If you don’t come back

This is me trying to create a list of how it would be if you didn’t come back. Or how everything has been since you’ve been gone. It would be a sort of abstract of everything I have become, because it’s hard to define my personality without mentioning your absence. Want an advice? Don’t love. And you’ll only have love inside of you. Don’t begin. And you’ll never have to accept an ending. Because the end equates to fear. Fear of the uncontrollable and of the inevitable. Fear of you. And being afraid that, without you, everything would be like…

The rain would cease being serene and neat. It would lose the capacity to purify everything it touches.

There would be no life anymore. I wouldn’t know what to do.

My only companions would be the stars, which would bring short and rude news of how you’ve been.

The fields would lose the green. The strawberries would become bitter. The falls wouldn’t noise. The rivers wouldn’t wet me anymore. The flowers would lose their aroma.

I would become so big inside and so small outside that my body wouldn’t be able to walk anymore due to the weight of your absence.

The violins would only play funeral marches until my time would come.

My love for humanity and for my country wouldn’t mean anything else.

I would be made of nothing.

The nights of Insomnia would be forever cold and eternal.

The sea would be dry.

My memories of you would eventually eat me alive.

The world would become a huge desert.

And I’d never again smell your infinite scent.

Si no vuelves, no habrá vida
No sé lo que haré
No sé lo que haré…

clarice-lispector

Clarice Lispector: “Don’t listen to Beethoven’s Fifth Symphony and it shall never end for you.”

Fabrício Bernardes

Se você não volta

Isto aqui sou eu tentando criar uma lista de como seria se você não voltasse. Ou como tudo está sendo na sua ausência. Seria um apanhado de tudo o que eu sou, porque está difícil definir minha personalidade sem mencionar a sua falta. Quer um conselho? Não ame. E você terá para sempre somente amor dentro de você. Não comece. E você nunca terá de aceitar o fim. Porque o fim é medo. Medo do incontrolável e do inevitável. Medo de você. E medo de que, sem você, tudo ficaria assim.

A chuva deixaria de ser serena e asseada. Perderia sua capacidade de purificar o que toca.

Não haveria mais vida. Eu não saberia mais o que fazer.

Minhas únicas companheiras seriam as estrelas, que trariam notícias curtas e grossas de como você anda.

Os campos perderiam o verde. Os morangos se tornariam amargos. As cachoeiras não fariam mais barulho. Os rios não me molhariam mais. As flores perderiam seu cheiro.

Eu ficaria tão grande por dentro e tão pequeno por fora que meu corpo não aguentaria mais andar devido ao peso da sua ausência.

Os violinos tocariam marchas fúnebres até que chegasse minha hora.

O amor pela humanidade e pelo meu país não significariam mais nada.

Eu seria feito de nada.

As noites de insônia seriam frias e eternas.

O mar se secaria.

Minhas lembranças de você me digeririam.

O mundo se tornaria num grande deserto.

Eu nunca mais sentiria seu perfume infinito.

Si no vuelves, no habrá vida
No sé lo que haré
No sé lo que haré…

clarice-lispector

Clarice Lispector: “Não ouças a Quinta Sinfonia de Beethoven e ela nunca terminará para ti.”

Fabrício Bernardes

Amor sem amor

Tears (should) stream
Down your face
When you lose something you cannot replace

Então, lá estavam eles. Ela estava nervosa. Ele era um exibicionista. Ela não fazia questão nenhuma de fazer grandes reflexões do porquê se encontravam lá naquele dia, naquela noite. Em resumo, eles estiveram juntos por algum tempo. Se amaram — pelo menos ela o amou. A vida os separou, mas não completamente. Nada fora superado. Ela tratou de lidar com as lembranças da maneira mais rápida e dolorosa possível. Como se tivesse ido a um parque e lá tivesse enterrado todos os bons momentos — e não foram poucos — na areia. Mas certos dias aquelas memórias se enchiam de tanto brilho e luz que ultrapassavam a areia rude que outrora as ofuscou. Iluminavam o parque inteiro mesmo que fosse de noite. E ela chorava. Mas por dentro, nunca por fora. Cascatas jorravam do seu coração, mas seus olhos eram mais fortes que os diques holandeses. Não deixavam escapar uma gota d’água. O que era para ser um resumo foi uma grande reflexão na cabeça de Valéria, que estava sendo interrompida.

