meses e poderia não sobreviver. “Nunca vi o Johann tão abalado em sua vida”, pensou Juliana. Os dois se encontravam um ao lado do outro no corredor do hospital. Johann chorava. Juliana sofria. “Olhando daquele vidro, ela parecia tão pequena, tão indefesa e, principalmente, tão sozinha”, refletiu Juliana.

Johann não largava da filha. Mariana, é claro, se regozijava com tanta atenção. Foram poucos os momentos em que teve seu pai e sua mãe tão perto ao mesmo tempo.

- Tchau, Ju – disse Johann num português carregado.

- Bye, take care – respondeu Juliana a três palmos de distância de Johann. Eles não haviam se tocado nenhuma vez naquele dia.

Johann estava agindo como um pai babão. Deu incontáveis beijos em Mariana. Abraçou-a, brincou com o seu cabelo, fez cócegas nela. Por fim, deu um último beijo na filha e seguiu seu rumo para morar longe de novo. Johann era corpulento, alto e andava de maneira desastrada por causa das duas malas de mão que carregava. Ao seu lado, uma faixa preta — aquelas usadas para formar filas de aeroporto — o separava de sua filha e de Juliana. Johann parou de andar inesperadamente. Causou tumulto entre as pessoas que estavam atrás dele, deu meia volta e violou a faixa. “O que ele está fazendo? Será que esqueceu alguma coisa? Será que desistiu de ir?”, pensou Juliana. Johann se aproximava fixando seus olhos azuis nos olhos marrons da moça. Juliana estava confusa e tensa.

Ele a abraçou por 30 segundos e, sem dizer uma palavra, retornou à fila do seu voo. Johann havia transposto uma série de barreiras que o separavam de Juliana: a geográfica, a linguística, a do silêncio, a do estranhamento, a da falta de amor entre eles e até a do vidro que outrora os separou da filha na maternidade. Aquela faixa foi a única barreira (in)transponível.

Fabrício Bernardes

Suborno de amor

Há uns poucos dias, eu estava em casa lavando a louça antes de ir ao trabalho e escutando música ao mesmo tempo. Inesperadamente, começou a tocar uma canção velha, do cantor gaúcho Armandinho, de cuja existência eu já tinha até esquecido — mas que me trouxe para o passado, para a época em que estudava na Espanha.

Tinha 19 anos e estava num ônibus que saía de Madri, passava por Zaragoza e chegava em Barcelona. Eu sentei do lado de uma amiga. Sim, uma amiga que eu tinha conhecido na capital. Lembro como se fosse ontem. Da gente na sala de aula. Ela sentada na primeira carteira e eu na última. Ela era linda. Até demais. Beleza brasileira — morena, pele bronzeada, cabelos lisos e castanhos, olhos cor de mel e um sorriso cativante. Sem mencionar sua simpatia. Achei melhor fingir que não estava interessado. Não teria chance de qualquer maneira. Então, no meio da aula, trocamos farpas. Eu havia sido grosseiro. Descobri também ao ouvir sua voz que ela era carioca. Instigante. O mundo, estranho que só, acabou conspirando para que nos tornássemos colegas. E lá estávamos, com mais três amigos, viajando para Barcelona.

Acabei sentando ao seu lado no ônibus. Tinha de mostrar serviço. Afinal, como posso estar sentado ao lado desta gata e nem ao menos flertar com ela? E daí, com o papinho mais sem graça e pretensioso do mundo, comecei um diálogo. Descobri que ela me achou “metido” de cara, mas depois simpatizou comigo. Disse-lhe que pensei o mesmo dela. E rimos. Estava indo bem. Minha malícia, meu charme, minha inteligência estavam me ajudando. Então, decidi fazer o romântico e peguei qualquer musiquinha bonitinha que tinha no meu Itunes e a fiz escutar. Era uma do Jason Mraz, que já tinha mandado para várias antes dela. Sinceramente, não entendo como eu conseguia ser tão brega. Mas, enfim, ela escutou. E gostou. Hoje sei que a canção é, de fato, bonita. Se chama Beautiful Mess. Não sei se ela ficou bonita por causa da Marcella ou porque ela é bonita mesmo.

