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Ele estava no metrô. Como sempre, milhares de coisas vinham à sua mente. Mas, o mais importante, claramente, era chegar em casa. Não é que ele não gosta de metrô. Ele só quer chegar em casa logo. Alcançou a estação Sé e viu que o trem estava na iminência de partir. Correu. Quando chegou à porta, uma mulher barrou sua entrada. Porém, de qualquer forma, ele quis entrar. A porta fechou em seus ombros. Mesmo assim, ele a segurou com as duas mãos e entrou, se desculpando por haver empurrado a senhora que bloqueava sua passagem. No entanto, havia esquecido seu braço. Ele tinha ficado preso na porta.

- Ai, moço. Seu braço!

Ele puxou o membro com força, mas não conseguia tirá-lo. O sistema de percepção do trem metropolitano foi acionado porque algo barrava a porta e ela se abriu depois de 30 segundos. O garoto, que devia ter entre 18 e 20 anos, tirou o braço rapidamente e logo se recompôs da vergonha que passara. Todos o olhavam. Subiu um calor do seu ventre até à cabeça e, quase que inconscientemente, olhou para o relógio. Como que para disfarçar porque agira daquela maneira. “Espero que pensem que estou atrasado.”

Depois de segundos, pensou de novo: “Cadê meu livro?” Fuçou em sua bolsa desesperadamente, encontrou uma capa dura e nela escrito: Hegel. Respirou fundo e aliviou-se. Encostou-se em uma barra de ferro e esperou o metrô chegar ao Tatuapé.

Ele achava irritante quando seu tênis não ficava ajustado à calça e decidiu arrumá-la. Num baque, o trem parou e o jogou para frente. Ele caiu. Junto com seu livro, sua bolsa e tudo o que lhe parecia lógico. Ficou estirado no chão por um tempo e, por alguns instantes, ficou desprovido de tudo. Visão, olfato, paladar, tato e audição.

Depois de todos olharem novamente para o menino e de ele mesmo (tentar) se recompor, ele se levantou ao mesmo tempo em que a porta do metrô se abriu. Ele se jogou para fora num ato desesperado. Não sabia nem em que estação estava. Por coincidência, descera no Tatuapé e pegou o primeiro ônibus que vira.

- Este é o ponto do Ceret! – gritou o cobrador.

Duas senhoras desceram e, sem nenhuma explicação lógica, o rapaz as seguiu. Se viu num parque, onde as ruas bem asfaltadas não admitiam carros e estavam cheias de flores rosas caídas no chão. Tomou ar e se sentou num banco. Olhou fixamente as árvores, que tinham uma copa dura e imponente. As árvores se impunham ao garoto e lhe ofertavam flores.

- Como algo tão rude pode oferecer pétalas tão delicadas?

Estas pétalas fazem parte de uma estrutura chamada flor, que permite a reprodução das árvores. Elas nascem de algo maravilhoso. Se tornam incrivelmente belas e, novamente, presenteiam o lugar onde estão localizadas com lindas pétalas. E tudo isso sem nem precisar se mexer. Mas, quem não se mexe fica sujeito aos outros. À maldade dos outros. Ou pelo menos à necessidade dos outros de sobreviver. Portanto, ao mesmo tempo que essa árvore simboliza o milagre do nascimento e da beleza, ela morre sugada por parasitas. Parasitas. Parasitas, parasitas. Injusto?

O menino saiu correndo num ato ilógico e socou a árvore. Como que para descarregar toda a raiva que sentira. Ela respondeu imediatamente com o par força ação-reação. Nesse ato, ficou evidente sua mão, que, por sua vez, é ligada ao braço. O mesmo que tinha ficado preso na porta do metrô. Seu membro ficara preso por trinta segundos. Durante esse tempo, a única coisa na cabeça do rapaz era tirar seu braço de lá. Puxou com toda a sua força e, mesmo assim, nada aconteceu. Embora tenha sido por apenas alguns segundos, o que o garoto mais queria, naquele momento, era se desvencilhar daquela situação. Mas não conseguiu. Só o realizou quando outro permitiu. Impotência?

Era como se pensamentos, emoções e experiências de uma vida inteira tivessem entrado na cabeça do jovem nesses últimos 40 minutos. Transtornado, ele caminhou desequilibradamente até a saída do parque. Lá, deu de cara com uma estátua que via sempre, um monumento que nunca lhe chamou atenção. Afinal, aquele era seu bairro, portanto, estava acostumado a ver aquele monumento sempre. Era uma representação do Deus Apolo, o deus, entre outras coisas, da luz, juventude e beleza. No entanto, ele se apaixonou por Dafne, que nunca quis seu amor. E toda essa vitalidade de nada serviu já que não conseguia obter o que queria. Insosso?