- Você não vai tirar a roupa? – indagou Pierre.

- Tire você primeiro.

Foi tudo casual. Mas era a única chance de ter Pierre de volta — nem que fosse por alguns instantes.

- Quero ser sua esta noite.

- Só esta noite?

- Se dependesse de mim, seria para sempre. Você sabe – retrucou Valéria.

Silêncio. Ele tirou a blusa e eles começaram. Não estava sendo tão maravilhoso quanto esperara. Na verdade, ela não estava conseguindo nem ficar excitada. Mas o que a gente não faz por quem a gente ama? Mesmo por quem um dia já nos deixou.

As coisas estavam indo bem. Até que Valéria cometeu mais uma das suas várias burrices.

- Eu te amo.

As três palavras ecoaram por todos os objetos do quarto do motel. Criado-mudo, abajur, telefone, paredes, televisão, portas, tapetes e até na cara do Pierre, que respondeu sem jeito.

- Eu também.

Depois de uns 30 segundos, Pierre acendeu as luzes.

- Te enxergo melhor assim.

E eles continuaram fazendo amor sem amor. Até que toca o celular dele.

- Um minuto, ok?

Passaram-se vinte. E ele entrou no banheiro para falar em particular. Valéria se sentiu a pessoa mais burra, insossa e sem valor do mundo. “Nem com os caras que eu conheço há uma semana isso acontece”, pensou. “Eles nem atenderiam o celular.” Valéria foi mais burra ainda e escreveu um bilhete. “Vou dormir em casa. Beijos.” E foi embora. E, igual a todos os dias que passam, nutriu um ódio ainda maior pelo amor que sentia por quem já amou sem culpa. Foi dormir em casa, mas não conseguiu dormir. Olhou para o seu celular e não recebera nenhuma mensagem de “desculpa”. Fechou os olhos e tentou dormir de novo. Conseguiu — mas acordou cheirando a Pierre. E, de novo, não conseguiu chorar.

Valéria Legat: é difícil esquecer o que a gente nunca quis olvidar

Valéria Legat: é difícil se esquecer do que a gente nunca quis se olvidar

Fabrício Bernardes

Pílulas de eternidade

A vida é feita de longas épocas sofridas e de pequenos momentos deliciosos. Nossos dias têm 24 horas. Nossos meses têm em média 30 dias. Nossos anos têm 365 dias. Nossos séculos têm 100 anos. Mas nossa memória deixa de lado toda essa numeralha e só guarda o que é especial. O que realmente nos marca — seja para o bem ou para o mal. O engraçado é que podem ser momentos extremamente intrínsecos e restritos. Ou histórias de terceiros que você escutou. Ou mesmo coisas simples pelas quais passou, mas que só você tem o poder de enxergar complexidade nelas. Chamo esses momentos de pílulas de eternidade. Pois o que pode não se repetir ficará guardado para sempre em nosso inconsciente. É quando a eternidade não passa de um momento e os momentos são eternos. E tudo isso regado aos melhores molhos para acompanhar a perpetuidade: o do acaso e o da simplicidade. Posso enumerar três desses instantes.

 

Imagem retirada do site www.tattodonkey.com

Laços infindáveis: a eternidade de um instante

 

1- Um dia, no começo do ano passado, estava atravessando a porta de vidro do meu andar na redação para ir pegar um café no térreo. Estava preocupado, com sono e mal-humorado. A faxineira, que estava passando por perto, me disse algo muito importante. “Sorria, menino. Você é muito mais bonito sorrindo.” Em seguida, foi embora, abrindo a mesma porta de vidro pela qual passei e continuou fazendo seu trabalho. Eu  não me lembro mais da feição da mulher, mas nunca vou me esquecer dessas palavras. Tenho certeza de que era um anjo disfarçado. E eu nunca tive a chance de agradecê-la — nem de sorrir para ela.

2- Em junho do ano passado, estava sentado em um ginásio de esportes de uma cidade no interior de São Paulo chamada Jacareí conversando com uma amiga. Estávamos nos Jogos Universitários de Comunicação e Artes, também conhecido como JUCA, do qual a Cásper Líbero participa. Ela disse que sentia muita falta do ex-namorado. E disse que só fumava — e somente aquele cigarro — para ficar com o cheiro do ex nas pontas do dedo. Fiquei tão tocado com a história que não consegui nem responder minha colega.

