Eu e o Mar

É impossível não ter uma certa relação com o mar. Só sendo de outro planeta. Até quem nunca o viu tem algo a dizer sobre ele. Tem o carioca, que ama o mar, vê ele todo dia e não saberia o que fazer se não fosse assim. Tem o paulistano, que ama o mar, não o vê todo dia e dá graças a Deus por isso. E tem o mineiro, que ama o mar, quase nunca o vê e sente falta dele. Na minha opinião, é um pouco difícil desgostar dele. Ele sempre nos traz sentimentos tão bons. E ainda os supersticiosos dizem que água do mar cura tudo.

Mas, na verdade, o que poucos sabem é como o mar nasceu. Do que ele é feito e, principalmente, porque ele é do jeito que é. Para que eu possa responder essas dúvidas, vocês precisam conhecer a minha relação com ele. Eu sou paulistano, sempre morei em cidade grande e minha família tem uma casa no litoral há 50 anos. Eu nasci no final de novembro e, em janeiro, minha mãe já havia me levado para o litoral, com apenas um mês e pouco de vida. E, desde então, minha vida foi assim. Eu sempre vou à praia nas férias de janeiro, passo o ano novo lá e, depois, volto para São Paulo. Portanto, foram anos de contato com o mar. Eu não sou nenhum expert porque não nasci no litoral e nem lá morei. Mas sempre tive muito contato com o mar e sinto que ele também tem certa simpatia por mim.

Pois bem, um desses dias de janeiro, eu estava deitado em minha cama. Aquele velho ócio depois do almoço. Eu escutava uma música que trazia à tona sentimentos queridos que cultivo em mim e, de repente, começou a chover. Porém, fazia sol ao mesmo tempo. Eu, como grande admirador de fenômenos naturais, me senti obrigado a ver o mar, a chuva, o céu e o arco-íris. É uma combinação digna. Merece ser admirada. Quando cheguei lá, o mar me chamou e eu fui.

Fiquei com a água até o joelho olhando tudo que a natureza havia me dado de presente. E foi quando o mar decidiu falar comigo. Eu não sei porque ele me escolheu, nem se sou digno de saber. Mas ele me escolheu e, em uma enxurrada de palavras plantadas em minha mente, ele me disse tudo. Eu escutei com atenção.

Você já reparou que o mar é indeciso, hesitante? Quando você quer chegar perto dele, ele recua. E quando você quer ficar longe, ele avança. Você já percebeu que o mar pode estar bravo assim como pode estar calmo? Já parou pra pensar que ele é traiçoeiro? Que ele mata e abriga ao mesmo tempo? Que ele é evitado por muitos e também quisto por muitos outros?

Ora! O que é isso senão o amor? O mar me contou tudo. Na verdade, o mar são lágrimas. De alguém que, há muito tempo atrás, sofreu por amor. E, por assim ter sido, as lágrimas são salgadas. Esse alguém chorou tanto, mas tanto, que ele encheu mais da metade do mundo só de lágrimas. E estas são como o amor. Tem as características dele. E por que, mesmo você sendo pequeno, é normal sentir que seu amor é imenso? Porque alguém, pequeno como você, o transformou no mar. É por isso que quando olhamos pro mar fixamente, sentimos um certo vazio. Vazio este que vem devido à imensidão do mar perto de você. E, quanto mais se avança, mas você se perde nele e, uma hora, ele simplesmente te afoga. De novo, o que mais pode ser isso senão o amor? Por que tiramos a roupa antes de entrar no mar? Porque temos que entrar nele vazios, sem carregar nada conosco. Para que possamos amar alguém, temos que estar livres, soltos. E por que nos sentimos inseguros no mar à noite? Porque amar já nos priva de quase todas as armas racionais que temos, se entramos no mar no escuro, não temos nenhuma arma contra ele. Por que o mar às vezes tem ressaca? Porque o amor é pra sempre, ele não acaba. Portanto, às vezes, aquele alguém, que outrora sofreu muito, relembra e chora de novo, mesmo tendo superado a desilusão. E por que o mar só vê o arco-íris quando chove? Bom, daí já é demais. Ele não quis me contar.

Fabrício Bernardes

One thought on “Eu e o Mar

  1. Muito bom, não tinha lido esse ainda. Confesso que dei risada no terceiro parágrafo, lembrei de uma situação de fim de ano, em que bebemos, e simplesmente “o mar nos chama” hahaha! Adorei a relação com o amor, me fez refletir bastante! Valeu, abraço.

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