Sempre achei que esse meu jeitinho sensível e romântico ajudava a conquistar quem eu queria. Na verdade, isso só contribuía para que eu ficasse sempre na zona da amizade e enterrar cada vez mais minha autoestima. Eu sabia disso, mas era o único jeito que eu sabia paquerar. O que foi diferente desta vez? Ela gostou! De verdade. Dava para ver nos olhos dela. E com um mero sorriso ela me despedaçou da mesma forma que faria se tivesse jogado um vaso de vidro no chão. Ela havia gostado de mim pelo o que eu era. E ninguém, nunca, jamais, em nenhuma outra circunstância, poderia ter feito algo tão bom por mim quanto aquilo. Hoje, enxergo isso com clareza. Na época, simplesmente fiquei sem chão. Completamente apaixonado por uma menina que morava a 600 km de mim no Brasil e que estaria comigo na Espanha por mais três semanas no máximo.

Ela estava apreciando tanto a minha companhia que me mostrou uma música também. Aquela do Armadinho da qual falei anteriormente — e que diz “eu vou te subornar com meu amor”. Ela disse que achava aquela canção linda. Eu, desligado e presunçoso que era, nunca tinha parado para prestar atenção na letra. Só gostava do ritmo e achava estranho essa coisa de subornar com amor. Ela me explicou o sentido da música e eu achei lindo — é sério, prestem atenção nos versos. Aposto que vocês vão achar fofo.

Todavia, ela namorava. Estava ficando com um cara lá do Rio. E quando me falou aquilo, eu não tive outra reação senão chorar (!!). Como um bebê que sai da barriga da mãe. Era incontrolável. Isso nunca tinha acontecido comigo na frente de um estranho. Além disso, nunca fui de chorar. Mas eu estava tão desarmado por aquele sentimento que não sabia nem mais o que estava fazendo. Marcella me abraçou. E eu deitei no seu ombro. Me senti um homem realizado.

Hoje tenho gostos diferentes, visões diferentes e devo ter amadurecido um pouco desde então. Já não me acho o rei da cocada preta como antes. Já não me acho tão inteligente, tão sensível, tão genial, tão romântico, tão charmoso — e nem tão bom escritor. Mas no meio de todo o emaranhado de deslizes que eu era, ela enxergou luz em mim. Engraçado, a música que eu dediquei à Marcella, Beautiful Mess, fala da sua insegurança e das suas grosserias — mesmo que tudo isso se encaixe numa beleza fenomenal. Hoje, vejo que o inseguro e o grosso foram eu. E a beleza fenomenal continua sendo dela. Na época, sentia raiva de não tê-la comigo.

Hoje, sinto gratidão por ela ter visto o que nem eu conseguia enxergar de bom em mim. Pode soar exagero, mas foi como renascer de novo. Sua mãe te ama durante nove meses dentro da sua barriga. Depois, você tem de sair do lugar mais confortável em que vai estar durante a sua vida inteira — que é dentro dela. E o que você faz quando chega ao mundo? Chora. E em seguida? Faz teimosia. Por último, pensa, repensa, reflete e agradece por tudo o que sua mãe já fez por você.

Marcella, obrigado por ter me feito chorar. Você me transformou num homem.

“It’s like taking a guess when the only answer is yes” — Jason Mraz.