3- No ano passado, me formei em jornalismo pela Cásper Líbero. A festa de formatura aconteceu neste mês, em fevereiro. Queria muito passar o tempo com minhas duas melhores amigas. Mas não as encontrava de jeito nenhum. No entanto, encontrei familiares de uma delas. Eles fizeram uma roda em mim e pularam, dançaram e gritaram meu nome enquanto eu estava no meio deles. Nunca me senti tão querido numa noite.

Fabrício Bernardes

Dores de adulto

Sendo bem sincero, nunca quis ganhar muito dinheiro. Essa decisão deve ter sido uma mistura de criação com a minha própria personalidade. A minha geração de classe média é, de longe, a mais bem estruturada da história da minha família. Leia-se: eu fui a um dos melhores colégios do Brasil, a uma das melhores faculdades, me formei com apenas 22 anos e fiz três intercâmbios na vida. É claro que eu fui criado para ser alguém bem-sucedido, mas isso nunca influiu em nenhuma das minhas decisões. Ainda bem que nunca passei por dificuldades financeiras. Por isso, nunca me vi coagido a pensar num futuro em que houvesse dinheiro. Porque sempre assumi que o mesmo aconteceria comigo. “Se minha mãe conseguiu, eu consigo.”

Eu nunca enxerguei a vida pela perspectiva do dinheiro e do sucesso profissional. Sempre me imaginei fazendo algo que gosto e que, eventualmente, o dinheiro viria. Como se um fosse a causa e a consequência do outro. Até eu decidir fazer jornalismo. E começar a comparar meu trabalho com o dos meus amigos que faziam outro curso. Ficou claro que eu ia ganhar bem menos pela mesma quantidade de trabalho — ou mesmo para trabalhar mais. E, então, foi a primeira vez que apareceu o desespero monetário em minha vida.

“Eu vou ganhar mal o resto da minha vida.” Em seguida, eu tentava me acalmar, pensando em alternativas no jornalismo que me dessem dinheiro. “Você pode ser âncora de jornal.” Esqueça.

Essa foi minha primeira dor de adulto. E eu não tinha nem 20 anos quando ela apareceu. Nada fazia sentido. Minha vó trabalhava desde os 13 anos e sempre se orgulhou disso. Minha mãe se encaixa no estilo workaholic e sempre deixou claro para mim que trabalhar é a solução para todos os problemas da vida. Talvez porque ela nunca tenha feito um intercâmbio. Mas eu, com o perdão da palavra, estava cagando para trabalhar e ganhar dinheiro. Mas daí aconteceu e eu fiquei preso na dinâmica do laboro.

Uma mistura de orgulho, alpinismo social e inevitável sentimento de realização quando mostrava meus textos aos meus familiares. Embora estivesse infinitamente mais confortável indo apenas à faculdade, fazendo minha sesta, lendo meus livros e indo ao taekwondo.

Em seguida, as coisas foram se encaixando e eu comecei a trabalhar para valer. Achei um bom emprego e fui efetivado. É bizarro, mas agora sou eu quem edito os textos dos estagiários — eu tento ignorar o fato de que, não faz nem seis meses, eu estava na posição deles. Talvez seja porque eu cresci rápido demais. Talvez seja sorte. Talvez sejam os dois. O importante é que eu consegui (!). Estou trabalhando e, como disse meu primo uma vez, “finalmente você está ganhando salário de gente.”

Assim sendo, outra dor de adulto me apareceu. Ela diz respeito ao quão estúpido eu sou para administrar meu próprio dinheiro. Uma controvérsia, pois trabalho com negócios. Sabe aquelas coisas do tipo, “sabe administrar e dar pitaco no dos outros, mas no seu, é nulo.” É bem isso mesmo. Eu tenho pavor de caixa eletrônico. Não consigo acessar minha conta bancária do celular. Vivo errando minhas senhas e morro de vergonha por isso. Não consegui até hoje tirar todo o dinheiro da minha conta no Santander. Não faço ideia do esquema de salário que tenho — se eles pagam mês vencido, em quanta vezes eles pagam o salário por mês. Já perdi uns quatro cartões de crédito ou débito. Tenho pavor de andar com dinheiro no bolso. Odeio usar moedas, porque elas fazem barulho e eu demoro a contá-las. Tenho um cofre pesadíssimo em casa, cheio delas, como se ainda fosse legal — como aos 12 anos — juntar quilos e quilos de moedas. E tenho a impressão de que, não importa o que eu faça, os bancos estarão sempre me roubando e tirando vantagem de mim. Talvez essa não seja mentira. Enfim, será que não dá para voltar à época em que minha única preocupação monetária era se o dinheiro que minha vó me deu dava para comprar um saquinho de pão de queijo, um sorvete e um chiclete na padaria da esquina? Ah, só para constar, eu sou da época em que um pãozinho francês custava 15 ou 20 centavos.

