Eu não nasci em Montreal

É verdade, nada foi fácil para mim. Mas também não foi difícil. Porque eu estava descendo do ônibus hoje e tinha uma poça bem onde eu deveria pisar. Eu tive que pular e a tentativa foi medianamente cumprida porque eu acabei molhando os pés. Mas, tudo bem, poderia ter sido pior, eu não escorreguei.

Porque eu estou me sentindo tão estranho que decidi andar na chuva do caminho do ônibus até minha casa. Mas, tudo bem, pelo menos não fiquei doente. Portanto, tu. Tu não sabes o que eu vivi. Tu não sabes que nada viria facilmente para mim. Nenhuma promoção, nenhuma boa oportunidade, nenhuma caridade realmente grande e verdadeira, nenhum amor verdadeiro, nenhum kilo a menos comendo chocolate, nenhum teste a mais na Fuvest para passar na primeira fase, nenhuma preocupação a menos quando eu já estava preocupado, nenhuma patada a menos quando eu merecia, nenhum coice da vida a menos.

Porque, tu. Tu não sabes o que eu já andei. Tu não sabes quem eu já vi. O que eu já vi. O que eu sei. Tu não sabes o que eu fiz ontem. Tu não sabes que eu dormi apenas 3 horas hoje porque eu fui à balada ontem. Tu não sabes que eu entrei em um puteiro porque minhas amigas distribuíram bananas às prostitutas. Tu não sabes que eu dormi no metrô pela enésima vez e acordei na Guilhermina-Esperança. Tu não sabes que eu peguei chuva porque quis. Tu não sabes o cheiro da chuva que choveu enquanto eu passei. Tu não sabes que eu estava escutando Infected Mushroom enquanto andava/corria na chuva. Tu não sabes que, à medida que a música entrava em seu clímax, a chuva aumentava. Tu não sabes que o prédio no caminho me desejou, com letras escritas com luzinhas, FELIZ NATAL.

Porque, porque eu nasci para ser o outro. O segundo. E se tem uma coisa que o Criolo me ensinou e eu não vou esquecer, além de não existir amor em SP, é que é preciso ficar atento, meu irmão, quando uma pessoa lhe oferece o caminho mais curto.

Sinceramente, eu não sei o que a vida quer me ensinar. Eu não sei até onde eu vou acabar sendo o segundo. Sendo o misto, ficando longe das extremidades. Eu sei que eu nasci para ser o outro homem. Eu também, Drummond, nasci para ser gauche. Eu nasci para pegar metrô. Para passar calor com o iPhone no meu bolso fazendo suar minha perna. Eu nasci para não ser feliz com ninguém e todos ao mesmo tempo.

Eu não nasci para escrever poesia.

Eu não nasci em Montreal.

Eu nasci para ser incomum. Um indeciso. Eu nasci para não pertencer, para não ter, para pegar chuva e ser… e ser… e ser… Livre.

Tu entendes o que eu estou falando? Eu não nasci. Eu simplesmente vivo. Até quando der. Finalmente, tu não sabes a beleza de estar no meio, de ser o outro e de ficar em segundo. Tu não sabes enxergar beleza no normal. Tu não sabes apreciar o insosso. Tu não sabes usar cinza. Tu não sabes enxergar a beleza de São Paulo. Mas eu sei. E, por isso, com ou sem VOCÊ, eu vou ter sempre orgulho de ser quem sou, ir onde vou e estar onde estou.

Fabrício Bernardes

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