Fabrício Bernardes

Ditadura genesial

I’ll sing you a song, close your pretty eyes
I like to hear you breathing
It’s like the soundtrak of my life
The only memory I’m keeping

Enumere todos os formatos redondos em que você consegue pensar. Sol, bola de futebol, laranja, lua cheia, roda de veículos, umbigo. Redonda também é a minha cara, cheia de rugas. Essas marcas de expressão não são aquelas que vêm com o tempo, mas com a vivência, com o sofrimento, com os traumas. Ninguém aqui foi escravizado ou torturado. Essas rugas são fruto de picadas que levamos todos os dias em nossas faces. Aos poucos, vamos ficando cheios de hematomas e furúnculos — mas ninguém os enxerga. Porque quem pica é o bicho da solidão, do estresse, da inveja, da preguiça, da covardia e até da burrice. São marcas invisíveis, que passam desapercebidas até pelos aparelhos de raio-X mais avançados.

Olhos entreabertos, cabelos opacos, a barba mal feita, a bochecha flácida, a sobrancelha desarrumada, os cílios caídos, os lábios rasgados pelo frio… Uma ausência de harmonia horrorosa para levar a vida que todos conhecemos como desarmônica. Quanto mais fechado fico no meu quarto, maior a sensação de ter vivido tudo de ruim que poderia ter me acontecido. O medo de sofrer é grande e tão presente quanto o oxigênio em meus pulmões.

Você também passou por tudo isso. E cada um sabe a dor que é carregar a cruz que nos é designada. Já passamos por tudo e vamos passar por mais. Sabe aquela sensação proveniente dos segundos antes de um lindo desastre?

Tendo em vista que nada é como queremos que seja, está confirmado — teremos que viver assim. Nem mais, nem menos. Exatamente como deve ser. Você, cá. Eu, lá. Você segurando meus pertences e eu, os seus. Mas eu prometo que tudo vai ficar bem se você estiver nos meus braços. Contanto que você prometa o mesmo.

Eu sei. Eu sei que você também foi picado pelos mosquitos da vida. E eu eu enxergo suas cicatrizes tanto quanto enxergo as minhas quando me olho no espelho. Temos aparências distintas, porém feridas semelhantes. E tudo se encaixa numa sinfonia maravilhosa de Beethoven. Num flashback de tudo o que vivemos e vamos viver.

Você consegue ouvir, enquanto te conto esta história, meu coração despedaçado batendo? Você sabe que não dá para viver sem amor. Seria suicídio. Então, vivamos assim. Sob os ditadores da vida que nunca serão depostos. O tempo, a morte, o amor e a dor. Lutamos enquanto podemos, vencemos quando possível, apanhamos quando necessário. Mas juntos — partindo da noção de que o que criamos é muito maior que eu e você.

É aterrorizante, eu juro. Deitar minha cabeça no seu ombro é tão assustador quanto pular de um precipício e saber que eu vou continuar vivo. Mas escutar você respirando é tão reconfortante.

Eu prometo que não vou fugir. Prometo que vou estar para sempre com você. Você promete, também?

Ditadura genesial: sob os déspotas do Big Bang, vivemos.

Ditadura genesial: sob os déspotas do Big Bang, vivemos.

Fabrício Bernardes

Se você não volta

Isto aqui sou eu tentando criar uma lista de como seria se você não voltasse. Ou como tudo está sendo na sua ausência. Seria um apanhado de tudo o que eu sou, porque está difícil definir minha personalidade sem mencionar a sua falta. Quer um conselho? Não ame. E você terá para sempre somente amor dentro de você. Não comece. E você nunca terá de aceitar o fim. Porque o fim é medo. Medo do incontrolável e do inevitável. Medo de você. E medo de que, sem você, tudo ficaria assim.

A chuva deixaria de ser serena e asseada. Perderia sua capacidade de purificar o que toca.

Não haveria mais vida. Eu não saberia mais o que fazer.

Minhas únicas companheiras seriam as estrelas, que trariam notícias curtas e grossas de como você anda.

Os campos perderiam o verde. Os morangos se tornariam amargos. As cachoeiras não fariam mais barulho. Os rios não me molhariam mais. As flores perderiam seu cheiro.