Ontem, eu estava extremamente chateado comigo mesmo porque não sabia fazer coisa de adulto. Ainda não sei. Mas sentei com minha vó no sofá na hora da novela e ela me deu umas dicas. Acho que agora entendi como funcionam os caimentos dos pagamentos do meu salário durante o mês. Pois é. As dores de adulto chegam — exatamente como chegam as dores nas costas e de cabeça das quais minha mãe sempre reclamou. Acho que ela sempre quis que eu trabalhasse para que a entendesse melhor. Ok, agora eu a entendo. Posso voltar a ser criança de novo?

Fabrício Bernardes

Resenha – Dias de Inferno na Síria

Quem começa a ler o livro “Dias de Inferno na Síria”, do jornalista pernambucano Klester Cavalcanti, se depara com uma introdução confusa. Um flashback caótico anuncia uma série de deslizes jornalísticos e narrativos – inaceitáveis para a experiência e o currículo de prêmios que o autor coleciona – numa trama que deveria falar sobre a guerra na Síria, na cidade de Homs, mas acaba se transformando num relato de heroísmo sobre e contado pelo próprio Klester.

Não podemos dizer, no entanto, que o livro é de todo descartável. Mas, sem dúvida, o propósito da obra foi perdido ao longo das palavras do “sahafi” (jornalista em árabe), como Klester adora ser denonimado. Sobre a parte boa. Em meio a notáveis exageros da complexidade da situação vivida por Klester, revelou-se um povo muito parecido com o brasileiro. A população da síria, conforme o esperado de um árabe, é acolhedora e, em sua maioria, não apoia a guerra e nem as barbáries decorrentes dela. Ao ter mostrado – embora com certa carência de detalhes – os sírios com quem teve contato, Klester trouxe para perto do leitor o drama de quem vive na guerra. Uma das partes mais tocantes da obra é quando Klester é recebido sem cerimônia na reza de grupo entre os prisioneiros de guerra com quem dividiu a cela – sim, ele foi preso em território sírio. Mas, não, ele não foi mal tratado. Com certeza, teria sido muito pior se tivesse sido preso no Brasil.

Klester dividiu a comida, a água mineral, a água do banho e até o beliche com os companheiros de prisão. Entretanto, não estava bom para ele. “Ficaria muito feliz em ir embora da prisão (…) sem ter de fazer outra refeição na bacia de plástico, como se fosse um animal num chiqueiro, disputando a ração com outros bichos”, diz Klester em trecho do livro. Durante muitas vezes em que lia, me pegava pensando no que mais Klester queria. Será que ele não sabe que nem no Brasil ele teria um tratamento tão bom na prisão quanto teve na Síria? Eu cansei de contar as vezes em que Klester foi aconselhado a não ir a Homs. E todas as vezes, ele dizia que estava preparado para morrer. Como se não soubesse o que estava falando. Morrer numa guerra da qual ele não faz parte? Pela busca eterna da melhor reportagem? Chega a ser ingênuo. Depois, quando está na prisão, reclama da água, da comida, da temperatura, do ar – os companheiros de cela de Klester fumavam a toda hora. Não era ele que estava preparado para morrer a qualquer momento?

Falando em preparação, a obra passa a impressão de que Klester não estava preparado para cobrir uma guerra deste porte. Sinceramente, levando em consideração tudo o que está acontecendo na Síria, ele ainda decidiu não aceitar a recomendação de ir a Damasco antes de alcançar Homs do Consulado Sírio, que lhe concedeu o visto de jornalista. A palavra maldita. Toda vez em que Klester dizia que era jornalista, algo de ruim lhe acontecia. E quanto mais eu lia aquilo, menos surpreso eu ficava. Ele teve que esperar até a página 74 para perceber que dizer que era repórter não era uma boa ideia. Eu teria esse insight ao planejar minha viagem à Síria – sabendo que liberdade de expressão não é algo que agrada Bashar Al-assad.