-x-

Seis e quarenta e cinco da manhã. O despertador sugere que o menino acorde. Acordar de manhã é ser conivente com a vida que sempre levou. Porém, não acordar não mudará tampouco mudará algo. Então, ele acorda. Quando abre os olhos, sente nojo do cheiro do seu quarto. Da textura do seu lençol. Da parede à sua frente. Do gosto na boca ao acordar. E do barulho do despertador. Ele finalmente havia entendido o que é viver.

Fabrício Bernardes, que agradece profundamente à eterna Clarice Lispector.

Les Nouveaux Riches

Quando me propus a escrever sobre o bairro paulistano Jardim Anália Franco, já sabia que não seria algo fácil. Os orgulhosos moradores do Anália normalmente, quando dizem onde moram, estufam o peito e dizem: “Na ZL… Quer dizer, no Jardim Anália Franco”. É difícil escutar essas duas informações disjuntas. Dizer Anália Franco no final da frase, para os habitantes desta região, é como uma desculpa para morar na Zona Leste.

A palavra que mais se escuta quando pedimos para descreverem a região é “bairro nobre”. E logo em seguida, “os apartamentos aqui passam de um milhão”. A história do Jardim Anália Franco é uma receita de bolo para os outros bairros que um dia sonham em ser nobres. Junte muitas casas de classe média e as derrube para construir vários prédios, construa um parque com restos de Mata Atlântica, faça uma lavagem cerebral nesses moradores e os faça crer que são os novos ricos da cidade, inflacione o bairro o máximo que puder; a cereja do bolo é o Shopping Anália Franco.

Nada melhor, portanto, do que começar com o centro comercial do bairro, a cereja do bolo. Em tons de cinza-pastelado, o shopping mais parece uma murada do que propriamente o abrigo de uma série de lojas. Na sua entrada principal, podemos ver um jardim conservado, grama bem cuidada, do naipe dos campos de futebol que vemos por aí. A calçada que leva à entrada do shopping claramente se destaca comparada à calçada normal da rua. Não é de se espantar que os moradores da extrema Zona Leste (piores inimigos dos habitantes do nosso querido jardim), quando desçam do ônibus, se maravilhem com a calçada, a grama, a arquitetura. É deduzível o pensamento deles: “Isso aqui é ZL mesmo?”. Avançando à entrada, o clima é de ostentação. O cheiro agradável tranquiliza o olfato, acostumado a vários estímulos não muito agradáveis no lado de fora. O nariz relaxa, o cheiro de lavanda entra e você tem uma grande vontade de que sua casa cheirasse igual. A sensação térmica é outra também. O ar-condicionado. Parece que o shopping é o paraíso na Terra. Mulheres bem vestidas com a coleção passada da Zona Sul, o cheiro de lavanda que corteja seu nariz, o clima agradável. A turbulência só ocorre quando chegam os forasteiros de Itaquera. Daí é salve-se quem puder.

Já que os estrangeiros chegaram, é melhor sair do shopping, ele está muito mal frequentado. Um passeio pelo parque do bairro parece uma boa pedida. O único problema é que não sabemos ainda o nome dele. Antes, se chamava Parque Esportivo dos Trabalhadores, depois virou Ceret. No entanto, soa mais luxuoso batizar o parque com o próprio nome do bairro, portanto, o nome foi mudado novamente e agora se chama Parque Anália Franco. Entre os quero-quero e periquitos-ricos que lá podemos encontrar e as longas pistas próprias para caminhada e atletismo, nos sentimos dentro de uma cúpula verde. Dentre as anciãs árvores que embelezam o parque, destacam-se aquelas que deixam cair suas lindas flores rosas claras no chão. Fazendo com que as madames que lá vão se exercitar, sintam-se como entrando no altar do casamento novamente. É puro luxo, digno dos luxuosos e ostentadores moradores do Anália Franco, Les Nouveaux Riches.

Já que o assunto é vanglória, agora me dedico a descrever os famosos prédios milionários. Descobri que nesse bairro, prédios brotam, não são construídos. E a tendência é só aumentar. Sacadas espaçosas, fachadas coloridas e formosas, arquitetura moderna, traços finos e leves. Em frente às fachadas, arvorezinhas cortadas no estilo francês em contraste com o ultraje de ruas esburacadas e mal asfaltadas em um bairro tão nobre. Fora dos prédios, vemos madames alcançando seus carros desengonçadas. É o mesmo pitoresco da alta sociedade paulista no século passado andando com roupas apertadas e quentes em calçadas desniveladas e em um calor infernal. Gozado é ver a mesma fidalga olhando com desprezo a doméstica que passa ao seu lado. Já que quando a madame encontra-se na Zona Sul, se sente acuada igual.

Ah, Les Nouveaux Riches, vocês são luxo, glamour e ostentação. Diria que o último se destaca mais dentre os três. Nenhum outro lugar melhor para abrigar tais figuras que o Jardim Anália Franco. A pedra rara da Zona Leste. Cordialmente, deixo meus sinceros votos que o resto da Zona Leste não os venha incomodar enquanto vocês se divirtam. E vida longa ao Anália Franco! Até quando o metrô chegar lá…

Fabrício Bernardes