Eu ficaria tão grande por dentro e tão pequeno por fora que meu corpo não aguentaria mais andar devido ao peso da sua ausência.

Os violinos tocariam marchas fúnebres até que chegasse minha hora.

O amor pela humanidade e pelo meu país não significariam mais nada.

Eu seria feito de nada.

As noites de insônia seriam frias e eternas.

O mar se secaria.

Minhas lembranças de você me digeririam.

O mundo se tornaria num grande deserto.

Eu nunca mais sentiria seu perfume infinito.

Si no vuelves, no habrá vida
No sé lo que haré
No sé lo que haré…

clarice-lispector

Clarice Lispector: “Não ouças a Quinta Sinfonia de Beethoven e ela nunca terminará para ti.”

Fabrício Bernardes

Amor sem amor

Tears (should) stream
Down your face
When you lose something you cannot replace

Então, lá estavam eles. Ela estava nervosa. Ele era um exibicionista. Ela não fazia questão nenhuma de fazer grandes reflexões do porquê se encontravam lá naquele dia, naquela noite. Em resumo, eles estiveram juntos por algum tempo. Se amaram — pelo menos ela o amou. A vida os separou, mas não completamente. Nada fora superado. Ela tratou de lidar com as lembranças da maneira mais rápida e dolorosa possível. Como se tivesse ido a um parque e lá tivesse enterrado todos os bons momentos — e não foram poucos — na areia. Mas certos dias aquelas memórias se enchiam de tanto brilho e luz que ultrapassavam a areia rude que outrora as ofuscou. Iluminavam o parque inteiro mesmo que fosse de noite. E ela chorava. Mas por dentro, nunca por fora. Cascatas jorravam do seu coração, mas seus olhos eram mais fortes que os diques holandeses. Não deixavam escapar uma gota d’água. O que era para ser um resumo foi uma grande reflexão na cabeça de Valéria, que estava sendo interrompida.

- Você não vai tirar a roupa? – indagou Pierre.

- Tire você primeiro.

Foi tudo casual. Mas era a única chance de ter Pierre de volta — nem que fosse por alguns instantes.

- Quero ser sua esta noite.

- Só esta noite?

- Se dependesse de mim, seria para sempre. Você sabe – retrucou Valéria.

Silêncio. Ele tirou a blusa e eles começaram. Não estava sendo tão maravilhoso quanto esperara. Na verdade, ela não estava conseguindo nem ficar excitada. Mas o que a gente não faz por quem a gente ama? Mesmo por quem um dia já nos deixou.

As coisas estavam indo bem. Até que Valéria cometeu mais uma das suas várias burrices.

- Eu te amo.

As três palavras ecoaram por todos os objetos do quarto do motel. Criado-mudo, abajur, telefone, paredes, televisão, portas, tapetes e até na cara do Pierre, que respondeu sem jeito.

- Eu também.

Depois de uns 30 segundos, Pierre acendeu as luzes.

- Te enxergo melhor assim.

E eles continuaram fazendo amor sem amor. Até que toca o celular dele.

- Um minuto, ok?

Passaram-se vinte. E ele entrou no banheiro para falar em particular. Valéria se sentiu a pessoa mais burra, insossa e sem valor do mundo. “Nem com os caras que eu conheço há uma semana isso acontece”, pensou. “Eles nem atenderiam o celular.” Valéria foi mais burra ainda e escreveu um bilhete. “Vou dormir em casa. Beijos.” E foi embora. E, igual a todos os dias que passam, nutriu um ódio ainda maior pelo amor que sentia por quem já amou sem culpa. Foi dormir em casa, mas não conseguiu dormir. Olhou para o seu celular e não recebera nenhuma mensagem de “desculpa”. Fechou os olhos e tentou dormir de novo. Conseguiu — mas acordou cheirando a Pierre. E, de novo, não conseguiu chorar.