No final das contas, o livro de Klester nos mostra que, por mais imperfeito que esteja seu plano de viagem e de atuação como jornalista, a sorte de se encontrar em um país com pessoas acolhedoras pode fazer a diferença entre estar vivo ou estar morto. Não é que Klester não tenha sofrido na sua tentativa de cobertura. Mas é que a história se concentra demais em como ele teve de se esforçar para superar os problemas por que passou – e que não eram tantos, ele não foi exatamente torturado. Foi preso e apontaram armas para ele. Pergunte quantos jornalistas não passaram por isso, ou pior, só nas manifestações de junho. De qualquer forma, a obra retrata a Síria que acolheu Klester – e que, nem de longe, é aquela que vemos tirar a vida de centenas de pessoas na televisão. Foram a Síria e seu povo que salvaram Klester. Foi uma Síria branda.

Fabrício Bernardes

Brasil e Portugal

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente algum cheirinho de alecrim
— Chico Buarque

Uma boa forma de falar de Portugal e Brasil é citando a inesquecível Carmen Miranda. Produto exímio de exportação, nenhuma mulher no mundo inteiro tinha feito tanto sucesso quanto ela. Ela conquistou Hollywood com uma simpatia extraordinária — e um talento verde e amarelo. Sambava de salto alto, tinha um voz linda e um visual único.

Por coincidência do destino, Carmen nasceu em Portugal. Alguns dizem que a cantora afirmava que nascera no lugar errado. Eu acho que não. Não acredito em coincidências.

É estranho. Falamos português. E nem assim nos damos conta de que Portugal existe. Claro, sabemos que Portugal está lá no mapa. Também dizemos no senso comum que eles são burros, bigodudos e comem bacalhau. As pessoas me dizem: “minha família veio de Portugal, tenho até o passaporte.” E a história acaba aí.

Nossa relação com Portugal é tão enfraquecida que os brasileiros gostam de culpar os portugueses por todos os problemas do Brasil. “Eles roubaram nosso ouro, exploraram nossa cana de açúcar, nosso pau-brasil, etc, etc, etc.”

Retomando a Carmen Miranda, esses dias eu estava no Youtube escutando “Disseram que eu voltei americanizada”. Carmen compôs essa música para dar uma resposta àqueles, no Brasil, que diziam que a artista tinha se esquecido das suas raízes. Que ela estava muito rica e chique. Que não se lembrava nem mais de que o Brasil existia.

Mas nos comentários do vídeo, ninguém falava do assunto que Carmen aborda na canção. As pessoas estavam brigando. Eis o segundo comentário mais votado do vídeo. “Sim, é xenofobia mesmo, não tenha dúvida.. vcs nos colonizaram, não nos fizeram nenhum favor, pq acham q merecem alguma valorização da nossa parte? Vcs são oq são: um país pequeno com uma cultura conservadora. Nós somos um país continental, de culturas vivas q se transformam, se misturam… talvez seja isso oq atraiu a Carmen. Eu, pessoalmente, não detesto, mas também não me sinto nada ligado a Portugal, mesmo sendo descendente” (sic).

Chega a me dar calafrios. Como podemos não estar ligados a Portugal? A burrice penderia mais para o lado do Brasil do que para o lado dos lusos se fôssemos considerar a frase do gajo como a opinião de todos os brasileiros. Embora muitos, infelizmente, pensem assim. Sérgio Buarque de Holanda, um dos maiores historiadores do Brasil, escreveu uma obra-prima. Que todo brasileiro deve ler. “Raízes do Brasil”. Talvez o livro mais completo e sóbrio sobre a cultura brasileira. Sabe como ele começa o texto? Falando de Portugal.

Um dia, estava na L’Occitane, em Paris, conversando com uma amiga do Rio — em português, é claro. E a atendente francesa nos perguntou se éramos brasileiros. Dissemos que sim. “Eu percebi que não eram portugueses. Vocês falam brasileiro.” Fiz questão de explicá-la que, sim, falamos português. O português brasileiro não é uma língua, e sim uma variante.

É cômodo renegar as origens. Afinal, para que se atrelar àquela coisinha na ponta esquerda da Europa? Eles são os pobres da Europa. Portugal tem 10 milhões de habitantes. Só a cidade de São Paulo tem mais gente.

Mas foi aquela coisinha pequenina que conferiu ao Brasil os moldes em que ele cresceu. E se o Brasil é o que é hoje, seja nos bons e nos maus aspectos, é por causa de Portugal.

Na página do vídeo “Disseram que eu voltei americanizada”, a pauta não deveria ser Brasil versus Portugal e, sim, Brasil e Estados Unidos. Carmen caiu como uma luva para os americanos que, na época, colocavam em prática a famosa Política da Boa Vizinhança. Carmen representava não só o Brasil, mas a América Latina. Todo mundo sabe que as intenções americanas não eram de fazer amizade com as Repúblicas da Banana. Era de explorá-las. E conseguiram (conseguem) muito bem até hoje. Mas, não. O assunto era a rivalidade entre Brasil e Portugal.

Ok. Também não dá para dizer que os portugueses sempre fizeram questão de estar ligados a nós. A própria independência do Brasil é uma prova disso. Quando a elite de Portugal renegou os brasileiros nas Cortes de Lisboa, foi inevitável que o Partido Brasileiro não arquitetasse uma cisão entre Brasil e Portugal.

Fomos renegados outra vez quando Portugal entrou na União Europeia, desfazendo laços diplomáticos conosco. Principalmente aqueles que permitiam a entrada de brasileiros que queriam viver em Portugal.

Mas não dá para deixar a conta vermelha no lado dos portugueses. Eles sabem muito mais sobre nós do que nós sabemos deles. Eles escutam nossas músicas, consomem nossas novelas, nossos programas, etc. Por outro lado, cadê os brasileiros que entendem de Portugal? Pouquíssimos. Preferimos falar dos Estados Unidos, da China, do Reino Unido, até da Argentina.

Eu particularmente acho esse desprendimento com nosso bom e velho pai muito desfavorável à cultura brasileira. A rivalidade, então, chega a ser sem sentido. Sabe aquela velha história de “é preciso conhecer o passado para entender o presente”? Pois é.

Fabrício Bernardes

De pouco em pouco

But I really didn’t mind because I knew that it takes getting everything you ever wanted and then losing it to know what true freedom is — Lana del Rey

Ele pegou o seu cigarro e o atirou na calçada. Ao fazer isso, jogava também uma série de oportunidades no chão. A oportunidade de levar uma vida mais saudável. De conseguir uma promoção. De encontrar o amor da sua vida. De mudar seu país. De ter uma ideia genial. De ser mais feliz. A cada cigarro que jogava no chão, percebia quão rude e insossa a vida pode ser. Exatamente como as pessoas que encara quando utiliza o transporte público de São Paulo. Talvez ele não parasse de fumar porque o seu único companheiro verdadeiro fosse o cigarro. O resto são nuances da vida. Meandros do tédio. E cânions de infelicidade.

O que escutou antes de conselho não serviu. O que uma vez desejara não se concretizou. O que antes não lhe incomodava agora incomoda. Nada saiu como planejado. As coisas foram, simplesmente, acontecendo e envelhecendo. Assim como ele.

O garoto — que quase já não é mais um gajo e agora está mais para homem — vai levando. Uma vida cinza, numa cidade cinza, num contexto cinza. Sem muitas perspectivas e motivos para se sentir realmente feliz.

Não é pessimismo. É simplesmente o que é. Então, quanto mais cigarro jogava na calçada, mais desânimo tinha. Quanto mais crescia seu cabelo, mais solitário se sentia. E o pior? Ninguém vê. Porque não parece.

Afinal, por que estar triste? Não há tantos motivos assim. Ele tem todos os seus membros, casa quente no inverno, comida gostosa quando almoça em casa, dinheiro para sair, amigos para conversar, cerveja para beber, trabalho para trabalhar, faculdade para estudar, pegar metrô para chegar, família para amar, etc…

Mas também não via motivos para estar feliz. Ele simplesmente existia. He just rides. Tanto faz se aqui ou lá. Tanto fez se hoje ou amanhã. Ele poderia esperar tudo da vida. Menos que ela fosse tão indiferente assim com ele.