Valéria Legat: é difícil esquecer o que a gente nunca quis olvidar

Valéria Legat: é difícil se esquecer do que a gente nunca quis se olvidar

Fabrício Bernardes

Pílulas de eternidade

A vida é feita de longas épocas sofridas e de pequenos momentos deliciosos. Nossos dias têm 24 horas. Nossos meses têm em média 30 dias. Nossos anos têm 365 dias. Nossos séculos têm 100 anos. Mas nossa memória deixa de lado toda essa numeralha e só guarda o que é especial. O que realmente nos marca — seja para o bem ou para o mal. O engraçado é que podem ser momentos extremamente intrínsecos e restritos. Ou histórias de terceiros que você escutou. Ou mesmo coisas simples pelas quais passou, mas que só você tem o poder de enxergar complexidade nelas. Chamo esses momentos de pílulas de eternidade. Pois o que pode não se repetir ficará guardado para sempre em nosso inconsciente. É quando a eternidade não passa de um momento e os momentos são eternos. E tudo isso regado aos melhores molhos para acompanhar a perpetuidade: o do acaso e o da simplicidade. Posso enumerar três desses instantes.

 

Imagem retirada do site www.tattodonkey.com

Laços infindáveis: a eternidade de um instante

 

1- Um dia, no começo do ano passado, estava atravessando a porta de vidro do meu andar na redação para ir pegar um café no térreo. Estava preocupado, com sono e mal-humorado. A faxineira, que estava passando por perto, me disse algo muito importante. “Sorria, menino. Você é muito mais bonito sorrindo.” Em seguida, foi embora, abrindo a mesma porta de vidro pela qual passei e continuou fazendo seu trabalho. Eu  não me lembro mais da feição da mulher, mas nunca vou me esquecer dessas palavras. Tenho certeza de que era um anjo disfarçado. E eu nunca tive a chance de agradecê-la — nem de sorrir para ela.

2- Em junho do ano passado, estava sentado em um ginásio de esportes de uma cidade no interior de São Paulo chamada Jacareí conversando com uma amiga. Estávamos nos Jogos Universitários de Comunicação e Artes, também conhecido como JUCA, do qual a Cásper Líbero participa. Ela disse que sentia muita falta do ex-namorado. E disse que só fumava — e somente aquele cigarro — para ficar com o cheiro do ex nas pontas do dedo. Fiquei tão tocado com a história que não consegui nem responder minha colega.

3- No ano passado, me formei em jornalismo pela Cásper Líbero. A festa de formatura aconteceu neste mês, em fevereiro. Queria muito passar o tempo com minhas duas melhores amigas. Mas não as encontrava de jeito nenhum. No entanto, encontrei familiares de uma delas. Eles fizeram uma roda em mim e pularam, dançaram e gritaram meu nome enquanto eu estava no meio deles. Nunca me senti tão querido numa noite.

Fabrício Bernardes

Dores de adulto

Sendo bem sincero, nunca quis ganhar muito dinheiro. Essa decisão deve ter sido uma mistura de criação com a minha própria personalidade. A minha geração de classe média é, de longe, a mais bem estruturada da história da minha família. Leia-se: eu fui a um dos melhores colégios do Brasil, a uma das melhores faculdades, me formei com apenas 22 anos e fiz três intercâmbios na vida. É claro que eu fui criado para ser alguém bem-sucedido, mas isso nunca influiu em nenhuma das minhas decisões. Ainda bem que nunca passei por dificuldades financeiras. Por isso, nunca me vi coagido a pensar num futuro em que houvesse dinheiro. Porque sempre assumi que o mesmo aconteceria comigo. “Se minha mãe conseguiu, eu consigo.”

Eu nunca enxerguei a vida pela perspectiva do dinheiro e do sucesso profissional. Sempre me imaginei fazendo algo que gosto e que, eventualmente, o dinheiro viria. Como se um fosse a causa e a consequência do outro. Até eu decidir fazer jornalismo. E começar a comparar meu trabalho com o dos meus amigos que faziam outro curso. Ficou claro que eu ia ganhar bem menos pela mesma quantidade de trabalho — ou mesmo para trabalhar mais. E, então, foi a primeira vez que apareceu o desespero monetário em minha vida.