A vida o anestesiou — capitalismo, São Paulo, bons costumes, preconceitos, solidão, dinheiro, aparências, falsas necessidades, consumo, roupas, celular. Só lhe sobrou um cigarro.

Who are you?
Are you in touch with your darkest fantasies?
Have you created a life for yourself where you’re free to experience them?
I have. I am fucking crazy. But I am free — Lana del Rey

Fabrício Bernardes

Estranho Brasil

Boa noite Brasil, são 11 horas da noite de uma terça-feira. Nossa. Wow. Como estamos diferentes desde o meu último post. Passei, junto com meu País, por poucas e boas desde então. Há mais ou menos duas semanas, fui recebido pela Polícia Militar, em São Paulo, com bombas de efeito moral porque protestava contra 20 centavos a mais na passagem do transporte público na minha cidade. Passei por um pânico horrível. Fui encurralado de um lado pelo choque e de outro pela cavalaria. O que eu tinha feito? Tinha gritado, com mais umas 100 pessoas ao lado, “sem violência”. Isso foi quinta-feira, dia 13 de junho.

Então, fiquei, literalmente, puto. Contei tudo o que acontecera no Facebook. Compartilhei fotos, depoimentos, xinguei a polícia e fiz até piada deles. Afinal, eles haviam proibido os manifestantes de portar até vinagre, usado para amenizar o efeito das bombas de gás lacrimogênio. Então, segunda-feira (17), fui às ruas novamente com toda a minha gana. Eu, e mais um monte de gente, havíamos sido desprovidos do direito de manifestar. O que é, até certo ponto, compreensível – embora inaceitável – pois há tempo não lidávamos com movimentos sociais de peso no País.

Cheguei à Avenida Faria Lima, palco do quinto ato contra o aumento da tarifa, munido. De todas as maneiras imagináveis. Havia trazido um cachecol para respirar por ele para quando jogassem bombas em mim. Um óculos de natação, porque meus olhos arderam demais quinta-feira. Uma camiseta confortável, uma barrinha de cereais e um lanche que eu comprei na saída do trabalho para não ficar com fome, pois sabia que aquele seria um longo dia. Meu primo foi vestido à Clube da Luta. De jaqueta de couro e bota de aço (sim, de aço, nem sabia que isso existia).

Foi muito estranho (agora essa palavra vai começar a surgir no texto demasiadamente) andar na Faria Lima na RUA. Eu, que sempre passei por essa avenida com pressa, na calçada, literalmente esmagado pelo sistema, correndo para chegar a tempo na aula do francês, estava lá andando com calma, com um cartaz na mão, ao lado dos meus amigos (encontrei gente do meu antigo colégio, da faculdade, do trabalho e até da minha família — meu primo). Eu estava empossado. Nunca andara naquela avenida me sentindo tão forte. Gritava, pulava, sorria por dentro, porque havíamos mostrado quem mandava no País.

Andamos, com certeza, mais de 10 quilômetros. Acabamos na Avenida Paulista — a quem eu gostava de apelidar de Bastilha. Sonhando com uma revolução desse porte no País. E olhe. Fizemos história. Só falaram de nós nos jornais de fora e a mídia tradicional brasileira não podia mais nos ignorar ou nos rebaixar. Já éramos grandes demais. Então, viramos queridinhos deles também. Até página na Wikipédia ganhamos! A Revolta da Salada. Formidável.

Porém, desde então, tudo começou a ficar muito estranho. Um clima de incerteza pairava no ar dos dias que iam se passando. Eu comecei a me ausentar. Não sabia mais o que pensar. Sim, era muito mais do que 20 centavos. Mas estava tudo tão nebuloso. Então, umas coisas mais estranhas ainda começaram a acontecer. Coisas tipo: #ogiganteacordou, As 5 Causas, #chegadepartido, #oportunistas, etc.

Então, vimos um bombadinho quebrando a prefeitura de São Paulo em imagens em todos os noticiários. Arrastões, vandalismo de verdade. E a polícia, que antes nos tratara como baratas, na terça-feira (18), praticamente não existia. Nem para colocar ordem nessas pessoas que, realmente, não respeitavam o patrimônio público. Porque não tinham e não sabiam nem pelo que protestar.

Desde então, essa revolta tem sido um show de erros de todas as partes. Até da que eu me sentia mais parte. Muitas pessoas que acordaram atrasadas quiseram fazer parte dessa festa, ops, dos protestos. Teve gente que se aproveitou disso e teve gente que não soube lidar com isso. A grande mídia soube tirar proveito. Beatificou as manifestações e deu um caráter próprio a elas. “Protestos contra a corrupção, a favor da educação e contra o governo atual”. A esquerda disse que não fazia mais parte desse aglomerado e falou nas redes sociais: “isso não me representa mais”.

Por fim, tudo acabou estranhamente à brasileira. O preço da passagem abaixou, os pedágios não subiram e a PEC-37, mesmo eu não sabendo ainda se isso foi bom, foi arquivada e… Por enquanto só isso. Esse post foi estritamente historiográfico. É bom escrever para que, depois de um tempo, eu — e quem esteja lendo isso — não me esqueça de como foram as coisas. Quem ficou do lado de quem e como tudo acabou, estranhamente, à brasileira.

Fabrício Bernardes

A classe B virou brega

No Brasil, por mais que você tente negar, a classe B virou brega. Felizmente. Não se fala mais de Bela Vista, de Jardins, de Santo Amaro, de Perdizes. A graça, a festa, é morar perto do Itaquerão. O Corinthians honra seu status de maior time do Brasil e, há tempo, tem dado show no futebol. Torcer para os riquinhos do São Paulo e para a italianada do Palmeiras é mainstream.

Na mídia, não se fala mais de europeus que vêm para São Paulo. Agora, é Haiti e Bolívia. Quem se diverte de verdade está dançando o Quadradinho de Oito com os amigos, não está mais indo à Vila Madalena escutar “samba de raiz”. O Haddad quer trazer a Universidade Federal de São Paulo para as zonas norte e leste.

A classe B é “meio intelectual, de esquerda”. A classe C bomba nos jornais, está na boca do povo, está nos aeroportos, nos eventos e nos shoppings. A classe C compra mais do que você. A favela faz música, o shopping de Itaquera fatura mais do que o do Anália Franco. Não tem mais graça ter passaporte europeu. Brasileiro não precisa mais de visto para entrar na Europa.

A classe C vai aos pontos turísticos de São Paulo e tira foto, faz bagunça e se diverte. A classe B passa de carro, com medo da blitz à noite. E ainda acha “brega” quando vê “neguinho” tirando foto no Masp. O Criolo arrasa nas letras sobre o Grajaú. A classe B dirige bêbada, arranca braço de ciclista e sai fugindo em seguida.

É cômico. Dá vontade de rir. Da breguice da classe média alta brasileira – e pior, a paulistana. A classe B compartilha abaixo assinado do Avaaz no Facebook. A classe C “joga a real e moshtra que tu ‘tá’ eshcrota”.

A classe B é chata. Não é rica e nem pobre. Não manda mais no País e está desesperada por isso. A primeira reação desses pobres coitados é o preconceito, é chamar os outros de brega. Já a classe C “sapateia”, entra nas universidades com cota e obtém resultado mais do que satisfatório.

A classe B se vangloria de ter ascendentes europeus, mas pergunte para eles se eles vieram de Madri, Lisboa, Roma, Paris ou Londres. Eles vieram dos “cafundós” de seus respectivos países, chegaram aqui e não sabiam nem falar “amanhã” em português – tirando os portugueses. Vieram para engraxar sapato, trabalhar em fábrica e fazer greve. Realmente, muito glamuroso.

A classe B não sabe se adaptar. Ela prefere rechaçar os outros a respeitar as diferenças. Paradoxalmente, ela se conforma estrondosamente bem com injustiças sociais, políticas e éticas em seu país. A classe média alta perdeu tudo. Está desmoralizada, incapacitada, fora dos “trending topics”, buscando identidade e sentindo saudade de um Brasil que não existe mais. A estes, intolerantes, extremistas, preconceituosos e elitistas, só lhes digo “sinto muito”. Porque a mudança chegou para ficar. E de tanto colocarem rótulos nos outros, agora provam do mesmo veneno. São chatos, bregas, inadequados e anacrônicos.

Fabrício Bernardes