“Eu vou ganhar mal o resto da minha vida.” Em seguida, eu tentava me acalmar, pensando em alternativas no jornalismo que me dessem dinheiro. “Você pode ser âncora de jornal.” Esqueça.

Essa foi minha primeira dor de adulto. E eu não tinha nem 20 anos quando ela apareceu. Nada fazia sentido. Minha vó trabalhava desde os 13 anos e sempre se orgulhou disso. Minha mãe se encaixa no estilo workaholic e sempre deixou claro para mim que trabalhar é a solução para todos os problemas da vida. Talvez porque ela nunca tenha feito um intercâmbio. Mas eu, com o perdão da palavra, estava cagando para trabalhar e ganhar dinheiro. Mas daí aconteceu e eu fiquei preso na dinâmica do laboro.

Uma mistura de orgulho, alpinismo social e inevitável sentimento de realização quando mostrava meus textos aos meus familiares. Embora estivesse infinitamente mais confortável indo apenas à faculdade, fazendo minha sesta, lendo meus livros e indo ao taekwondo.

Em seguida, as coisas foram se encaixando e eu comecei a trabalhar para valer. Achei um bom emprego e fui efetivado. É bizarro, mas agora sou eu quem edito os textos dos estagiários — eu tento ignorar o fato de que, não faz nem seis meses, eu estava na posição deles. Talvez seja porque eu cresci rápido demais. Talvez seja sorte. Talvez sejam os dois. O importante é que eu consegui (!). Estou trabalhando e, como disse meu primo uma vez, “finalmente você está ganhando salário de gente.”

Assim sendo, outra dor de adulto me apareceu. Ela diz respeito ao quão estúpido eu sou para administrar meu próprio dinheiro. Uma controvérsia, pois trabalho com negócios. Sabe aquelas coisas do tipo, “sabe administrar e dar pitaco no dos outros, mas no seu, é nulo.” É bem isso mesmo. Eu tenho pavor de caixa eletrônico. Não consigo acessar minha conta bancária do celular. Vivo errando minhas senhas e morro de vergonha por isso. Não consegui até hoje tirar todo o dinheiro da minha conta no Santander. Não faço ideia do esquema de salário que tenho — se eles pagam mês vencido, em quanta vezes eles pagam o salário por mês. Já perdi uns quatro cartões de crédito ou débito. Tenho pavor de andar com dinheiro no bolso. Odeio usar moedas, porque elas fazem barulho e eu demoro a contá-las. Tenho um cofre pesadíssimo em casa, cheio delas, como se ainda fosse legal — como aos 12 anos — juntar quilos e quilos de moedas. E tenho a impressão de que, não importa o que eu faça, os bancos estarão sempre me roubando e tirando vantagem de mim. Talvez essa não seja mentira. Enfim, será que não dá para voltar à época em que minha única preocupação monetária era se o dinheiro que minha vó me deu dava para comprar um saquinho de pão de queijo, um sorvete e um chiclete na padaria da esquina? Ah, só para constar, eu sou da época em que um pãozinho francês custava 15 ou 20 centavos.

Ontem, eu estava extremamente chateado comigo mesmo porque não sabia fazer coisa de adulto. Ainda não sei. Mas sentei com minha vó no sofá na hora da novela e ela me deu umas dicas. Acho que agora entendi como funcionam os caimentos dos pagamentos do meu salário durante o mês. Pois é. As dores de adulto chegam — exatamente como chegam as dores nas costas e de cabeça das quais minha mãe sempre reclamou. Acho que ela sempre quis que eu trabalhasse para que a entendesse melhor. Ok, agora eu a entendo. Posso voltar a ser criança de novo?

Fabrício Bernardes